A realidade das fotografias — memento

Iniciava-se o crepúsculo e ele foi até a lanchonete chinesa. Pediu um café. Só para esvaziar a mente e observar o movimento na rua enquanto refletia sobre mais um ciclo da vida. O rapaz há tanto tempo já ia ali tomar seu café que o único apego constante no tempo que ainda lhe restava era aquela velha lanchonete chinesa, com pessoas falando um idioma que ele nem mesmo entendia e ainda assim gostava de ouvir mais que o português. Pensava na vida enquanto assistia as pessoas saírem do mercado ao fim de mais uma tarde, aquelas pessoas de vida emocional preenchida indo fazer compras em família. Tentava pensar no que lembrava da sua vida, mas lembrava das fotografias. Ele tinha a mania de fotografar cada momento feliz que vivia com alguém, já pensando no futuro, pois sabia que cada segundo um dia lhe seria arrancado e se não fossem aquelas fotografias guardadas em uma pasta perdida tudo seria apagado. Talvez tais momentos nunca tivessem existido se ele não pudesse provar a sua cabeça cada vez mais descrente.

Através daquelas fotografias ele eternizava os momentos e lembrava que um dia foi feliz. Eram a memória do seu coração. Aprendeu como um estoico a aceitar a amargura do natural. Nunca vivia o presente, só vivia o futuro e o futuro era vazio. O passado era a concretização das certezas sobre suas incertezas, pérolas que escolheram ficar para trás deixando apenas um rastro em lugares de sua cidade. Quando estava com alguma mulher pelo qual se apaixonava, era como enxergar as alucinações de um presente que se tornaria passado, de mais um alguém que no futuro não mais estaria ao seu lado. E era como se as coisas se apagassem igual no filme “De Volta Para O Futuro”. Aquele sorriso, aquela pessoa com o bolo do outro lado da mesa, as rosas, os livros trocados, aquela mão que ele segurava; tudo desaparecia no mesmo momento em que ainda estava com a pessoa, pois era o homem sem futuro fixado, um Marty McFly de um romance não roteirizado.

Seus filmes terminavam com ele em rodoviárias, aeroportos e apartamentos, sempre a ver uma porta sendo fechada para mais uma realidade desaparecer e somar-se a um condensado de memórias pesadas. Essas histórias sempre tinham a parte dois com aquele cara voltando a mesma rotina, já tinha aprendido tanto sobre como colocar seu coração novamente dentro da jaula que talvez nem precisasse mais beber… E ali estava ele, naquela velha lanchonete chinesa, indo pedir seu segundo copo de café, no “copo americano”, aquele pequeno copo em que os chineses também serviam cerveja à outros clientes. Anteriormente, tomava sua vodca ou um uísque por um ou dois meses, quase como receita médica para esquecer qualquer tipo de amor, observando as mesas e as pessoas perdidas que passavam fora da Babilônia. Agora, há algum tempo, passou a tomar seus cafés, e somente cafés, ali naquele lugar. Evolução? Da Babilônia à lanchonete chinesa, onde continuou a ter suas reflexões que cada vez mais lhe trouxeram certezas sobre as incertezas e da futilidade que é viver a vida.

Tornava a pensar nas suas fotografias.

As mulheres que amou podiam ter ido embora de sua realidade, sido apagadas de suas precisas memórias, mas nunca de suas fotografias. E o presente para ele já era sempre passado, dobrado e apagado. Não importava o que estivesse fazendo com quem amava agora e a felicidade que sentia, ele sabia. Cantando a ela dentro de um museu a música que lhe escreveu, subindo sorrateiramente ao terraço de um prédio observar as luzes do céu noturno e dos edifícios altos, viajando ver um show de rock ou atravessando alguns quilômetros de mar em barcos precários com tripulação embriagada; não importava mais o presente, nada era real e tudo se repetia… Nada era real, nada era real, apenas aquela fotografia. Apesar de tantas indicações temporais, sua única pergunta era “e agora?” e encerrava seu segundo copinho de café para então se levantar e ir até a Sra. Wong ver quanto ficou.

O café daquela simples lanchonete chinesa tinha um sabor especial e melhor do que o café com sabor de solidão que tomava ao chegar em casa. Chegou em casa início da noite, sentou no sofá, olhava para tela da TV desligada, mais vazia e sombria que o destino da sua vida. Perguntava-se: “E agora?”. Trabalhou um pouco, planejou o outro dia e ao fim da noite, em uma contradição, buscou um copo de café amargo sem muito sabor para tomar com seus comprimidos de clonazepam. Dos seus três tipos, aquele servia para aquietar e talvez dormir. Café virou água, amargo não era variar e o doce fazia mal. Estava inquieto. Era inquieto e ansioso, se chegasse um dia à resposta do “e agora?” só lhe sobraria o “e depois?”. Nada iria mudar. Até que… disse boa noite.

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