Diagramando livros no Word

Cada vez mais é comum que as pessoas queiram publicar seus próprios livros. Embora tenha questionamentos sobre a viabilidade da auto-publicação, que tem suas vantagens e limitações, acho que é bacana poder gerir o processo de edição de seu livro. Uma das primeiras dificuldades que alguém que pretenda passar para a auto-publicação é a diagramação do livro. Editoras utilizam programas profissionais para este fim, como o InDesign, que são as ferramentas ideais para este tipo de trabalho. No entanto, é possível conseguir seus objetivos diagramando livros no Word, desde que se tenha alguns macetes.

Particularmente, nada substitui o trabalho de um designer ao pensar um livro enquanto um artefato, muito menos o do editor, por seu olhar crítico e sua visão do livro como um produto. Se puder ter esses profissionais com você, tenha. O que se segue é uma alternativa para aqueles que não têm como dispor do trabalho desses profissionais ou não têm grana para contratar uma editora.

Os originais

Primeiro, umas perguntas. Já revisou seu livro? Na ausência de um editor, já pediu pelo menos para que algum amigo leitor fizesse uma leitura crítica? Tem certeza de que não há deslizes de digitação ou coisa do tipo? Se respondeu sim a essas perguntas, pode começar. É muito chato quando alguém publica um livro e só depois descobre os vacilos. Então, leve a sério seu trabalho: revise, releia, peça opiniões, sem esse complexo de gênio da raça. Se você está escrevendo para você mesmo e não quer levar em conta o que outros veem em sua obra, melhor nem publicar: faça um manuscrito e guarde num baú. Originais que estão aptos para serem publicados devem passar por essa maceração.

Antes de começar a diagramar, para evitar qualquer problema, clique em “Salvar como” e dê um nome diferente ao arquivo, tipo, “originais-nomedolivro-diagramar.docx”, para evitar perder qualquer coisa.

Cortando espaços

Mesmo depois da revisão, você precisa passar uma limpa em pequenos erros de digitação que não serão vistos a olho nu. Para ver esse tipo de coisa, você deve clicar ctrl+shift+8. Verá que o texto ficará todo pontuado com caracteres ocultos de espaço e parágrafo, além de outros mais específicos. Assim você terá uma visualização do que deve ser mudado.

Primeiro, delete espaços duplicados: clique Crtl+U. Verá duas caixas de substituir. Na primeira, clique duas vezes na barra de espaço e na segunda clique apenas uma vez na barra de espaço. Depois clique em “Substituir tudo”. Repita isso até que não haja mais espaços duplos. Se você usou espaços para avançar um verso do poema ou dar parágrafos, esqueça. Se preferir deixar como está, tudo bem, mas isso deixa a edição imprecisa.

Formato do livro

Feita essa limpeza básica, vamos pensar então no formato do seu livro. Isso passa, via de regra, pelo gênero que escolheu e pelo tamanho final do livro. Se você quer publicar um livro de poemas, normalmente formatos menores são os mais adequados. Isso é muito relativo, na verdade. Meu terceiro livro, o peso do medo 30 poemas em fúria, um projeto gráfico fenomenal da Editora Paés, tem um formato bem fora do convencional. Essas ousadias, no entanto, acho que cabem para designers profissionais. Acho muito bacana o formato da coleção de poesia da 7Letras, com 13cm x 20cm. É pequeno, mas maior que um livro de bolso. Se quiser praticidade, o formato A5 também é uma. Neste caso, 14,8cm x 21cm é seu tamanho. Há ainda o formato A6 (10,5cm x 14,8cm), usado para cordel e para livretos menores. Para você se ligar, A5 é metade do A4 e A6 é metade do A5 e assim sucessivamente.

Para livros de ficção, vale a coisa da quantidade de páginas. Se o livro tem mais de 250 páginas, vale a pena apostar no formatão de romance, 16cm x 23cm, que é aquele formato mais robusto em que você encontra os best-sellers. Mas é um formato com custo mais caro. Se você diagramar em espaçamento duplo tamanho A4 seu livro, dará a mesma quantidade de páginas se for nesse formato com espaçamento simples, para você ter uma ideia. Se o livro é menor, você pode apostar no tamanho A5 ou até num formato menor e mais elegante, de 14cm x 21cm, um pouquinho menor, mas que acho que fica bacana também. Se quiser partir para o formato bolso, o clássico é 11cm x 17,8. O pessoal que escreve ficção científica deve lembrar da série de Asimov. Por aí.

Para alterar os formatos, clique em “Layout da página” e depois em “Mais tamanhos de papel”. Ao abrir a nova caixa de diálogo, digite os tamanhos que preferir. Você pode, além do que falei acima, medir livros cujo formato você achou bacana para o seu. Sempre é bom experimentar, mas lembre: formatos muito diferntes podem onerar sua publicação, pois esse formatos padrão são pensados para reduzir o desperdício de papel. Se você faz em outro formato, o livro fica mais caro. Por exemplo, o formatão de romance é mais caro que o A5 justamente por que tem mais sobra de papel. Pense bem e, na dúvida, consulte a gráfica antes de rodar, com os formatos que escolheu.

