Peculiaridades do racismo sul rio- grandense que precisam extrapolar fronteiras.
OU: Tem preto nos pampas também, sabia?

Juro que eu tento escrever sobre outras coisas que não a questão racial. Mas ser negro é todos os dias um 7X1 diferente, uma abordagem distinta para falar sobre racismo. E parece que o tema nunca se esgota, parece que por mais que a gente escreva textos, produza artigos acadêmicos, faça vídeos, no final do dia vai acontecer alguma fato que vai desencandear na gente aquela necessidade do meteoro de textão para ver se a galera pensa um pouco em algumas coisas que para quem é negro nada mais é que o cotidiano de violências materiais e simbólicas diárias.

A necessidade do textão de hoje é demonstrar para o resto do Brasil que o Rio Grande do Sul não é a Europa branca brasileira. Apesar de a mídia vender uma imagem de um estado povoado por mulheres brancas de pele clara, semelhantes a elfos nórdicos, e homens loiros de olhos azuis parecidos com os vikings, tem diversidade racial aqui. Pessoas negras que são gaúchas, nascidas aqui, criadas aqui, cujo os antepassados foram escravizados aqui.

Eu compreendi o quanto a anti-negritude gaúcha é violenta, ainda criança, na idade escolar em uma visita pelos pontos turísticos históricos da cidade de Porto Alegre, a capital do estado. Ao visitar o Palácio Piratini, sede do poder estatal, me deparei com um quadro que ilustrava a formação do “gaúcho”. A pintura, de Aldo Locatelli, representa os indígenas, os imigrantes europeus, as missões, tudo que vocês podem imaginar que cabe numa pintura MUITO grande. Só não tem negros. Os negros não fazem parte da formação etnográfica dos gaúchos. Eles não estão lá. Eu não lembro exatamente como percebi isso na minha tenra idade, mas recordo de ter sentido um certo incomodo. Uma coceira engraçada. Renitente.

Mais tarde, com um pouco mais de idade, vi minha mãe contribuir com um texto para um livro chamado “´Nós, os afro-gaúchos”, no final da década de 90. Me recordo de ler os textos daquele livro e sentir um pouco da minha coceira incomoda passar. Obviamente não entendia muito do que ali estava escrito, mas conhecia muitas daquelas pessoas que apresentavam narrativas sobre o que era ser uma pessoa negra no Rio Grande do Sul. Narrativas sobre resistência, violência, encarceramento da juventude, educação,religiosidade, estética. No final da década de 90, no estado do Rio Grande do Sul, houveram intelectuais negros que se reuniram para afirmar sua identidade enquanto negros gaúchos. Intelectuais negros que produziam conhecimento. E antes deles houveram outros, pouco lembrados, bastante silenciados.

Há 20 anos atrás, antes da vigência das ações afirmativas de cotas raciais, antes da possibilidade de compartilhamento de ideias em plataformas digitais, homens e mulheres negras do Rio Grande do Sul formulavam questionamentos e respostas sobre a complexidade do racismo no Rio Grande do Sul. Esse livro, hoje, só é encontrado em sebos e em posse dos mesmos negros e negras que formularam as ideias que estão contidas nele. Não há um PDF dessa publicação. Ela não foi reeditada. Por outro lado, todos os anos, se reedita os festejos da Guerra dos Farrapos, que virou uma tradição. A tradição mais falaciosa que existe. Uma falácia que virou mini-série e que consolidou país afora a ideia de que a branquitude gaúcha é heróica, destemida e brava, enquanto os negros escravizados eram povo sem virtude.

Os versos do hino oficial do estado do Rio Grande do Sul escancaram o racismo pujante de nosso estado. Tem sido constantemente problematizado pelo movimento negro gaúcho, pelos ativistas e intelectuais negros. A juventude que acessou as universidades tem se negado a prestar honrarias ao hino devido o conteúdo racista que ele apresenta. Ficam sentados enquanto o hino executado e todos os brancos, automaticamente, levantam-se. Um dos símbolos oficiais do estado onde nasci e me criei diz, explicitamente, que povo que não tem virtude acaba por ser escravo. Pasmem, a letra original do hino farroupilha mencionava a esravização grega, mas em 1934 o hino foi modificado e se retirou essa menção. Para não restar nenhuma dúvida sobre a mensagem. Ainda que estes simbolismos venham sendo questionados pelos movimentos negros, as tradições arraigadas dos tradicionalismos gaúchos insistem em minimizar os efeitos dessa violência simbólica. Insistem em silenciar, em diminuir essas questões como se elas fossem pouco importantes, como se elas não representassem uma marca determinante da sociedade gaúcha: a anti-negritude.

