Todos os dias, uma razão para ser 20 de novembro.

Desafiei a mim mesma a enegrecer as redes sociais ainda mais nesse mês de novembro. Por necessidade minha , mas também por uma vontade de compartilhar reflexões sobre negritude com outros negros e negras. Esse texto é o ponto de partida de uma série de escritos compartilhados que serão publicados durante todos os dias desse mês. Escrever sobre negritude a partir de diversos prismas, enegrecer os debates, pintar de preto as discussões.

A consciência, como sabiamente Lélia Gonzales definiu, é um processo de apagamento, de não reconhecimento e de saber. A consciência opera dentro de uma lógica em que há uma verdade única, universal, inquestionável e limitadora de qualquer possibilidade que reverta o status quo da hegemonia branca. A consciência, como conhecemos na sociedade moderna, é a continuidade da predominância do discurso ideológico que subalterniza a negritude, que quer nos ver aprisionados em valores que pouco ou nada tem a ver com a nossa vivência. Nas palavras da fantástica Lélia : a consciência faz tudo para que nossa história seja esquecida, tirada de cena, e apela para tudo nesse sentido.

É exatamente por este diagnóstico, que é preciso falar em consciência negra. Pelo esquecimento histórico, pelo apagamento social, pelas consequências da anti-negritude. A idealização do Dia da Consciência Negra marca a resistência de Palmares, liderado por Dandara e Zumbi, o qual foi assassinado no dia 20 de novembro de 1645. A força palmarina habita a negritude brasileira e fortalece-se a cada 20 de novembro. Palmares existe em nós e em nossas trajetórias ressurge.

A consciência negra nos permite ser atentos. Atentos às falácias, às investidas dos projetos políticos racistas que visam a nossa eliminação, nos permite forjar um pensamento que esteja a serviço da equidade racial. Ter consciência negra é saber que, ao contrário dos que nos dizem, não somos divisionistas, nem racistas reversos, é reconhecer nossas origens, nossas lutas e nossas demandas. E esse exercício, de subverter a consciência, é um exercício complexo. Mesmo nos espaços em que há o predomínio de pressupostos de esquerda ocorre o silenciamento e o apagamento da negritude. A própria forma com que se caracteriza os problemas sociais a partir de uma perspectiva que constantemente evidencia a classe, mas mitiga a questão racial, desvaloriza as discussões sobre racismo. Ou seja, mesmo onde deveríamos encontrar supostos aliados, lidamos com resistências que nada mais são do que consequenciais da anti-negritude, a qual impõe barreiras que precisam ser rompidas para que se possa construir uma sociedade que seja racialmente equânime.

Falar de uma consciência negra é um ponto importante para diminuir a ignorância sobre as relações raciais no Brasil. É preciso rever as matrizes teóricas e educacionais que ignoram a real contribuição do negro na formação do território nacional, bem como romper com esteriótipos que permanecem no inconsciente coletivo sobre a população negra. Esses marcadores são fundamentais, pois é a partir dessa ausência de conhecimento sobre a negritude que se consolida uma arena propícia para a permanência das violências materiais e simbólicas que vitimam a população negra. Falar sobre racismo, portanto, é a principal maneira de combatê-lo. Revelar todas suas nuances e possibilitar reflexões sobre as mesmas é uma importante ferramenta para alcançar mudanças que sejam significativas no que tange as relações raciais.

Os dias que seguem, portanto, se proporão a fomentar discussões que possibilitem fortalecer a consciência negra, tanto para nós, negros, quanto para os não-negros. Um exercício coletivo de reconfigurar a sociedade a partir de uma perspectiva em que a população brasileira não seja alijada de conhecer suas origens de maneira íntegra, estabelecida em contraposição a hegemonia do conhecimento marcada por uma visão única, branca, masculina e economicamente privilegiada.

Quero celebrar conquistas, heróis, vivências e histórias. Quero também provocar incômodos. Mas o que eu quero mesmo, é um novembro negro em que não precise explicar porque é necessário um.