Fios e Mar

Giovanna T. Catapani
Nov 3 · 6 min read

A algum tempo atrás eu estava no metrô, lendo, como sempre fazia e vi uma garota do outro lado do corredor. Ela era bastante bonita, e seus olhos pretos brilhantes me atraíram de forma bastante desconcertante. Até ali, eu me achava hétero e tinha passado por alguns ficantes e dois carinhas de longo prazo e me sentia a dona do meu nariz.

Eu estava enganada. Muito enganada. Enganada em tantos sentidos que a vida quis me mostrar quão tola eu era — isso não mudou muito ao longo dos anos, mas naquela época eu era particularmente estúpida.

Bem, basta dizer que a garota mexeu comigo e perdi preciosos minutos, embasbacada olhando para seu rosto. Ela tinha alguma ascendência asiática, mas seus olhos eram puxadinhos e lembro de ficar fascinada pela maquiagem suave na pálpebra, brilhando na luz fluorescente.

Suas roupas não eram muito chamativas, simples calças cinza mescla de moletom com faixas pretas e brancas nas laterais, uma camiseta bem cortada na parte de cima e os cabelos, vinha presos num coque. Nessa época eu vivia pensando que minhas roupas eram horríveis e bem, identificar quão caras eram as roupas das pessoas era um passatempo meu: a camiseta da garota só podia ser de marca, ou ela estava fazendo bruxarias para manter aquele caimento.

Lembro que perdi tempo admirando-a e sentindo aquele calorzinho atravessando meu corpo, e não percebi, até ela quase estar se levantando para partir, a caixa plástica em que ela estava cortando fios elétricos vermelhos em pedaços com uma tesoura dourada cheia de arabescos.

Ela se levantou suavemente, enquanto os dedos longos e delicados depositaram a tesoura dentro da caixa, fechando-a e colocando dentro da mochila que estava apoiada em um dos ombros. Quando as portas se abriram, como que entre um abrir e fechar de olhos, ela veloz já estava lá fora.

Naquele dia percebi, entre o pensamento que talvez ela fosse uma estudante de engenharia elétrica e o de que gostaria muito de puxá-la para um beijo, que usava uma capa esvoaçando ao vento, como líquida, em seda semitransparente que ia até os pés. Isso já devia ter me dado uma dica de que eu não estava tratando com uma pessoa qualquer — eu realmente me achava perspicaz naquela época.

Dois dias depois sofri um pequeno acidente, o ônibus passou por cima do meu pé enquanto eu esperava no ponto. Quando minha mãe me perguntou eu lhe disse que eu devia ter colocado no pé no chão, na canaleta, sem perceber, já que o ponto era mais alto do que a via e o ônibus não teria subido até a guia alta.

Eu vi a garota no hospital, seus cabelos longos caíam sobre os ombros, dessa vez, soltos. Ela olhou rapidamente para mim e por um instante percebi que seu rosto se retesou em uma careta para em seguida clarear e voltar a cortar os fios. Vi que ela acompanhava uma pequena senhora, que parecia visitar o quarto de frente ao meu.

Elas partiram nem meia hora depois de chegaram e contei vinte e oito fios cortados, um atrás do outro…zip…zip…zipzip.

A terceira vez que eu a vi, foi assustadora, bem me diga, eu te desafio, a pensar no pior engavetamento que você já viu. Eu estava viajando com a minha família, como presente depois de realizar toda minha fisioterapia pós-cirúrgica e nós estávamos todos loucos para pegar uma praia.

Sério, eu e a minha irmã estávamos de biquíni por baixo da roupa, prontas para cair na água assim que chegássemos na casa de praia da família. Os planos foram frustrados, por que tão logo caímos na rodovia que levava a todas as cidades litorâneas do sul de São Paulo, o trânsito estava travado.

Isso não era incomum. Nós já tínhamos passado horas presos na estrada, na época do ano novo, para voltar para casa, mas no meio de abril, as coisas já estavam tranquilas e só no próximo final de semana seria feriado.

Minha irmã avistou primeiro, tão logo paramos completamente e meu pai desligou o motor. Lá na frente, talvez dois ou três quilômetros havia fumaça e conforme abrimos as portas, o barulho aumentou exponencialmente — vínhamos fechados com ar-condicionado.

Nós nos aproximamos um pouco, mesmo com mamãe berrando para não nos perdermos. Lá na frente seis carros estavam batidos, três simetricamente arrebentados um, na traseira do outro, um deles capotado, e outros dois, à direita, com as laterais destruídas.

