O ódio anti-negro frente as imigrações.

Breves tópicos sobre o racismo enfrentado pelos imigrantes negros no Brasil do século XXI.

Texto escrito em parceria com Davi D’Avila.


O aumento das imigrações internacionais de negros e negras para o território brasileiro no último período abre um debate importante sobre as consequências do projeto político de branqueamento social na construção de estereótipos depreciativos sobre a população negra mundial. Uma rápida observação sobre as reações violentas que estão sujeitos os imigrantes negros demonstra a continuidade de um discurso que relaciona a coloração de pele preta com acepções de depreciação e desvalorização. Os imigrantes senegalenses, haitianos e guineenses são caracterizados como : “desocupados”, “ ladrões do trabalho de gente honesta”, “depósitos de doenças” “sujos”, “incultos”, da mesma forma com que as escolas de eugenia racial do século passado caracterizavam os negros e negras recém saídos do regime de escravização.

Atribuí-se um desvalor em face daquilo que a ideologia europeia burguesa considerava como moral. A substituição da mão de obra negra escravizada, que pela lógica, deveria se dar pela mão de obra negra assalariada, se realiza a partir da imigração europeia. Atualmente, o que se dá, é que com o mesmo discurso racista se impossibilita a integração social para os imigrantes negros. O impactos tem conexão direta com 354 anos vergonhosos de escravidão negra no Brasil, e os reflexos são profundos, viscerais. São o retrato de um país que mantém,uma mentalidade escravocrata e exploradora, quase como marca identitária. Enquanto não nos olharmos no espelho e não reconhecermos o que verdadeiramente somos, iremos continuar empregando o olhar do “outro” sobre essa população, quando em verdade haitianos, senegalenses e outros povos negros são “nós”. Reconhecer que estes sujeitos não são adversário, competidores e compreender as conexões que se estabelecem entre nós é fundamental para combater o sem fim de restrições de direitos que são experimentadas não só pelos imigrantes, mas por toda a população negra.

Italianos, espanhóis, portugueses, alemães, vieram para o território brasileiro após a abolição da escravatura ocupar os postos de trabalho livre. A maioria deles fugindo de condenações criminais nos seus países de origem. . Estes, vão ser integrados a partir de uma série de programas nacionais que visavam estimular o trabalho e sua pertença com o território brasileiro. Muitos daqueles que hoje se contrapõe as políticas imigratórias para os haitianos, então, descendem de imigrantes que “roubaram o trabalho de gente honesta.” Gente honesta, preta, que por anos trabalhou ao preço do seu próprio sangue e dor, mas não recebeu nenhum tipo de reparação por sua contribuição na construção do país. Pelo contrário, até hoje experimenta as consequências de ter sido escravizada.


A maioria das recentes pesquisas sobre a integração social dos imigrantes negros no Brasil ignora a questão racial como elemento central para compreender a resistência que os brasileiros, em especial os brancos, encontram em fomentar e auxiliar no processo de integração destes cidadãos. Os estudos apontam as diferenças culturais, como a língua, enquanto o principal fator limitante. É verdade que a diferença linguística cria obstáculos, mas estamos falando de pessoas que além do idioma nativo, falam 2 ou mais línguas, marcadamente o francês e o inglês que são idiomas de relevância internacional devido a colonização. O isolamento social, a violência policial e civil, todos esses aspectos estão diretamente relacionados com o fato desses imigrantes serem negros, e muito menos relacionados com o idioma no qual se comunicam. O que os haitianos, senegalenses, guineenses experimentam no Brasil é o racismo anti-negro da mesma forma com que nós, negros brasileiros, experimentamos. A diferença linguística é um agravante, mas não um elemento fundamental na exclusão.

A fantasiosa democracia racial brasileira é escancarada a cada relato de racismo experimentado por estes irmãos. A ojeriza não é sequer xenofóbica, a motivação do ódio não é pelo fato de serem estrangeiros, mas por serem negros. Nos grandes centros urbanos, em especial, essas pessoas não são identificadas enquanto estrangeiros. São lidas enquanto negras, e, consequentemente, como ameaça ou objeto, a depender de seu gênero. Por outro lado, em cidades de contingente populacional menor, onde a imigração branca se consolidou e a presença da população negra é quase inexistente, ser negro equivale ser africano ou haitiano. Logo, nem ao menos nome essas pessoas tem, elas viram “o haitiano”, “o senegalês”, “o preto”.

Toda a imigração acaba por imprimir a necessidade de reconfiguração em um território muitas vezes desconhecido. As condições que levam os haitianos a migrarem para o Brasil deveriam ensejar os mais profundos sentimentos de solidariedade. Afinal, parte significativa deles está aqui em razão das catástrofes sociais oriundas do terremoto que ocorreu naquele pais em 2010 e deixou milhões de pessoas desabrigadas, em extrema vulnerabilidade social. Isso sem contar o histórico do Haiti, terra onde o povo negro levantou-se contra os colonizadores europeus, chegando a derrotar os exércitos napoleônicos. A desconhecida história do Haiti, silenciada pela importância que a mesma tem para o povo negro, inspira resistência, deveria render honrarias. Porém, o que a maioria desses imigrantes encontra aqui é a violência racista nas suas formas mais acentuadas.

Se nota também, a partir dos relatos dos imigrantes negros, a permanência da divisão racial do trabalho. Não raro os imigrantes negros chegam aqui com experiências em setores diversos, mas as poucas oportunidades de emprego estão no campo dos trabalhos mais precários, como ambulantes e garis. Esses homens e mulheres que, por exemplo, poderiam trabalhar no setor hoteleiro ou até mesmo em cursos de idiomas organizados pelo governo, o que certamente melhoraria a integração dos mesmos com os brasileiros, estão destinados ao mesmo lugar social que a negritude brasileira ocupa em razão das consequências da estrutura social racista que nos subjuga a postos de trabalho previamente determinados. Não iremos ver recepcionistas de hotéis negros, sejam brasileiros, sejam estrangeiros, ainda que estes últimos possam ter o domínio de vários idiomas.

Um exercício rápido de reflexão, permite comprovar o que abordamos aqui : você imagina um alemão(branco) formado em engenharia civil não conseguindo um emprego na sua área no Brasil? Você imagina um francês(branco)formado em jornalismo, não sendo contratado por um veículo de comunicação no país? Você imagina um imigrante italiano branco não conseguindo ocupar um posto de trabalho formal e vendendo relógios e bijuterias nas ruas da sua cidade? Responda sinceramente a cada uma dessas perguntas e se depare com o tamanho do racismo anti-negro, com contornos semelhantes ao da escravização, em pleno século XXI.