Pelo Amor de Deus (For Heaven’s Sake)

Billie Holiday (Foto Divulgação)

A porta de entrada estava trancada, mas com um pouco de empenho eles conseguiram abrir a tranca e empurrar a cadeira que estava estrategicamente bloqueando a entrada. Eram dois homens muito bem-apessoados de olhar profundo que pé por pé entraram naquele pequeno apartamento e para a surpresa de ambos, estava muito arrumado e cheiroso. Então sem pressa os dois invasores começam a procurar por Kolowua.

- Este odor está insuportável.
- Realmente, mas tudo é parte do trabalho, você já deveria ter se acostumado com isso.
- Nunca me acostumo com esta situação, ela me incomoda deveras.
- Parece que o encontramos.
- Não é esse monte de carne podre que viemos buscar e você sabe muito bem disso.
- É, ele deve ser apegado a outras coisas materiais, todos são. Continuemos a procurar.

Com aquele olhar típico e curioso de detetive de séries de TV continuam vasculhando cada canto do apartamento, mas não há nada além de LP’s com capas empoeiradas fazendo moldura para aquele corpo morto deitado de forma desconfortável na cama. A seu lado também havia dois livros de Goethe e Cheikh Anta Diop.

- Que acha de jogarmos um cobertor em cima dele, seria mais digno ao encontrarem.
- Sabe que não devemos interferir neste plano, por mais nefasto que lhe pareça a cena. Com foco e um pouco de sorte logo partiremos de volta.

Com uma voz carinhosa e acolhedora, um deles chama baixinho: “Kolowua, você está aqui”? — Não há respostas.

Calmamente saem do quarto e sentam no sofá, decididos a aguardar por Kolowua. Havia muitas coisas empilhadas na sala, discos, fitas, livros, fotos, tambores, contas, brinquedos. Um deles, curioso, pega um livro e minuciosamente o analisa, lê, com um belo riso diz:

- Da uma olhada nesse livro aqui, que título mais curioso, “Deus foi almoçar”!
- Realmente um nome curioso para um livro.
- De que será que se trata?
- Você como sempre muito curioso e desatento, porque não lê a orelha do livro?
- E você sempre ríspido demais.
- Ríspido não, direto! Lacônico, metódico se preferir, acho mais elegante e condizente com meu ser.
- Ainda prefiro a rispidez como adjetivo às suas ações.
- Leia a orelha, divirta-se um pouco enquanto tento entender este caso sobrenatural de sumiço espiritual.

Há alguém sentado no chão com um LP da Billie Holiday nas mãos, parecia um vulto, então calmamente um deles se aproxima e carinhosamente toca o ombro daquela figura desolada, assustada e trêmula e pergunta:

- Kolowua?
- Sim, sou eu. O que fazem aqui?
- Não se assuste, nós viemos falar com você.
- Existem coisas acontecendo aqui que não consigo entender, existem fenômenos da física quântica que vivencio nesse momento, na verdade já a algum tempo. Se bem que a presença indesejada de vocês em minha sala é outro fenômeno que assusta a minha pessoa. Expliquem-se.
- Desculpe-nos, tivemos que entrar à força, a porta estava trancada e com uma cadeira bloqueando a entrada. Fala de fenômenos da física quântica, por acaso sabia que viríamos?
- Tinha um sentimento estranho no meu coração, por isso resolvi me precaver. Eles até tentaram me avisar, mas estava displicente demais com minhas obrigações. Tem ideia porque não consigo colocar este LP da Lady Day para tocar? Vejo a vitrola, toco nela, mas me parece impossível manipular a situação, não consigo controlar as coisas que sempre controlei. Queria muito ouvir minha música favorita: “What a Little Moonlight Can Do”. Conhecem esta preciosidade, meus jovens? Poderia falar horas sobre Lady Day e sobre essa música, faço pesquisas sobre Jazz e Blues, não vivo disso, mas vivo isso intensamente.

