Afrofuturismo: A Diáspora Intergaláctica

Arte da capa do LP Bitches Brew de Miles Davis

A designação do termo Arte, substantivo feminino, vem do latim Ars, que significa habilidade. É definida como uma atividade que manifesta a estética visual, desenvolvida por artistas que se baseiam em suas próprias emoções, geralmente a arte é um reflexo da época e da cultura vivida. No Século V a.C., era considerada técnica, do grego tékn, onde esculturas e pinturas eram apontados como aprimoramentos técnicos.
 
Falar de arte, estando em uma cultura ocidental, é por definição estrutural falar de modelos eurocêntricos. Pensar em Afrofuturismo é propor um rompimento com essa estrutura, é pensar em Agencia Artística e Cultural Africana em Diáspora como motivação da arte contemporânea preta em todas as suas esferas, desde o nascimento da existência humana no universo, até a entropia*.

A interseção entre a cultura africana, tecnologia, libertação cultural e imaginação com algum nível de misticismo aplicado a teorias sobre o futuro e passado, reinventam a experiência de vida e afirmação existencial das pessoas de pele preta.

Óculos pelo artista plástico Cyrus Nganga

Dentro da indústria literária e cinematográfica, futurismo sempre esteve categorizado dentro de fantasia e ficção cientifica, como fã desses gêneros em todas as suas nuances possíveis, finalmente tenho a sensação de estar vivenciando um movimento cultural essencialmente preto e autodeclarado que flerta e produz suas obras dentro dessa temática. Novamente a galáxia e o futuro voltaram a ser protagonistas dos sonhos dos filhos de Áfricas e a boa ficção científica antes de tudo trata da essência das questões humanas através de devaneios futuristas diversos.

Estamos tratando então de questões fundamentais e intrínsecas à natureza humana, porém por vivermos em uma sociedade com base estrutural eurocêntrica e ideal de identidade norte-americano, as referências e o modelo ideológico padrão de ser humano nunca reconhecem como válidas as ideologias, filosofias, religião, morfologia e tecnologias africanas, ou seja, as obras de fantasia e ficção sempre refletiram esse modelo “padrão” de cultura eurocêntrico.

“Dentro da cultura, a marginalidade, embora permaneça periférica em relação ao mainstream, nunca foi um espaço tão produtivo como agora, e isso não é simplesmente uma abertura, dentro dos espaços dominantes à ocupação dos de fora. É também o resultado de políticas culturais da diferença, de lutas em torno da diferença, da produção de novas identidades e do aparecimento de novos sujeitos no cenário político e cultural”. — Stuart Hall

Entendo que o Afrofuturismo rompe com o protagonismo dos padrões centrados na Europa e apresenta-se como um movimento cultural que se utiliza de modelos de publicação de divulgação eurocêntricos, mas direciona a base e a agencia intelectual da arte futurista produzida para o continente Africano, desta forma, todos os desejos, ideologias, filosofias, estética, morfologia e tecnologias passam pela história e anseios do povo africano, potencializando a autoestima, a intelectualidade e a identidade das pessoas de pele preta, agora protagonistas reais de sua arte contemporânea, tanto das produções quanto dos personagens inseridos nela.

É inegável que a palidez eurocêntrica da estrutura social tem fator de influência, pequena ou não, em qualquer tipo de arte produzida no ocidente, seria correto dizer que o Afrofuturismo só pode acontecer em diáspora, ou, quando produzida no continente Africano, sempre sofrendo influências do colonizador?

Nnedi Okorafor

“Afrofuturismo precisa superar a sua miopia geográfica. Meu problema com Afrofuturismo é que ele tem sido tradicionalmente baseado e enraizado demais na cultura norte-americana. Autores como Fred Strydom, Lauren Beukes, e Sarah Lotz estão escrevendo ótimas histórias de ficção no continente africano. Mas é perigoso simplificar esta tendência. Não conheço um único escritor negro de sci-fi publicado por uma grande editora em África, e a maioria dos escritores que trabalham em África, estão situados na África do Sul e Nigéria, não por acaso, as maiores economias do continente “. — Nnedi Okorafor, em entrevista à revista Tor.

Creio que em diáspora, territorialidade física e mental, sempre serão pontos de atenção e confusão ideológica. O senso de pertencimento e autoestima podem ser pedras no caminho do desenvolvimento humano de pessoas de pele preta, consequentemente de suas produções artísticas, mal localizada estética e culturalmente, ou fator de autoconhecimento e desenvolvimento social e étnico.

