Não comentário sobre Bartleby, o escrivão

Sobre a impossibilidade de se escrever a respeito de um livro que não quer ser lido, que relata as aventuras de quem acha melhor não se aventurar, no caso, um escrivão que acha melhor não mais escrever. Um história de Wall Street foi escrito por Herman Merville, mas acho melhor que não tivesse sido.

Poderia escrever um review sobre esse curto livro chamado Bartleby, o Escrivão — Uma história de Wall Street?

— Poderia, mas acho melhor não.

Ainda assim, acha que as pessoas deveriam perder seu tempo e dinheiro lendo esse livro?

— Sem dúvida elas podem, mas acho melhor não.

O acabamento, material utilizado, a experiência de rasgar as páginas de um livro que não quer ser lido, as paredes cinzas intercalando o texto não justificariam um longo debate a respeito da obra enquanto objeto?

— Sim, mas acho melhor não debater.

Não acha curioso como os cacoetes do livro logo se internalizem e que seus leitores, na grande maioria dos casos, após a leitura queiram responder a tudo com o mote de Bartleby?

— Sim, acho curioso, mas acho melhor não fazê-lo.

Esse livro deveria ser enviado a cada escola e a cada universidade, a cada igreja, biblioteca e instituição da nossa sociedade. Sua imutabilidade e imperturbabilidade podem ser o motor da mudança, causar uma perturbação na estrutura social, revelar o centro fora do centro e assim iniciar uma revolução. Afinal, até agora os escritores se preocuparam em descrever o mundo de várias formas, mas o que importa é transformá-lo, mudá-lo, certo?

— Não, por hora, acho melhor não mudar coisa alguma.