- Sabemos de tudo querido Kolowua, sabemos sobre todos de nossa comunidade.
- Há muitos anos atrás uma jovem, também nos pediu para tocar esta mesma música antes de partirmos, mas ela não tinha onde reproduzir o disco, faltava-lhe uma vitrola.
- Não me façam de bobo com seus conhecimentos abissais, por favor. O que querem comigo? O que está acontecendo aqui? É exatamente o que estou pensando?
- Sim. — Responde duramente o mais lacônico entre os dois.
- Você não se lembra como foi, querido Kolowua?
- Não. E agora?
- Agora iremos para um lugar que todos querem saber se existe ou não. Seu ciclo neste plano acabou meu amigo e neste momento não lhe explicaremos nada, mantenha a paz que tudo se resolverá no tempo certo, ok?
- Se estou morto, por que demoraram tanto para vir me buscar?
- Nunca tardamos.
- Chegamos sempre no tempo certo. Mesmo que este tempo não pareça ser o certo para você.
- Não sei se entendo, mas vejo que não tenho outra opção. Posso ver meu corpo?
- Você deve vê-lo.
- Vocês são anjos?
- Anjos? Essa concepção não é a que temos, nem tampouco a que mais gostamos, porém, para que não lhe causemos maiores confusões do que a que já está sentindo, sim, somos anjos.
- Por que sorri Kolowua? Acabou de ter certeza que está morto, irá se despedir de tudo que conhece e talvez não possa nem voltar, o que te agrada?
- Também não entendo porque sorri, esse é um fato incomum, mesmo aos que tiram a própria vida.
- Sorrio porque vejo que você é belo como a noite. Sorrio porque vejo que você é belo e negro como eu.
- Isso lhe traz satisfação?
- Me traz muita satisfação ser levado deste mundo por um anjo negro, melhor, por um par de belos anjos negros. Mesmo que eu não queira ir embora, mesmo que no fundo ainda esteja apegado aos meus discos, aos meus amigos, as noitadas, aos amores e a tantas possibilidades, agora impossíveis, por conta de minha partida tão prematura. Eu duvidava, todos em algum momento duvidam dessas convicções, a luta racial é árdua e dolorosa, mesmo para os que só vivem de acúmulo teórico. Ah se meus irmãos e irmãs pudessem vê-los…
- Eles poderão Kolowua, mas não agora. Todos verão de uma forma ou de outra.
- Tanta coisa nesta vida seria mais fácil sabendo dessas verdades, meu querido Anjo Negro.
- Vocês sabem das verdades, elas estão em seus quintais, nossa espiritualidade sempre esteve em nosso quintal.
- Eu tinha todas as coisas que sempre quis e pude pagar: O melhor colchão, a melhor TV, a melhor aparelhagem de som, roupas caras, calçados elegantes, amantes diversos e tantas outras coisas que o dinheiro me permitiu, agora simplesmente apodreço.
- Chore em paz. Não tenha pressa, este momento é só seu, mas como vê, tudo acaba.
- Vivi tudo que podia viver e fui intenso. Não choro simplesmente por que tudo acabou nessa terra, é obvio que quero viver mais, quero viver muito mais. Viveria eternamente se possível, mas, estou morto. Estou ali, deitado em uma posição horrenda em minha própria cama e não há o que fazer. É o fim, e ei de me acalmar e me acostumar com isso, afinal de contas, a racionalidade em excesso sempre foi parte predominante em minha personalidade, espero mantê-la enquanto morto.
- A racionalidade é um sentimento evoluído que lhe priva momentos.
- Eternidade, espaço e tempo, são coisas que você passará a entender de outra forma agora. Seja bem-vindo a eternidade.
- Eternamente morto? Sem sentir o gosto das frutas ou prazer imensurável de um orgasmo? Sem sentir a empolgação de um solo de trompete de Dizzy Gillespie ou o torpor de um solo de piano de Ray Bryant?
- Exato, é isso mesmo. Mas se orgulha da racionalidade por que esse desespero logo agora?
- Não consegue ver o que há de errado nesta cena? Não consegue mesmo ver o que há de errado meu lindo Anjo Negro?
- NÃO CONSEGUIMOS.
- Estou só. Morri só. Tao poucos anos de vida, tanta intensidade nas bebedeiras, nos choros, risos e orgasmos. Tantos amigos e debates, beijos apaixonados para no final estar totalmente só no meu ninho de amor acetinado, que agora é somente meu solitário leito de morte.
- Muitos morrem dessa forma e nos dias de hoje já não há novidade ou exclusividade nisso.
- Você está só por suas próprias escolhas. Chamar egoísmo de racionalidade é uma prática muito comum, amado Kolowua.
- Sim, realmente muitos morrem solitários como eu, e quanto ao egoísmo? Ele sempre fez parte do meu vocabulário. Desde os 6 anos de idade sabia que meu fim seria este, morto e sozinho em um apartamento cheio de discos, sem nenhuma samambaia ou gato, afinal de contas, um pouco de dignidade é sempre bem-vindo.
- Onde está a dignidade?
- Desde minha infância quando dona Zulmira, perguntava se queria me casar, respondia que meu fim seria exatamente como foi e é incrível ver que meu destino já estava traçado por forças além de minha compreensão.
- Se sabia desde os 6 anos que seria assim, porque não mudou algo? Vejo que mudou tantas outras coisas em sua vida!
- Sempre fui turrão e nunca aceitei fazer algo que não queria. Se havia algo em minha cabeça, levava isso a ferro e fogo, estando certo ou errado. Percebo que afastei todos os que me amaram. Nenhum de meus amigos me procurou por esses dias, mesmo os que mais amei e me dediquei. Todos eles me deixaram aqui apodrecendo.
- Eles tinham suas vidas e você já não faz parte em suas vidas, deveria ter construído sua própria família, mas não o fez.
- Devo me arrepender por tudo? Não seria igualmente egoísta ter filhos, sem querer os ter, somente para compor mais uma família desestruturada? Ser vítima dessa opressão étnica inominável que ainda hoje cresce e mata meus irmãos e irmãs? Fazer tudo isso para me tornar mais uma ovelha do Senhor, para desta forma não morrer sozinho? Tenho que pagar e ainda estou errado?
- Não responderemos essa pergunta pois a vida alheia não lhe diz respeito.
- Não use escolhas de outros para justificar as suas. Não maldize a fé alheia para justificar a sua, isso é o que eles fazem a séculos, quer mesmo ser um deles a essa altura? O que está feito, está feito, os covardes não assumem suas escolhas, não somos covardes, nossa linhagem não é de covardes!
- Sinceramente ainda não sei quem está certo, eles ou eu, mas é um fato, nas descendemos de uma linhagem de covardes. Estou arrependido de não ter tentado o outro caminho, por ter aceitado de forma tão dócil e servil esse destino. De certa forma também agi como uma ovelha do Senhor. E encontrei quem me amasse, encontrei quem queria dividir este teto comigo, mas tranquei a porta e joguei a chave fora…
- Seus caminhos já estão traçados, negro amigo. Kolowua, algo para dizer antes de irmos?
- Posso ouvir “What a Little Moonlight Can Do” da Billie Holiday antes de irmos?
- Não! Infelizmente não pode. Outras coisas preencherão seu coração a partir de agora. Irá descobrir o real sentido de eternidade, lindo espírito negro.

