Romy Schneider

Les choses de la vie (1970)

Paris. Maio de 1982. Em meio a barbitúricos e uma dose considerável de álcool, foi encontrada morta em seu apartamento, aos 43 anos, Rosemarie Magdalena Albach.

Talvez não fosse a melhor maneira de começar falando de Romy Schneider, mas, talvez, seja morrendo que se nasce.

Desde que Romy interpretou a jovem-imperatriz da Áustria, o fantasma desse trabalho a perseguiu. Ela lutou com todo o seu talento a fim de não ter sua vida encerrada num só papel ou por qualquer teoria de personalidade que analisasse sua vida através de outras já tão mortas quanto. Este foi um dos dramas que a atriz alemã-franco-austríaca enfrentou, onde só pelas nacionalidades já se pode imaginar o quanto a personagem da imperatriz “Sissi” a sufocava.

Umas das mais belas e talentosas atrizes do século XX não poderia ter este fim. Não teve. Depois do grande sucesso da imperatriz-adolescente, na metade da década de 50, ela resolveu cair no mundo. Deixou a pequena “Sissi” na Áustria e foi atuar no cinema francês.

No filme La Piscine temos um banho de beleza, tendo como pano de fundo a comuna francesa de Saint-Tropez. Nele já é possível ver a estrela da atriz brilhar entre atores como Maurice Ronet e um de seus grandes amores, com quem quase se casou, Alain Delon. Destacava-se não só por sua beleza, mas pela intensidade nos papéis que representava, como na personagem “Marianne”, com aqueles olhos azuis, um sorriso ingênuo e ao mesmo tempo entregue à malícia de um triângulo amoroso; sem falar na festinha embalada ao som de músicas dos 60´s, com Jane Birkin, ainda nova, mostrando toda a sua fúria juvenil num papel instigante e provocador.

As duas ditam toda a trama com aquele jogo de poder que toda a mulher faz sabendo que vai obter aquilo que deseja, um pouco por conta de suas respectivas personalidades que se complementam. Em La Piscine é fácil perceber a docilidade e bons modos que a pequena musa trouxe da Áustria e de como já se livrara do espírito bonzinho . E nada melhor do que a Birkin, um Mick Jagger de saia, para o exorcismo.

Maurice Ronet, Jane Birkin and Romy Schneider in “La Piscine” (1969)

Nomes de atores, personalidades, lugares e datas dessa vida curta (e bem vivida) me escapam à memória no momento. Na verdade, a sensação de narrar uma biografia sempre me deixou sem jeito e deslocado. Mentira. Adoro brincar de Deus narrando vidas como se fossem personagens do meu filme imaginário — daqueles que a garotada não vê a hora dos créditos subirem para dar lugar aos filmes de Emmanuelle Arsan. Por outro lado, quem de nós já não se sentiu tentado em dar forma e sentido a vidas como a da Romy?

Olha, sinceramente, acho que tudo isso deve mesmo fazer parte das coisas que o tempo se encarrega de dar cabo um dia. Tudo vira pó. O que sobra é o nosso código¹ dado por Deus. Portanto, assim como a vida da atriz, ambos foram concedidos. Nenhum dos dois se toma posse, ao contrário, aceita-se. A isso chamo Integridade².

Ao passar dos anos, depois de uma paixão intensa por Alain Delon, mas ainda sufocada pela presença constante de sua mãe nos set de filmagens e na sua vida, Romy Schneider não aguentou a rotina sem graça da personagem “Sissi” assombrando sua vida particular. Casa-se, depois do fim do relacionamento com Delon, com o cenógrafo alemão Harry Meyen. Um casamento que durou nove anos e trouxe ao mundo seu primeiro filho, com certeza os anos de maior realização e felicidade na vida da atriz.

Em 1975 veio a separação e alguns problemas envolvendo a disputa pelo seu patrimônio, pois nesse período já era uma atriz bem-sucedida e consagrada na Europa.

Pouco tempo depois da separação ela se torna prisioneira de uma redoma de tragédias. Sim, perder o primeiro amor de sua vida para um suicídio não deve ser lá uma das melhores coisas. Não muito depois do infeliz episódio veio o golpe fatal. Foi no ano de 1981 que seu filho David, aos quatorze anos de idade, teve o corpo perfurado pelas setas da grade do portão, num acidente enquanto brincava na casa dos avós paternos.

Desde então a atriz entra numa profunda depressão, afundando-se ainda mais nos cigarros e na bebida. Fumando três carteiras de cigarros por dia, sua irmã não hesitou em dizer que ela estava se matando aos poucos, que ela era “um fantasma de si mesma”. Mas ela é forte. Continua de segunda à segunda se defendendo com os mais diversos papéis que a vida lhe vestia sem medo de se perder naquilo que já não tinha, deixando partir o pouco que lhe restou. Para alguns pode soar uma maneira leviana de se levar a vida e fazer vista grossa para uma segunda-feira enquanto a maioria segue empurrando os problemas com o barrigão de domingo. Coisas da vida.

Romy and David

Aliás, Les choses de la vie é o título de um dos filmes mais bonito que a Romy fez em parceria com o grande ator Michel Picolli. O filme é uma adaptação do romance de Paul Guimard, que se baseou na vida dessa bela atriz. Brincadeira. O livro do escritor francês não foi baseado na Romy. Poderia, tranquilamente. É que no meio a tantos personagens e romances, pude conhecer mais sobre a Romy assistindo seus filmes do que lendo a sua biografia ou assistindo pequenos documentários da TV alemã. Ela integrava sua vida com seus personagens, medos, sonhos, sorrisos, vícios, a morte que levou seu filho, a vida assombrada pela morte do amante em My Lover My Son, o humor negro de Le trio infernal, a dor da saudade em Fantasma d´amore, a maturidade escancarada da trilogia incrível de Bocaccio 70, a paixão e sensualidade de “L´important d´aimer” e muito mais. A lista não tem fim.

Imagino que ao morrer assistimos um filme sobre a nossa própria vida, sentado num gramadão verde, entre prados, campinas e rios de águas cristalinas refrescando nossos pés. Sempre ao lado daquele velhinho de barba e cabelos brancos. Caso seja verdade, acredito que faltou pipoca para o bom velhinho entender o que Romy Schneider e Jane Birkin aprontaram em La Piscine. Certeza.

Até hoje me impressiono revendo os filmes desta atriz de sorriso fácil que até chorava. E foi justamente num destes momentos, em que vida e ficção se misturam, que vi Romy se desmanchar em integridade diante do pequeno Wendlin Werner³, enquanto o menino tocava no violino Chanson d´Exil, em La passante du Sans-Souci, seu último trabalho, filmado em 1982, poucos meses antes de sua morte.

Sei lá, tenho para mim que quando não temos religião e não conseguimos uma intimidade com Deus, lágrimas como a da cena deste último filme podem ser o nosso único diálogo com Deus antes de partirmos para o lado de lá. O nosso único código de amor.

La Passante du Sans-Souci (1982)

¹ Caracterologia de René Le Senne;

² (…)Um dia uma moça libanesa me disse: “Você precisa botar honra no seu código”, isto é, me faltava integridade.” O poeta Bruno Tolentino contando sobre quando ouviu pela primeira vez alguém lhe falar a respeito da tal integridade. http://web.archive.org/web/20031011071800/http://www.cl.org.br/BTolentino.htm

³ Wendlin Werner - Fields Medal/2006