O Nascimento Em Áfricas

É sabido que as antigas Civilizações Africanas Dogons, Núbias, Etíopes, Egípcias entre tantas outras, sempre estiveram na vanguarda tecnológica da humanidade.

Me alinhando ao pensamento de Ytasha Womack, ouso dizer que o conceito de Futurismo nasceu no momento em que o primeiro africano divagou e relacionou seus conhecimentos sobre espiritualidade, ao clima, tempo e espaço, então a partir daí transformou tais anseios em arte.

Já o conceito de Afrofuturismo, em minha reflexão, aconteceu quando o primeiro africano sequestrado divagou sobre os mesmos temas, porém tendo que analisar o fator territorialidade como “não natural” a sua origem humana e sua origem ancestral.

O Nascimento e a Influência Em diáspora

O Afrofuturismo, como movimento cultural próximo do que conhecemos hoje, nasce ainda sem nome, em meados dos anos 1960 tendo como um dos principais expoentes o músico de jazz, poeta, filósofo e produtor, Herman Poole Blount, ou como conhecido por nós terráqueos, Sun Ra
 
 Como bandleader de uma orquestra de jazz, a Sun Ra Arkestra, ele se apresentou para o mundo trazendo consigo um discurso totalmente crível e alucinante, que tinha como base a consciência humana e a paz. O artista afirmava não ser nativo do planeta terra, mas sim de Saturno, se autodenominando o “Deus da Raça”.

Sun Ra, o Deus da Raça

Assim como Marcus Garvey propôs um movimento de retorno à África, Sun Ra defendia que o futuro para os negros norte-americanos deveria ser intergaláctico, propondo assim a libertação de seu povo a partir de um retorno à Saturno. Em ambos os casos falamos de um retorno que não é necessariamente físico, mas sim referencial, espiritual e cultural.

A partir de sua Filosofia Cósmica Africana, Sun Ra seguiu influenciando na música, na poesia, no cinema e na moda. Um exemplo claro da influência de Sun Ra, mesmo sem nunca ter reconhecido isso abertamente, é David Bowie com seu famoso personagem Ziggy Stardust, cuja a data de criação é posterior as produções de Sun Ra Arkestra e possuem a mesma temática e estética, porém com leves mudanças conceituais. Talvez ainda sem subsídios contundentes e provas estruturais, mas sensoriais, eu chamaria o ato de plágio, não de influência.

LP Grace Jones — Slave To The Rhythm

Esse novo modelo manifestação artística, por ser multiculturalista (música, artes plásticas, grafites, desenho, fotografia, moda, cinema, teatro, dança maquiagem e etc.), foi emancipador para o povo preto norte-americano, que envolto a um turbilhão de informações contidas em um dos mais nebulosos períodos do século passado (luta pelos direitos civis), pôde filosofar, divagar ou simplesmente se vestir de acordo com a nova onda futurista.

Traçar a linha evolutiva de Afrofuturismo pode ser um exercício histórico social interessante e hercúleo, pois esse movimento não é linear, assim como nada em diáspora é, além de ser autofagista e nada hierárquico, apesar de organizado.

Autofagia e Categorizações Inevitáveis

Poderíamos chamar toda a filosofia intelectual das décadas de 1940, 1950 e 1960 baseada na vanguarda do jazz dos movimentos como Free Jazz, Hard Bop e Avant Garde, capitaneados por Sun Ra Arkestra, John Coltrane, Miles Davis, Don Cherry e Alice Coltrane como Afrofuturismo?

Lee “Scratch” Perry

E se pensássemos nas décadas que se seguiram, 1970 e 1980 com a psicodélica onda rock and roll capitaneada por Jimi Hendrix, ou o funk espacial de George Clinton (Parliament / Funkadelic), Prince e Grace Jones, ou até mesmo, e porque não, a viagem espacial jamaicana com os dubs inovadores de King Tubby e Lee “Scratch” Perry, como Afrofuturismo?

Eu digo que sim. Porém com ressalvas.

Devemos tomar cuidado para que em um ímpeto de emocional não definamos tudo como Afrofuturismo, encobrindo assim o valor histórico de cada manifestação cultural africana existente em seu período. É nosso dever não cometer anacronismos, nem tampouco categorizar expressões artísticas pretas de forma que se tornem produtos ressignificados e dispostos a venda em uma prateleira de mercado.

Por mais que eu defenda que devamos lutar contra os estereótipos produzidos pelas categorizações porque elas têm como função básica colocar produtos à venda, minimamente devemos ter categorias para que possamos localizar nossos artistas e suas obras.

