Omnium Urbis et Orbis Ecclesiarum Mater et Caput da Calunga Pequena

Trancemos.
 
 Antes de ser o famoso ocultista, o turco Tascius Caecilius Cyprianus, futuramente conhecido como São Cipriano, viveu durante uma época que o cristianismo era uma seita pouco difundida e desde cedo mostrou aptidão pelos estudos místicos, ali, por volta de 250 d.C. Foi aceito em um dos templos sagrados da cidade de Antiquoa e encontrou onde pudesse desenvolver suas técnicas esotéricas e se aprofundar no ocultismo.
 
 O cerne do livro “O Preto Velho Mago” do André Cozta se fundamenta no resgate de um espírito por um Preto Velho chamado Pai Cipriano Do Cruzeiro das Almas e na evolução dele até o reencarne com o propósito de servir à Lei Maior dentro da Umbanda Sagrada.
 
 Sabe-se que Cipriano, o jovem sedento pelo mistério das forças invisíveis, aprisionou seus esforços dentro de todas as vertentes ocultas, da astrologia, feitiçaria e adivinhação a rituais sacrificiais e invocações de espíritos. Seu nome se difundiu e anos depois foi taxado pela alcunha de “O Feiticeiro”. Antes dos trinta anos, o aprendiz conhece uma bruxa chamada Évora com quem estende seus conhecimentos de acordo com as tradições Caldeus. Após a morte da feiticeira, Cipriano herda os manuscritos e amplia ainda mais sua sabedoria ocultista. 
 
 Durante aproximadamente um século, o espírito viveu nas trevas do Umbral, sendo, desde o primeiro instante, resguardado pelo Pai Cipriano do Cruzeiro das Almas e por seu Exu. Sem forças, com ossos à mostra e as próprias carnes putrificadas — o oposto do que era vida, forte e implacável — seus guardiões o mostravam flashbacks de suas encarnações no local que ele permanece boa parte da história: encostado em um pedra, dentro de um portal ígneo. Nas mais antigas, as cenas o rememoravam como o líder de um grupo que servia a Deus. Nas últimas três, depois de seu desvirtuamento, o espírito se viu matando, roubando e trabalhando com pactos e ofertas por meio da magia negra.
 
 Certa vez, Cipriano recebeu uma demanda para fazer uma jovem cristã chamada Justine se apaixonar por um rapaz de nome Aglaide que chegou até ele. Justine entregou sua virgindade ao Deus de Cristo e prometeu nunca se casar para permanecer com a inocência sempre em comunhão a sua fé. Nenhum dos feitiços, pactos e trabalhos incisivos de Cipriano surtiam efeito nela, a qual os repeliam apenas por meio da reza e do sinal da cruz.
 
 Depois da concessão da comissão constituída pelos mensageiros dos tronos de Iansã, Egunitá, Ogum e Xangô, dirigido pelo representante de Obaluaê, Pai Cipriano dos Cruzeiros das almas encaminha seu pupilo para um trajeto de melhoria espiritual com intuito de ascensão e iniciação dentro da próxima encarnação em uma família umbandista. O espírito tem contato com seu guias Pombagira, Erês, Caboclo, Preto-Velho e Cigano, além do seu conhecido Exu, enquanto esteve no hospital espiritual e cada um deles o iniciou em suas vertentes específicas dos Orixás algum tempo depois.
 
Desiludido das forças ocultas após testemunhar uma fé inabalável, Cipriano se converteu ao Cristianismo e junto com Justine, foram presos e forçados a negar a fé diante do imperador Constantino. Ele e sua donzela foram torturados ao se recusarem fazer o que lhes foram ordenado. Ainda em vida, segundos existem relatos, o ex-feiticeiro foi perseguido por demônios que o cobravam os pactos outrora feitos. Justine e Cipriano morreram decapitados juntos e tranquilos, pois sabiam que iriam embora dignos. Seus corpos ficaram ainda expostos por seis dias até um grupo de religiosos, comovidos pela atrocidade, os recolherem. Anos depois, o imperador ordenou que os restos mortais do cristão Cipriano fossem sepultados na Basílica de São João Latrão, intitulada como a mãe e cabeça de todas as igrejas do mundo.
 
 Do orgulho, vaidade e glória a humildade, fé e bondade. A epopéia que São Cipriano viveu, dentro de uma encarnação, é inegavelmente semelhante às várias que o espírito resgatado pelo Preto Velho Mago Pai Cipriano do Cruzeiro das Almas, elevando o status de coincidência que se limitava apenas ao nome do ocultista à obra verossimilhante aos conceitos umbandistas apresentadas pelo André Cozta. A comparação surge, no entanto, não apenas na aproximação das culturas místicas africanas e orientais, mas fidedignamente ao conceito de poder que aparece como uma sombra nas duas histórias.
 
 Ao fazer uma contextualização moderna, em “Microfísica do Poder”, Foucault imprescindivelmente confirma, dentro do contexto monárquico efetivo na sociedade da Idade Média, o preceito sociológico que o poder se firma em todos os âmbitos sociais através do conhecimento e discurso, validando a obrigação de obediência. Já Rousseau em “Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre Homens” atesta, no prisma da propriedade privada, a necessidade de um desejar superar o outro, numa busca constante de poder e riqueza, para subjugar seus iguais. Marx, Weber e Gramsi também dispõem teorias acerca da forma que se pode alcançar o poder por intermédio do conhecimento, oratória e hermenêutica.
 
 Que o conhecimento é uma arma de poder, isso não é novidade e pode ser legitimado pelos pensadores e obras que citei, além dos exemplos vivos dos grandes líderes na história mundial. O conhecimento magístico, por outro lado, é indubitavelmente mais perigoso, uma vez dado seu teor mais sedutor e quase sempre irreparável. A ganância em dominar outra pessoa, por posses materiais e pelo sentimento que outros os subordinem de forma mais fácil e direta leva a busca do conhecimento em religiões de matrizes ibérico-africanas, como a Umbanda, para realizar seus desejos tortuosos. Muitos adentram para ganhar o status ignorante e demonizado que o cristianismo protestante deu e que autentica o preconceito vindo também de outras religiões, recebendo o poder que desejam, à priori, através do temor das outras pessoas.
 
 São Cipriano e o espírito inominado da obra de André Cozta foram do poder ao açoitamento impiedoso da maldade que provocaram pela Justiça Karmica antes de receber a clemência de Deus. Esta só foi concedida pela humildade e pelo amor verdadeiro concebido por meio do autoconhecimento no fim das suas histórias.
 
 Autoconhecimento, o meio que justifica o fim da sacro benevolência, a prática dos corajosos.
 
 Dos pontos em comum entre as duas trajetórias, o clímax se encontra aqui. O espírito resguardado pelo Pai Cipriano somente soube que sua essência era boa embora as práticas trevosas nas últimas vidas, o que fez receber, inclusive, uma última chance dos tronos femininos e masculinos da Justiça e Lei Umbandista para uma nova encarnação, porque fazia, constantemente, autoreflexões instigadas tanto pelo seu guardião quanto pelo seu Exu. Por sua vez, São Cipriano construiu o nome através de seus trabalhos como um mago poderoso das trevas e abdicou dessa vida e fama quando entrou em contato com seu íntimo através de uma cristã que tinha a fé como escudo contra qualquer força oculta, descobrindo, por fim, que a essência humana é, incontestavelmente e antes de qualquer adjetivo, boa.

Scientia potentia est.

 In verbis, saravá.

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