Um dia na vida de Marcos Resende

Perfil jornalístico publicado originalmente na edição 190 do jornal A Nova Democracia

O termômetro marcava 33 graus quando, às 15h50, em um bairro da zona norte do Rio, uma fila enorme de pessoas se formou em frente ao ponto do 665, linha de ônibus que faz o trajeto de aproximadamente 30 quilômetros entre a Tijuca e a Pavuna. O motorista, um homem de olhos miúdos e atarracado, cobrava as passagens enquanto esperava a hora exata, determinada por um relógio acima de sua cabeça, para começar a viagem.

Após superar a roleta, um passageiro precipitou-se logo para o lugar do trocador, profissão em extinção na cidade do Rio. Do alto da cadeira preta, com o celular em mãos, via o ônibus se encher com muita rapidez antes mesmo de sair do ponto. O barulho da catraca sendo girada era incessante. Quando a partida foi dada, restavam apenas três assentos vagos.

Marcos Resende está há cinco anos empregado como motorista na linha 665. Sua rotina de viagens começa ao meio-dia e só vai terminar muito tempo depois, às dez da noite. Uma jornada de trabalho que, além de extensa – são dez horas em frente ao volante –, não tem suas horas extras devidamente pagas, conforme exige a lei. “É muito cansativo”, resume Marcos, que realiza pelo menos quatro viagens diárias de ida e volta entre os dois bairros. Sobre a falta de trocador na linha, que atribui a ele uma dupla função, o motorista é enfático ao dizer que “isso não tem mais volta”.

Cerca de 77% da frota de ônibus na cidade do Rio circula atualmente sem trocador. O equivalente a 334 dos 443 itinerários existentes. Segundo a Rio Ônibus, a tarefa de dirigir e cobrar simultaneamente só pode ser feita em coletivos que tem 70% ou mais de passagens pagas com bilhete eletrônico. Desde 2012, nove mil cobradores foram demitidos. Já o número de rodoviários caiu de 45 para 28 mil nos quatro últimos anos. As informações são do Sindicato dos Motoristas e Cobradores da Cidade do Rio (Sintraturb).

Naquele dia, Marcos mal havia começado a viagem e já se deparou com um imprevisto na região do Maracanã. Um dos retornos da avenida Radial Oeste, utilizado todos os dias para facilitar a transposição de faixas, estava interditado por homens da CET-Rio, órgão da Prefeitura que cuida do tráfego na cidade. O motorista foi obrigado a conduzir o 665 pelas ruas do bairro até encontrar um retorno que lhe colocasse de volta à avenida que circunda o estádio. A manobra levou mais de 20 minutos.

O percurso inesperado foi marcado por comentários insatisfeitos de alguns passageiros. Alheio a tudo isso, Marcos seguia dirigindo rumo à Pavuna com o corpo ligeiramente inclinado em direção ao volante. No espaldar, uma toalha verde o protegia do contato direto com o banco sujo. Diante da tranquilidade e concentração com as quais conduzia o veículo, a advertência “Fale ao motorista somente o indispensável”, situada no painel acima do para-brisa e ao lado de uma câmera de vigilância, parecia supérflua ali. O trabalhador é um homem de poucas palavras.

O ônibus passou por outros bairros, entre os quais São Cristóvão, sede do jornal A Nova Democracia, antes de alcançar a avenida Brasil e, mais adiante, o destino final. No percurso, uma cena se repetiu incontáveis vezes: “Ô, piloto, abre aí”, pediam alguns passageiros. Acionar a “cigarra”, dispositivo sonoro que acusa que alguém precisa descer, não adiantava muito. Aquele 665, por estar em péssimas condições de uso, com assentos danificados e peças soltas em toda a sua extensão, fazia um barulho estrepitoso, dificultando que Marcos ouvisse o soar da campainha. O jeito era gritar, caso quisessem “saltar” num determinado ponto.

Durante toda a viagem, uma atenção fragmentada foi exigida do motorista: conduzir o ônibus em meio ao intenso trânsito da avenida Brasil, cobrar passagens, ouvir os nem sempre antecipados e gentis pedidos de parada dos passageiros. Entre uma viagem e outra, o prazo para descanso é mínimo, alguns minutos apenas.

Marcos denuncia o não cumprimento de direitos trabalhistas por parte da empresa. “Ninguém recebeu as férias e o décimo terceiro do ano passado foi parcelado em três vezes”. Luiz Alberto da Silva, que também trabalha na linha 665, diz que o pagamento dos salários dos fiscais referente a abril continua pendente. Segundo ele, a empresa demitiu pelo menos 500 trabalhadores do setor rodoviário desde o início do ano.

Apesar da vida cada vez mais precarizada por conta da crise econômica na qual o país está mergulhado, Marcos esbanjava felicidade e otimismo naquele que era o dia do seu 45º aniversário.