Mark Dery

Exatamente ano de 1994 o termo Afrofuturismo foi então criado e ganharia a dimensão que tem hoje para definir o que seria todo esse movimento cultural. O não negro escritor americano Mark Dery, cria essa definição para englobar toda essa estética artística futurista africana em seu ensaio de nome, “Black To The Future”. Neste ensaio ele diz tratar do seguinte tema: “Ficção científica e cybercultura do século XX a serviço de uma apropriação imaginária da experiência e da identidade negra”.

Apesar de não concordar quando ele diz que é uma apropriação imaginaria, acho essa uma definição bem válida sobre o que é Afrofuturismo. Desde então, muitos artistas vêm criando conteúdos se declarando Afrofuturistas. E como não há linearidade nas produções, outros tantos vêm tendo sua arte reconhecida pelo público como tal. Alguns exemplos:

Barack Obama Sci-Fi

No Hip-hop
OutKast, Janelle Monae, Oshun, Augusto Oliveira, Shabazz Palaces e Dr Octagon.
 No Soul
 Erykah Badu 
 No Techno (Detroit) 
 Drexciya
 No Jazz
 Flying Lotus.
 No Manguebeat 
 Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A
Música Popular Brasileira
 Elen Oléria 
Na Literatura
Fabio Kabral, Ytasha Womack, Nnedi Okarafor, Octavia Butler, Fred Strydom, Lauren Beukes e Sarah Lotz 
 Nas Artes
 Maria Freitas e Cyrus Nganga

O Futuro, Utopia ou Distopia?

Considero o futuro do Afrofuturismo promissor enquanto manifestação cultural, justamente por estar longe de ser somente estética ou subgênero da ficção científica.

As produções Afrofuturistas já ocupam índices expressivos de visualização na internet e adesão em festivais como o Afropunk, que é composto em grande maioria por negros caribenhos morando na américa do Norte, quando executado em Nova York.

Público do festival Afropunk

Os artistas pretos aprenderam a produzir com qualidade semelhante à do colonizador, para não dizer melhor, porém o Afrofuturismo ainda depende, em grande maioria das produções ao redor do mundo, de crowdfunding (financiamento coletivo) para sobreviver, e este ainda é um modelo muito novo de angariação de fundos. Há de se compreendê-lo perfeitamente para que possa ser utilizado de forma efetiva, comunitária, empresarial e estruturada.

Por mais efervescente que esteja a cena alternativa e independente, ainda não há grandes investimentos para produções Afrofuturistas no mainstream, e considero isso um problema pensando em poder financeiro e visibilidade. As pessoas de pele preta devem se apropriar não somente da técnica de criação artística, mas também as técnicas de produção, desenvolvimento cultural e distribuição de conteúdo produzido. 
 
 Neste momento existem uma série de desafios reais para Afrofuturismo navegar abertamente na cultura pop mainstream, é fato, mas problematizar sem propor alternativas não deve demandar mais esforço do que produzir a arte. Cabe-se até compreender se estar no mainstream é relevante para o Afrofuturismo.

Livro de Ytasha L. Womack
“As pessoas estão produzindo mais trabalhos e criando mais espaços para apresentar o seu trabalho, o crescimento tende a continuar. Em última análise, a criação de mais interseções de pensamento e trabalhos irá criar uma teia de cura e inspiração onde qualquer pessoa poderá se conectar e crescer a partir dela.” — Ytasha Womack

Tenho 37 anos e posso dizer que minha geração cresceu se contentando em ver artistas de pele preta executando papéis menores como o de Billy Dee Williams (Lando Calrissian) em Star Wars e Tina Turner (Aunty Entity) em Mad Max 3. Hoje vemos pessoas de pele preta protagonizando histórias, seja na trama ou na interpretação artística, ainda em número diminuto, porém em maior representatividade que no passado.

Temos todo o arco novo do Pantera Negra nos quadrinhos e sua aparição no cinema interpretado por Chadwick Boseman, temos o novo Homem-Aranha nos quadrinhos, caracterizado como o jovem negro Miles Morales, fora o estrondoso sucesso de John Boyega como o personagem e protagonista, Finn, no novo Star Wars. 
 
 Sem esquecer das diversas e elogiadas animações Nigerianas e Angolanas, além do astrofísico mais famoso do planeta, Neil de Grasse Tyson, ser autodeclarado e orgulhosamente negro. Vejo claramente uma enorme mudança no paradigma intelectual e na autoestima do povo preto.

Mesmo assim devemos nos questionar se filmes de ficção como After Earth (Depois da Terra) seriam produzidos com atores negros desconhecidos somente por serem bons atores, ou se tal produção só aconteceria com atores negros famosos como Will Smith e seu filho Jaden Smith.

