A cartomante

A função da cartomante parecia ser prever o futuro, pelo menos era isso que alguns queriam acreditar que ela fazia. Na verdade a função dela era maior: salvar um futuro. Os clientes iam até dona Dina para garantir que ainda havia esperança de um futuro melhor.

Quando Paola não estava mais pronta pra nada e sem forças pra ficar em pé, ia até dona Dina. Não era a certeza das previsões dela que mantinha sua frequência naquela cartomante, mas sim as promessas de origem desconhecida que traziam forças pra que ela pudesse continuar andando e acreditando em algum sonho, acreditando na possibilidade de um futuro bom. Era como se algum contrato entre Paola e sua vida fosse assinado em frente àquela vidente.

A promessa de um emprego, de uma carreira brilhante, de viagens pelo mundo, de uma vida social incrível e de uma família com quantos filhos ela quisesse ter para os nomes que já tinha na cabeça. Talvez Dina nunca viesse a acertar nenhuma previsão, contudo, era aquela realidade ainda inexistente que fazia com que seus clientes continuassem a ter algum ânimo no cotidiano. Não é o passado que impulsiona as pessoas.

Era essa esperança que trazia o sustento à dona Dina, não era a função de ver o futuro como se fosse uma mulher do tempo, mas de entreter o presente e ajudar a segurar um pouco a barra de quem já nem tinha mais esperanças. Sem aquilo aquelas pessoas estariam perdidas e, mesmo que soubessem que não era verdade, o fato é que o ser humano sempre preferiu acreditar em ilusões do que na realidade.

Se nunca acertasse ou até o final da vida aquelas pessoas não alcançassem metade dos seus sonhos, aquela cartomante cumpriu sua função e trouxe nas cartas e figuras daquela mesa o que era a melhor coisa que ela podia trazer: uma possibilidade.