Margens

Não tem coisa mais feia que livros com a margem inadequada. O padrão é você usar 2cm para todas as margens. Há quem coloque um pouco mais nas laterais. Particularmente, acho bacana que na parte de fora você tenha pelo menos o espaço do seu polegar de distância. Para orientação, “Retrato”. Em Várias páginas deixe “Normal” ou “Espelho”.

Parágrafo

Para os formatos que colocamos, normalmente você vai usar espaçamento simples. Clique ctrl+T para selecionar todo o texto, depois ctrl+1 para transformar todo o texto em espaçamento simples.

Uma coisa que não gosto muito é quando os parágrafos ficam muito perto entre si, por isso acho legal deixa um espaço de 6 ou 12 pontos entre parágrafos. Verá que visualmente se destacam melhor os parágrafos e o texto não fica muito ‘emboloado’. Se quiser provar, clique mais uma vez ctrl+T e depois clique na aba “Layout de página”. Na caixa “Espaçamento”, clique em “Depois” e digite 6 ou 12.

Se for um livro de ficção, você deve colocar os parágrafos. Para isso, na aba “Início” clique em “Parágrafo”, depois em “Especial”, “Primeira linha” coloque 0,7. Se for um livro de poemas, não marque nada aqui. Ainda em ficção, o alinhamento deve ser justificado, então escolha essa opção.

Fontes

Essa é a parte mais divertida para mim. De uma forma geral, acho que para literatura a fonte ideal deve ser serifada. O estilo vai muito do gosto, mas as principais fontes grátis para livros são Georgia, Book Antiqua e Garamond. Normalmente para corpo usa-se o tamanho 11 ou 12. Veja o que lhe agrada mais. A Garamond é mais econômica, ou seja, ocupa menos espaço. Não use muitas fontes diferentes. No máximo, recomendo uma diferente para os títulos, mas pode ser serifada.

Já se quiser usar fontes pagas, a Adobe Garamond Pro (mais econômica ainda), Elektra LT (usada pela Cia das Letras) e a Sanford são opções elegantes. Com sorte conseguirá baixá-las em algum torrent pela internet.

Independente de qualquer coisa, um conselho: não use fontes sem serifa para o corpo de textos literários. No máximo, use-as para os títulos. E só.

Cabeçalhos e rodapés

Um dos macetes importantes é saber como formatar cabeçalhos e rodapés, principalmente porque o Word não permite que você oculte-os em algumas páginas, como é necessário num livro. Mas vamos por partes.

Primeiro, numere as páginas. Clique em “Inserir”, depois em “Números de páginas”. Recomendo colocar no rodapé, centralizado. Lembre de usar a mesma fonte que usou do corpo, um pouco menor (ex: 11, se usou 12 no corpo).

E as páginas que não podem ter números? Normalmente você só começa a numerar depois na primeira página ímpar depois da ficha técnica. Se usar uma página para abrir o capítulo, talvez tampouco queira numerá-la. De qualquer forma, sempre que quiser ‘apagar’ uma numeração, faça o seguinte: clique em “Inserir”, depois em “Formas”. Escolha um retângulo e arraste-o até o número que quer ocultar. Depois, no meu que aparece acima, clique em “Contorno da forma” e escolha “Sem contorno”. Verá que no lugar do número ficará tudo em branco. É um trabalho manual e recomendo que seja a última coisa a ser feita, pois se esses retângulos ficarem fora do lugar, terá que fazer tudo de novo.

Quebras de página

Depois de escolher a fonte, um passo importante é acrescentar quebras de página. Toda vez que você dá ‘enter’ vai aparecer um símbolo da letra “pi”. Se você usa vários cliques em “enter” para pular a página, está errado. Deve deletar todos os “pis” e, ao chegar ao final da página deve clicar alt+enter. Isso adicionará quebras de página sempre que quiser pular para outra. Só faça isso depois de decidir qual fonte usará. Repita isso apenas para as páginas em que termina uma parte do seu texto (ao final de um poema ou capítulo, por exemplo).

Colofão e finalização

Eu sempre digo que não levo fé em livros sem colofão. Ele é a última coisa impressa no livro e normalmente vai constar de informações da edição e design da obra. Lá você encontrará algo como “Esta obra foi composta por Fulano de Tal em fonte XXX e impressa em papel XXX para o miolo e papel XXXX para a capa pela editora (ou gráfica) XXXX em [mês] de [ano].”

Acho importante porque registra informações importantes caso você queira fazer uma segunda edição. Isso deve aparecer na última página par. Aliás, lembre que seu livro deve ter sempre um número par de páginas. Se acabou na página 99, na verdade acaba na página 100. Recomendo que o colofão seja uma página extra. Então, se terminou o livro na 99, como no exemplo anterior, a 100 estaria em branco e acrescentaria mais uma folha (a ímpar em branco e a par com o colofão).

Uma última dica para economizar: cuide que seu livro tenha no final um número de páginas igual a um múltiplo de quatro. Tudo que sobrar é desperdício de papel. Não precisa entender a matemática disso, só vá por mim. Acho que é isso. Faltou algo? Podem perguntar.


Originally published at www.wellingtondemelo.com.br.