O ativismo negro no mundo virtual.

Reflexões sobre uma nova forma de militância negra.

escrito em parceria com Aline Silveira
Escrevam pretas, escrevam!

O aumento do acesso à internet, nos últimos anos, possibilitou a formação de uma nova maneira de mobilizar pessoas em torno de uma causa : as redes sociais. Para os movimentos negros isso significou a abertura de uma série de debates que ficavam muitas vezes restritos aos espaços do movimento social, pois as pautas da negritude não são consideradas relevantes em outros espaços. A internet tornou-se uma importante ferramenta para o movimento negro

Atualmente,mais da metade dos lares brasileiros passou a ter acesso à internet, conforme recente pesquisa do IBGE. Ou seja, são 95,4 milhões de brasileiros com acesso à web. O intenso tráfego de informações nos canais de Youtube, blogs, sites e redes sociais como Facebook e Twitter, faz com que as pessoas tenham um acesso mais intenso a variados assuntos. E é nesse contexto que se encontra a militância virtual. Em grupos, páginas e perfis pessoais são compartilhados artigos,vídeos, debates sobre variadas temáticas, entre eles sobre negritude. No entanto a todo instante a militância virtual é questionada, tanto na sua eficácia quanto na sua legitimidade. O discurso de que quem é cyberativista não põe o pé no barro, não está conectado com a realidade. A desvalorização da militância virtual, como de praxe, atinge fortemente as mulheres negras, que tem suas iniciativas deslegitimadas por se articularem nas redes sociais. Para além de todos os apontamentos de dedos já recorrentes tanto no movimento negro quanto no movimento feminista, têm se um novo discurso de minimização do ativismo dessas mulheres.

No entanto é fundamental lembrar que nem todos possuem tempo ou até mesmo saúde mental para militar fora do ambiente virtual. Desmerecer um movimento virtual que alcança milhares de negras e negros que estão se empoderando estética e politicamente através da internet, não é a melhor estratégia. A internet possibilita trocar e compartilhamentos entre negros e negras com posições geográficas distantes, por exemplo. A partilha dessas vivências e informações aumenta potencialmente a capilaridade das articulações da negritude tanto no território brasileiro quanto internacionalmente, exemplo disso são as ações para a libertação de Rafael Braga, que atingiu contornos internacionais através da convocação de coletivos,, movimentos sociais e organizações populares fora do Brasil.

O alinhamento das ações no campo do ativismo digital com as ações de rua potencializam as agendas de lutas do movimento negro internacionalmente. Para quem mata um cachorro por dia, e raramente tem possibilidade de estar fisicamente em espaços de amplas discussões sobre a sociedade, como conferências, encontros, simpósios e etc, a internet ampliou significativamente a atuação militante de muita gente.

É certo que a internet por si só não é capaz de emancipar as mulheres negras, destruir o racismo, acabar com a ordem vigente onde essas estão colocadas no último patamar da pirâmide, atingida por todas as formas de opressão estrutural. Por outro lado, é bastante explícito que a mesma proporciona mecanismos para a elaboração de estratégias sociais que furem os bloqueios gerenciados pelas estruturas de poder hegemônico. Em certa medida é cabível dizer que inclusive proporciona uma autonomia que as lógicas político partidárias, por exemplo, restringem.

Outro aspecto importante que é preciso abordar visando uma não- romantização do uso da internet pelos movimentos sociais negros e pelos ativistas da luta por equidade racial é que, assim como qualquer outro espaço, ocorrem disputas com as ideologias dominantes. Não é sem razão, por exemplo, que ocorrem apropriações de discursos e uma visibilidade maior para blogueiras e vlogueiras brancas.

Corre lá e dá aquele like na Gabi Oliveira gente!

Ainda assim, a internet tem proporcionado uma outra forma de associativismo, que não é substituído pelas organizações, entidades, coletivos, mas que ocorre em conjunto. Um terreiro, por exemplo, que utiliza a internet para compartilhar informações e materiais relevantes para a comunidade que dele faz parte não abandona suas formas tradicionais de organização, ou seja, a internet entra como uma, entre tantos outras,ferramenta de mobilização.

Por fim, sabemos das limitações da internet, reconhecemos que ela por si só não fará nenhuma mudança estrutural nas vidas da negritude, mas também estamos cientes que as nuances tecnológicas da militância possuem um potencial formativo relevante, que auxilia no fortalecimento da consciência negra de muita gente, especialmente de jovens que a partir dessas informações podem dar um salto no seu empoderamento político. Para nós, isso é muito. É muito mais efetivo impulsionar ativismos negros nas redes sociais, do que esvaziar as potencialidades da negritude através de discursos de deslegitimação. Escrevam, produzam, compartilhem informação, enegreçam os espaços, todos eles, inclusive o digital. Viralizem negritude!