O jeito certo de curtir a vida

Spoiler: não existe

Pra algumas pessoas, “curtir a vida” significa encher a cara e transar com pessoas desconhecidas. Você é uma delas?

Antes de começar a ler o texto, faça a si mesmo as seguintes perguntas:

  1. O que eu gosto de fazer pra me divertir?
  2. Eu faço essas coisas porque me divertem ou pra impressionar os outros?

Fez as perguntas? Respondeu? Então vamos ao texto.


Eu sempre fui uma pessoa mais caseira. Em partes pela minha criação bastante bairrista, mas também por gostar de sensação de segurança que o lar oferece. E um dos meus hobbies favoritos é jogar videogame. Posso passar horas a fio investigando cada cantinho de uma dungeon no Zelda procurando rúpias e itens escondidos, construir cidades gigantes no SimCity ou jogar infinitas rodadas de Counter-Strike sem cansar. É algo que me deixa feliz e me faz esquecer dos problemas da vida, ao menos por algumas horas. Também amo ler, ouvir música, assistir séries, beber, gozar (com ou sem sexo) e dormir, não necessariamente nessa ordem. Enfim, coisas que se pode fazer sozinho e sem precisar sair de casa. Até gosto de ir a outros lugares de vez em quando, encontrar com os amigos pra tomar um café ou uma cerveja e ir a umas festinhas aqui e ali, mas no geral eu prefiro ficar no conforto da minha casa.

Quem é desse tipo mais caseiro como eu já deve ter ouvido pelo menos uma vez na vida alguém dizer a clássica frase “vai curtir a vida!”. Essa provocação geralmente vem de alguém cuja definição de “curtir a vida” é bastante inflexível. Quase sempre envolve todo tipo de convenção social com amigos(as) ou pessoas próximas em locais variados além da própria casa, e pode envolver ou não o uso de drogas e/ou sexo.

Mas não estou escrevendo isso só pra afanar as minhas três Terezas. Na verdade este texto é um queixa que eu tenho a fazer contra essas pessoas que acham que curtir, aproveitar ou viver se resume a sair de casa, socializar, viajar, apreciar a natureza, transar, se drogar, ou coisas do tipo. E não se ofenda se esse for o tipo de coisa que você gosta de fazer. Este texto não é pra criticar quem tem esse estilo de vida. Meu problema aqui é com quem acha que todo mundo deveria viver desse jeito, mesmo que a pessoa não goste.

Eu tenho dois problemas sérios com esse tipo de abordagem. O primeiro é o clássico “cagar regra na vida alheia”. Que autoridade qualquer pessoa teria pra querer decidir o que outras pessoas devem ou não fazer ou gostar, porra?! Se alguém prefere passar dias deitado na cama fazendo binge de desenhos animados na Netflix comendo Doritos com Mountain Dew, qual exatamente seria o problema se ela é feliz assim? Se você é assim, fique sabendo que tentar decidir pelos outros o que é melhor pra eles é extremamente inconveniente e só faz eles criarem antipatia por você.

Gosta de ler trocentos livros e beber litros de café? Isso não é menos “curtir a vida” do que ir pra uma boate e beijar bocas desconhecidas, desde que te faça bem

O segundo problema é tentar predefinir o significado de “curtir”, como se fosse algo uniforme e restrito, excluindo quaisquer outras possibilidades de alguém se divertir, entreter ou ser feliz. Ora, não parece óbvio? Nem todas as pessoas gostam de passar dias e/ou noites fora de casa, se acabando em festas, se drogando licita ou ilicitamente, saindo pra todo tipo de lugar com amigos ou conhecidos. Ou em qualquer outra definição de “aproveitar a vida” que você possa usar. Isso sem falar nos milhares de povos e culturas existentes nesse planeta Terra de meu deus, alguns totalmente distintos uns dos outros, com “manuais de existência” próprios.

Minha dica é: não se limite, tampouco tente impor seus limites aos outros. E já que é pra usar frases clichês, aí vai uma: pense fora da caixinha!


Pois bem, voltando às perguntas do começo. Independentemente do que você escreveu na primeira questão (sinta-se à vontade pra me contar nas respostas), se a resposta da 2 foi “pra impressionar os outros”, você está cometendo um erro terrível. Nunca viva em favor de impressionar os outros, não importa o que você ganha em troca. Viver de fachada hoje só vai te fazer mal no futuro, porque aí sim você vai achar que não viveu como gostaria, isto é, não “aproveitou a vida”.

Agora, se a sua resposta foi “porque me divertem”, meus parabéns. Não importa o que você faz, se isso te faz feliz você está no caminho certo. Não vou debater aqui se o certo é viver muito ou viver intensamente, o que vale é o aqui e agora. Deixando o misticismo e a religiosidade de lado, a vida é única e deve sim ser aproveitada. Mas da maneira que te faça feliz, e isso você tá fazendo muito bem. :-)

Você pode substituir o “curtir a vida” por “curtir a si mesmo”
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