Não bastasse tudo isso, me mudei para o interior, para uma cidade chamada Pelotas. Pelotas é uma cidade bem peculiar, onde todos os símbolos são europeus. É reconhecida por ser “a pequena Paris” do nosso estado, devido as relações que aristocracia charqueadora mantinha com a França. Relações que em verdade se resumiam em mandar seus filhos estudar na Europa. Pelotas foi uma cidade extremamente rica, cujo a pujança econômica adivinha da produção de charque. Charque produzido por mão de obra escravizada negra. Durante um período significativo de tempo a produção acadêmica brasileira que versava sobre a escravização costumava dizer que o processo no pampa era mais brando. Tranquilo. Porque por aqui os escravizados eram bem trajados. Estreiteza de uma produção acadêmica branca que muitas vezes não enxerga o óbvio. É evidente que os escravizadores “mantinham aquecidos” os seus “semoventes”, eram produtos, produtos que não custavam barato. Produtos que produziam muita riqueza embora durassem pouco tempo, a média de vida de um escravizado numa charqueada era ínfima.

Aliás, foi exatamente o sangue e o trabalho dos negros escravizados na cidade de Pelotas que elevou a economia da cidade, que antes não era mais do que uma vila anexada à Rio Grande. Curiosamente, a população pelotense da atualidade parece esquecer desse fato. Pelotas é um lugar em que pouco ou nada se fala da contriubuição histórica da negritude naquilo que ela ainda mantém : os casarões senhoriais e as charqueadas. Basta uma visita em qualquer um desses locais, que hoje são pontos turísticos, para perceber a leviandade e irresponsabilidade com que as narrativas da cidade são contadas. Ainda pior, atualmente são nas charqueadas que as pessoas celebram suas festas. Ocorrem casamentos, festas de formatura, festividades de virada do ano, tudo no mesmo local onde milhares de corpos negros tombaram e jazem sem reconhecimento.

Quando da ocasião da minha formatura em Direito eu me neguei a fazer a prova de toga e tirar as fotos para o convite nas charqueadas. Fui sabatinada por quase toda a turma, embora tentasse demonstrar por todos os meios possíveis o que significava para mim, mulher negra e ativista social, fazer as fotos de um momento de celebração nesse lugar, o entendimento só se fez possível quando um colega branco explicitou as condições históricas das charqueadas. Essa é outra faceta cruel do racismo, a branquitude não se presta a nos ler. Não se presta a nos ouvir. Não presta ao mínimo de empatia. Ela só consegue pensar o óbvio quando um igual fala, escreve, produz. Não é sem razão que apesar de o movimento negro pelotense denunciar a violência que é a manutenção das charqueadas como ponto turístico, pouco se fala sobre isso, menos ainda se escuta.

O resultado da invisibilidade e do apagamento social dos negros no Rio Grande do Sul não é outro se não o de uma população que tem uma imensa dificuldade em se reconhecer enquanto pertencente desse espaço. Eu mesma o tenho e passo por situações que fortalecem em mim a ideia de que este estado não quer que eu seja daqui. Luiza Bairros, uma das intelectuais negras mais importantes dos nossos tempos, também tinha essa sensação. Morreu com ela. Cada vez que eu saio do estado do Rio Grande do Sul e vou conhecer outro lugar do país as pessoas se chocam quando eu digo que sou gaúcha. Acham que eu sou baiana, carioca, mineira… menos gaúcha. Complexo é que quando eu estou no Rio Grande do Sul, também não sou gaúcha. Quando sou abordada aqui no estado por uma pessoa desconhecida, seja num táxi, num bar, na fila do banco, sempre sou questionada: “de onde tu és?” E ao receberem como resposta que sou “daqui mesmo, do Rio Grande do Sul”, é sempre com impressionismo: “juuura? eu jurava que tu era (insira aqui qualquer outro Estado ou até mesmo outro país).

É impressionante, para os gaúchos, que existam negros no Rio Grande do Sul.

Talvez porque para eles a gente continue tão invisível quanto os escravizados das fazendas de charque ou quanto os lanceiros que lutaram uma guerra que não era deles.