Falando Sobre Woody Allen

- Calaram-me Doutor!
- Você tem o que falar, calaram-te ou sua criatividade se findou? — Foi o que respondeu o psiquiatra, ao homem sentando simetricamente ao lado daquela horrenda cadeira de psicanalista.
- Sinto que é a plurivocidade da inconsciência afetiva que me calou. É o som da voz do outro, muitos decibéis mais alto que a minha própria voz. Mais robusta, encorpada, completando assim as lacunas faltantes em minha consciência e intelectualidade, de forma suave, ardilosa e magistral.
- É meu caro, não precisa de mim, você sabe que o Amor te calou!
- E minha voz Doutor, está perdida então?
- Talvez um dia essas vozes que escuta se tornem um canto a capela, fraco e juvenil, quem sabe assim você reencontre a sua voz, ali baixinha querendo gritar outra vez, trazendo-te então de volta sua consciência.
- Quem precisa ouvir a própria voz quando se sente completo e não mais enxerga a sombra como uma região escura e disforme formada pela oclusão de uma fonte luminosa? Uma vida de cinema mudo é tudo que queremos, queremos amar, mesmo que para isso calemos nossa própria voz.
- Tudo isso não passa de uma conversa torta, uma fuga da realidade de alguém inebriado por um amor doentio, clamando liberdade, mas temendo a iniquidade da solidão.
- Doutor, da forma que meu peito aperta pensando nisso tudo e vendo o quão feia é sua cadeira, não acredito em fuga da realidade, amor doentio ou solidão, acredito piamente que estamos falando sobre Woody Allen, e se minha vida se assemelha a dele, isso é muito sério.