O Anjo Negro, pega o disco que ainda está nas mãos de Kolowua, se dirige a vitrola e coloca a primeira faixa que está no “lado b” do disco. Não é “What a little moonlight can do”, mesmo assim, Kolowua sorri ao mesmo tempo em que uma lágrima, grande e escura, escorre de seus olhos por agradecimento. Ao som de “For Heaven’s Sake” de Lady Day, os três se despedem do apartamento.

O telefone toca e ele escuta a voz de seu bom amigo deixando recado na caixa postal dizendo que passará mais tarde no apartamento, porque tudo acontece a seu tempo e entender as diferenças entre os universos e o real tempo das coisas é difícil. Seu choro vai se emaranhando com a voz ímpar e sofrida de Billie Holiday que diminui lentamente a cada metro alcançado na subida e como uma cena de filme o clarão o cega gradualmente, em seus ouvidos ficam as últimas palavras de Lady Day misturadas ao som de tambores vindos de outro plano…

Here is romance for us to try
Here is a chance we can’t deny
While heaven’s giving us a break
Let’s fall in love for heaven’s sake
Don’t say a word my darling
Don’t break the spell like this
Just hold me tight; we’re alone in the night
And heaven is here with a kiss
”.

Tradução:
Este é o romance para nós tentarmos
Aqui está uma oportunidade que não podemos negar
Enquanto o céu nos dá uma pausa
Deixe-se apaixonar, pelo amor de Deus
Não diga nada minha querida
Não quebre o feitiço assim
Apenas me abrace forte, porque estamos sozinhos no meio da noite
E o céu está aqui com um beijo

Música Incidental: For Heaven’s Sake
Composição: D.Meyer/Bretton/S.Edwards
Interprete: Billie Holiday (Lady Day)