A garota estava no recuo da estrada, dessa vez ao invés dos fios elétricos ela segurava um novelo de lã, frágil, em que ela parecia arrancar pedaços e deixar voar ao vento. A trança em seus cabelos, tinha sido feita com a mesma lã, enfeitando os belos fios negros, que ao sol, pareciam ainda mais escuros do que nas luzes artificiais do metrô e do hospital.

Tentei me aproximar, mas Agatha, minha irmã já me puxava para trás, de volta ao nosso carro. Olhando para trás, eu tentava vê-la por entre as janelas dos carros ou por cima de seus tetos, mas ela tinha sumido, levada talvez pelo mesmo vento que dissipava a lã, ou era eu que já não enxergava: sim, sou dramática, mas assim que me virei, encontrando os olhos de Agatha, a garota não estava mais lá.

O cheiro de carne e fogo estava no ar e mesmo sem ter visto os corpos eu não conseguiria fechar meus olhos aquela noite. O passeio tranquilo e a diversão programada perderam tão rapidamente o lustro. Pelo menos eu podia olhar para o mar e sentir-me feliz de revê-lo.

Respiro fundo e sinto o ar deliciosamente gelado e salgado. Sinto o pulsar das ondas na veia, e o mergulho, seguido de outro e de outro parecem inflamar meu corpo inteiro de vida. O prazer se espalha sobre meus sentidos, e quase quero ir mais fundo, mais profundo, tão longe quanto minhas pernas fortes podem me levar.

Eu não vejo a garota dos fios, nem ninguém lá na expansão marinha. Não há ninguém nesse universo todo, só eu e o mar.


Sonho com o mar na pele e o sol a esturricar a pele salgada. Com os cabelos cheios de areia, duros ao toque, mas reluzindo no sol. Sinto a areia sob os pés, grosseira, e o cheiro de molhado e protetor solar. São sensações deliciosas de certa forma, e alguma coisa mais. Certo Outro, simplesmente Outro.

Sonho também com seu corpo ao meu lado, sua boca contra a minha, seus fios se enrolando em meu corpo, até que enredam de tal forma que parecem me estrangular. Seu cabelo negro cai sobre mim, mais longos do que eu vira em qualquer de nossos encontros e seus dedos, tocando meu rosto, mantendo-me quieta entre suas pernas.


“Por que você me vê?” Ela pergunta, depois de tantas vezes que a vi, distante, perto, logo ali ,com quilômetros de distância — na tv e no computador em vídeos que ninguém mais parece vê-la.

“Eu não sei.” Ela toca meu punho, segura-o delicadamente, mas é como se seu toque me queimasse, me devorasse, me levasse embora.

O tecido transluzente que a cobre é quase como luz tecida sobre seu corpo, e seu rosto é quase uma máscara de terror, transformam-se logo a minha frente.

Eu não tenho medo.

Quando a puxo para perto, abraçando-a contra mim, posso ouvir seus soluços, a forma como seu corpo luta para fugir, para me deixar. Não deixo. O tecido me toca, e a minha pele, ferve, desmancha, quer fugir também, só que do meu corpo.

Acordo sozinha no quarto, deitada sobre o colchão.


Encontro-te mais uma vez, a derradeira, quando você toca minha tez, delicadamente, mãos quase azuladas. O vento a nosso redor parece querer nos derrubar, a cair do viaduto, nos carros velozes lá em baixo. Seria cênico se eu morresse aqui: Garota de cabelos verdes caí para a morte no Viaduto do Chá.

Minha visão se tornou leitosa, um branco infinito parecendo englobar todo meu campo de visão. Seus dedos, apesar de aparentarem estar tão gelados no seu azular, tocavam-me quentes e me fazem querer se aproximar ainda mais.

De repente, no farfalhar de asas de uma libélula que pousara em seu ombro, toda a cidade se desmancha e em seu lugar o mar toma conta do horizonte. Ao invés do viaduto, eu e ela, pousadas em uma ilhota de rochas, descansamos. O ar agora está pungentemente azul, salgado, molhado e ela sorri.

“Sabia que devia ter alguma coisa diferente em você.”

Eu rio e jogo-me às ondas. O sol é testemunha das brilhantes escamas que luzem a sua luz.

Giovanna T. Catapani

Written by

Escritora, contando uma história de cada vez.

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