NA ONDA DAS DISTOPIAS

Distopia: antônimo de utopia. Ou talvez mais precisamente: distopia é a utopia não realizada.

A Onda Dura parece não ter sido capaz de perceber que continua a delatar-se, diante dela mesma, sobre as suas mais profundas intenções, quando escolhe para si conceitos distópicos clássicos. A começar pelo próprio nome, que remete àquele filme alemão em que o professor de autocracia cria um movimento despótico chamado – adivinhe: A Onda. E não subestime, pois a semelhança não está, infelizmente, somente no título. O professor Reiner cria uma legião de seguidores que o obedece em tudo o que diz, seja lá o que for. Aparentemente muito ingênua a facção pouco a pouco vai dando as caras. Os sujeitos, em ambos os sentidos da palavra, ficam de tal modo ludibriados e cegos a ponto de não mais perceberem que há vida fora da Onda – ou somente fora dela.

A Revolução Dos Bichos, de George Orwell, também denuncia a distopia deles. Os bichos cansaram-se do modo antigo de governo da fazenda, das regras, dos regimentos e das leis. Agora criaram a própria fazenda e podem deste modo exercer o seu próprio governo, suas regras, regimentos e leis. Sem perceberem que tornaram-se iguais aos humanos de quem haviam se rebelado; e hoje dormem no mesmo quarto em que dormiam os antigos fazendeiros. Espiando pela janela, já tornara-se impossível distinguir quem é homem e quem é porco. Um de seus principais mandamentos também é este: “Todos os bichos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.”

O 1984, também do Orwell, não ficaria de fora. Tudo é severamente controlado pelos olhos do Grande Irmão. Também há o crucial ministério da verdade, sempre estritamente preocupado em manter íntegras as ideias do seu ditador. Todos têm de pensar igual. E para isso também retira-se cuidadosamente do vocabulário algumas palavras, para que não haja nem mesmo a possibilidade de articular certas indagações. Quem pensa e lê coisas diferentes é rigorosamente perseguido e logo excluído. Julgam-se deveras ortodoxos, e como Orwell já elucidou: “Ortodoxia significa não pensar – não ter necessidade de pensar. Ortodoxia é inconsciência.”

Assim como em Fahrenheit 451, de Bradbury, os livros são queimados (não literalmente, claro) para não causar discórdia. Este que vos fala, assim como a velha senhora que na trama escolhe morrer junto aos seus livros, acabou também por escolha própria sendo queimado junto com os seus. Porque eu e aquela senhora cometemos o pecado supremo, que nenhum sistema totalitário é capaz de perdoar: pensar diferente.

O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, também conta a história de uma distopia. Um governo autoritário que vigia e reprime as pessoas de forma que elas têm de estar sempre bem, felizes e inclusas no rebanho. Manter-se só é algo ao mesmo tempo melancólico e perigosíssimo. Gente que cultiva a solidão é mais reflexiva – e nada ameaça mais uma autocracia que alguém pensante. Portanto, afim de conservar as ovelhas alegres para que não haja espaço a infortúnios questionamentos, o governo distribui a todos uma pílula entorpecente que as mantém imbecilizadas chamada: SOMA. Os revolucionários da Onda Dura nem de culto chamam mais suas reuniões, resolveram inovar e tiveram a brilhante ideia de chamar – adivinhe: SOMA. E é importante estar sempre confinado ao grupo, tomando as devidas doses de SOMA, para não acabar entristecendo e tendo ideias divergentes.

Huxley: “Nas mais altas religiões de todo o mundo, a salvação e a iluminação são paras os indivíduos. O reino dos céus está no íntimo de uma pessoa, não dentro da demência coletiva de uma multidão. Cristo prometeu estar presente onde dois ou três se encontrassem reunidos. Nada disse sobre a sua presença onde milhares de pessoas se envenenam umas às outras com o tóxico gregário.”

Portanto, qualquer coincidência é mera semelhança. Mas é claro que, apesar de muito pertinente, essa explícita similaridade com as distopias clássicas não fora intencionalmente pensada por eles. Porque afinal de contas, como em toda boa distopia, eles estão ocupados demais para pensar.

Willian Ricardo Soares ©

    Willian Ricardo Soares

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    ©️ Sou escritor porque escrevo e estou incluído, provavelmente, na lista das pessoas menos influentes do mundo. — Você duvidaria deste homem?