O hábito de pedir cabeças

Da Revolução Francesa ao processo de Impeachment de Dilma.

Para legitimar a Revolução Francesa, o Rei Luís XVI teve de enfrentar a forca, sendo decapitado em janeiro de 1793. A discussão sobre sua sentença, no entanto, não foi fácil. Houve debate sobre a violência da pena de morte. À época, o filósofo e historiador francês Jules Michelet cravou:

“Se aceitarmos a proposição de que uma pessoa pode ser sacrificada para a felicidade de muitos, em breve será demonstrada que dois ou três ou mais também podem ser sacrificados para a felicidade de muitos. Pouco a pouco, vamos encontrar razões para sacrificar a muitos para a felicidade de muitos, e vamos pensar que foi um bom negócio.”

Apesar de ter sido concebido no outro lado do planeta ainda no século XVIII, o discurso parece ecoar na realidade brasileira deste dia histórico. Não estamos falando de pena de morte, mas de uma punição pessoal como ação legitimadora da implantação de um projeto de novo sistema, o qual ainda nem temos a medida do quão novo realmente é. Mesmo assim, o que Michelet tem a dizer ainda neste Brasil do século XXI é que continuamos atrás de cabeças, legitimando atos de violência e ódio com objetivo de esconder o que há de profundo no debate político e ético de uma sociedade.

Nesta tarde, muitos ficaram felizes com a deposição efetiva de Dilma Rousseff, o que prefiro não tomar partido. Houve fogos de artifício, gritaria e buzinaços. Não era de se esperar que um país que ainda engatinha no processo de politização de seus cidadãos estivesse tão afeto à ideia do impeachment. Uma grata surpresa? Temo que não, sinto que o buraco é mais embaixo. Este é o segundo processo de Impeachment desde a campanha das Diretas Já, e o terceiro se contarmos o processo que atingiu Getúlio Vargas — que foi posteriormente negado — em 1954. Coincidentemente os três processos compartilham fatos em comum: relacionamento conflituoso com o legislativo e crise econômica.

Diante desse cenário apocalíptico, que alguns defendem como uma “democracia vibrante”, esconde-se uma estupidez atuante que se articula na escolha de um personagem-culpa como evidência final de um sistema de gestão historicamente falido. Estamos paralisados ainda no pensamento antropocêntrico da crise, onde um determinado personagem é mais importante do que as causas (longevas, diga-se de passagem) que atuam sobre ele. Ontem foi Collor, hoje foi Dilma. É triste, mas ainda encontramos a solução dos nossos problemas no hábito de pedir cabeças.

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