Noise Gate é um curta metragem experimental de Sci-Fi que fala sobre viagem dimensionais

Hoje creio não estarmos tão restritos aos guetos quanto outrora, nem física, nem mentalmente como já apontava e ansiava o músico e compositor Fela Kuti em sua música “Colonial Mentality”, do disco “Sorrow Tears and Blood”. Só que estamos longe de estarmos fora dele, e talvez nunca estejamos, não antes de colocarmos em prática ações de mudança estrutural na sociedade, pois a luta anti-racista não é uma luta de ideias, é uma luta concreta e cheia de nuances.

Como cidadãos e pessoas oriundas ancestralmente de Áfricas, devemos consumir e conhecer toda forma de expressão artística Africana, seja ela futurista ou não. O apoio deve ser irrestrito, devemos nos ver no outro e sentir o outro, Ubuntu na prática cotidiana.

Enquanto artistas, devemos produzir, referenciar e categorizar Afrofuturismo sim, pois se esvaziarmos nossa criatividade em produções que possuam somente a linguagem apropriada para o comércio, logo o Afrofuturismo estará na mira da exploração por meio das indústrias da arte, para depois entrar na lista da exclusão do mainstream, assim como foi com o Blues, o Jazz, o Happening*, o Reggae e tantas outras expressões culturais autenticamente afro-diaspóricas.

“O homem africano que nos compreendeu é aquele que, após ter lido as nossas obras, terá sentido nascer em si um homem diferente, com uma consciência histórica, um verdadeiro criador, um Prometeu portador de uma nova civilização e perfeitamente consciente do que a terra inteira deve ao seu génio ancestral em todos os domínios da ciência, da cultura e da religião” — Cheikh Anta Diop em Civilisation et Barbarie

uma visão utópica cerca do tema Afrofuturismo, que é brilhante, não discordo de Ytasha Womack, porém acrescento que devemos ser muito cautelosos, obstinados e estrategistas, afinal de contas o Afrofuturismo ainda é uma criança pequena em desenvolvimento, olhemos com carinho para esse nosso filho caçula.

Erykah Badu

A cultura é fundamental para o combate contra o racismo e para a afirmação da nossa humanidade e autoestima. Não basta mudar a visão de mundo, é preciso mudar o mundo para que deixemos de ser alienados.

A designação do termo Arte, substantivo feminino, vem do latim Ars, que significa habilidade, essa “tal habilidade” já era imensamente desenvolvida em Áfricas antes de existir o latin. Os povos africanos sempre estiveram na vanguarda tecnológica, intelectual e artística da humanidade. Que nunca esqueçamos disso!

Vamos (re)construir nossos legados e nossa história na diáspora, afinal de contas, pensar Afrofuturismo é pensar ficcionalmente em Diáspora Intergaláctica e concretamente em Agencia Cultural e Artística Africana Moderna da Diáspora. Afrofuturismo é um dos motores da arte contemporânea preta em todas as suas esferas, desde o nascimento da existência humana no universo, até a entropia.

Não há limites para os filhos de Áfricas, somos Deuses da Raça!

Um curta mostrando o que aconteceria se Martin McFly fosse negro

Glossário

  • Entropia: É uma grandeza na termodinâmica, representada nas formulações da física pela letra “S”. De acordo com a Lei da Termodinâmica, quanto maior for a desordem de um sistema, maior será a sua entropia. Grosso modo, o termo é utilizado para descrever o dia que o Sol irá se apagar.
  • Happening: Traduzido do inglês, “acontecimento”, é um tipo de espetáculo dramático artisticamente concebido como uma série de acontecimentos sem continuidade, em que o imprevisto e o espontâneo têm papel essencial, envolvendo a participação da plateia. Esse tipo de apresentação era muito famosa durante a década de 1960, em teatros americanos e europeus, ou em clubes com apresentação de músicos de Jazz.

Bibliografia e Referências

Walser, Robert — Keeping Time: Readings in Jazz History
Calado, Carlos — O Jazz como espetáculo
Fanon, Frantz — Peles Negras Máscaras Brancas
Hall, Stuart — Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais
Diop, Cheikh Anta — Civilisation et Barbarie
Dery, Mark — Black To The Future

Alguns livros dos autores citados, clique aqui e baixe a vontade.

Perceba que na maioria das vezes que a palavra Afrofuturismo aparece no texto, ela é um link para textos, vídeos, documentários e entrevistas sobre o tema. O mesmo acontece com nomes de artistas e suas obras.

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