“Essa dor está me matando hoje” o atendente adentrou o balcão com a mão esquerda pressionando a espinha.

“Tão novo e já se queixando de dor nas costas.”

Os cabelos curtos e saturados de tintura borgonha da mulher que ultrapassou os três quartos de vida reverberavam na voz debochada e com uma expressão convicta de quem sabia uma coisa ou outra sobre a vida.

“É meu pulmão. Tenho problema respiratório e essa mudança de clima só piora” Guilherme disse.

“Você fuma?”

“Parei há quase dois anos.”

“Faz bem. Deixa que eu fumo por nós dois” a senhora reacomodou a sobreposição de casacos e depositou a cesta cheia no caixa.

Procede a história que em meados do século XV, o exigente shogun Ashikaga Yoshimasa pediu que um artesão chinês revitalizasse sua tigela de estimação. O objeto foi devolvido cheio de grampos de metais que uniam os pedaços da cerâmica. O shogun exigiu nova reparação, uma esteticamente mais deslumbrante, desta vez entregando a confiança nas mãos dos artesãos japoneses. Astutamente, eles restauraram o quebra-cabeça que a tigela se transformou com cola e ouro, pondo cada rachadura entre os cacos visível. Nomearam de Kintsugi esta arte.

Ainda reluz.

As opções eram me entregar ou jogar em água corrente. “Deveria ter jogado em água corrente” pensei. Oxum nos ensinou isso. O Orixá da beleza e do amor. Ela leva nas correntezas todos os relacionamentos que não deram certo e os corações partidos, devolvendo a renovação e vitalidade na pureza do sentimento. Um pequeno aro de metal com o significado tão imenso que a devolução causou a mais dolorosa das dores.

Eu me tornei pedaços.

“Monday, Dazed But Not Confused” by Damien Blottière

Os japoneses vendem o kintsugi como uma grande analogia clichê da vida. As rachaduras restauradas dos objetos devem ficar à mostra e sempre enaltecidas, eles afirmam; em concomitância, todas as cicatrizes das lutas devem ser mostradas com honra e orgulho pelo guerreiro, pois representam que uma batalha foi vencida e sua vida, poupada.

A minha tigela de metal recém-quebrada ainda tem grampos feios e brilha todos os dias ao lado do meu tocador de discos. Não tive coragem de me desfazer. Na verdade, não vou. A dor que ainda sinto é o começo do meu processo de restauração que desconheço o prazo de duração, por outro lado sei que em breve o metal irá reluzir um passado bom e que, sobretudo, venci.

“Deu cinquenta e quatro e setenta e cinco.”

“Passa no crédito, por favor.”

“Meu marido dizia que quando estivesse sentindo uma dor em qualquer lugar do corpo, deveria bater a cabeça várias vezes na parede até a dor ficar maior do que a que já estava sentindo e aí você esquece ela”.

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