RESILIÊNCIA

7 coisas que eu não aprendi com o câncer e 1 coisa que eu descobri com a quimioterapia.


Em 2014 eu fui diagnosticada com um tumor no estômago. Oscilei entre o terror da fantasia de morrer nova e a esperança da chance de encontrar um sentido na vida. Não aconteceu nem uma coisa nem outra, não morri e nem tive uma epifania.

Segue aqui uma breve lista do que eu não aprendi com o câncer (aka GIST, Gastro Intestinal Stromal Tumor) e a única coisa que eu descobri sobre mim:

1. Eu não descobri uma outra vocação profissional

Devastador! Respirei dos 22 aos 27 anos de idade a minha empresa, passei madrugadas trabalhando, fiquei pobre e rica dezenas de vezes, perdi diversas “primeiras coisas” do meu filho e investi a maioria das minhas noites de lazer para conceber o meu negócio. O mínimo que eu esperava depois do câncer era descobrir que minha verdadeira vocação era tocar piano, pintar quadros, escrever um romance, virar blogueira de moda ou maquiagem. Na verdade eu queria descobrir qualquer outra vocação que tornasse a minha vida mais fácil além de empreender, mas não. Minha vida é empreender, e se não for em uma escola de inglês vai ser uma cafeteria ou uma livraria qualquer.

2. Eu não me arrependi de ter saído da casa dos meus pais cedo

Eu saí de casa aos 18 anos para morar com meu (hoje ex) marido que também é meu sócio e pai do meu filho. Tentei por vezes buscar uma faísca de arrependimento nisso, uma explicação do porquê a vida ter sido tão mais louca e um conforto para o fato que, se eu tivesse morado com meus pais até os 23 anos e tivesse concluído os estudos da faculdade, eu não teria tido câncer. Besteira, eu fiz a escolha certa perseguindo o sonho de ser uma “self-made woman”.

3. Eu não alimentei o desejo de me formar em algum curso superior

É estranho eu falar isso, uma vez que trabalho com educação. O problema é que não consigo associar o aprendizado unicamente com graduação formal. Eu comecei 5 faculdades diferentes e ainda não concluí nenhuma. Sabe aquela amiga louca que fez faculdade de Teatro, Biologia, Letras, Direito e Administração? Pois é, ela sou eu. Continuo achando que posso trazer mais para o mundo com a educação do que com um diploma, mas estou com 30% concluído do meu atual curso de graduação e acho que dessa vez vai. Não é arrogância nem desprezo pela academia, mas apesar de ter sido uma aluna nota nerd na escola, vejo pouco sentido em horas enfadonhas em uma sala de aula completamente lotada de alunos desinteressados e professores falando para as paredes.

4. Eu não desenvolvi nenhuma paixão por nenhum esporte

Uma das coisas que eu deveria ter aprendido é ter algum prazer em praticar esportes. Na verdade, eu gosto muito de andar de bicicleta e ainda quero participar do Tour de France, mas sinto tanto prazer em correr, caminhar, nadar, pedalar e jogar quanto sinto ao ler livros. No fim das contas eu fico com os livros, que me contam histórias diversas e que alimentam minha inquietude de viver realidades diferentes.

5. Eu não mudei radicalmente minha alimentação

Apesar de me alimentar bastante com orgânicos e tentar levar uma dieta something-free (gluten, lactose, conservantes etc) eu continuo me permitindo os prazeres do xis, dos açúcares e do álcool. Moderação se tornou mais presente, mas “deixar de…” não encontrou espaço no meu vocabulário.

6. Eu não tive uma revelação espiritual

Talvez a minha maior desilusão tenha sido o fato de Deus não ter se revelado pra mim. Juro que fiquei esperando ver aquela famosa luz que levaria o agnosticismo para longe de mim, mas ela não apareceu e se apareceu eu estava olhando para o outro lado. Lógico que questionei o porquê de ter sido “escolhida”, mas foi como se eu soubesse que eu deveria dar um pause na minha vida e um play em slow motion. Fora isso, nada de muito fantástico aconteceu, era como se eu tivesse esperando a doença acontecer, como se eu soubesse que um dia ela chegaria.

7. Eu não passei a querer uma vida sozinha e isolada

Esse talvez seja o ponto mais controverso do meu texto e por isso deixei ele por último. Controverso porque 10 meses depois da cirurgia e 9 meses depois do início da quimioterapia eu terminei um casamento de 10 anos (para quem tinha vivido 27, mais de 1/3 da vida toda). A separação aconteceu, duas pessoas escreveram uma história, iniciaram uma família juntos e então decidiram seguir caminhos diferentes. A verdade é que um casamento de 10 anos e uma experiência de quase morte (por mais que meu tumor tenha sido removido e o tratamento esteja sendo bem-sucedido, eu nunca tinha quase morrido antes) me ajudaram a perceber o quanto eu gosto de ter alguém, de pular de cabeça em uma relação e de ter/fazer parte de uma família.

Tá, mas e aí, o que eu consegui de fato aprender e mudar depois de tudo o que aconteceu?

1. Eu descobri que eu tenho vida demais dentro de mim

A grande diferença entre o meu eu antigo e o meu eu atual é que aprendi a valorizar o tanto de vida que existe em mim. Passei a aceitar que eu não sei dizer “Adeus”, e por isso sempre digo “Até logo”. Admiti que não quero e que não vou nunca morrer, que minha profissão me eterniza na vida das pessoas e que essa é uma forma de viver para sempre. Entendi que sou intensa demais para uma vida tranquila, e que essa intensidade pode ser uma delícia. Reconheci que eu simplesmente amo e que me entrego quando estou afim e que amar me faz muito bem.

Por fim, eu queria dizer apenas que o câncer não foi o grande divisor de águas da minha vida, mas que ele me fez enxergar que o amor é sim aquilo que define a nova pessoa que eu me permiti ser.

Amem, amem loucamente, mais do que vocês pensam ser capazes.

Amar faz bem para quem ama, e isso basta.

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