Está na hora de conversarmos sobre os Batistas Brasileiros

Não sou pastor nem diácono de uma igreja batista, mas sou professor de Escola Bíblica Dominical há muitos anos e minha família somada à da minha esposa tem uma filiação que em nós chega a sua quarta geração. Não gostamos de usar o termo filiação, mas neste texto será necessário. Batistas têm uma história interessante que vale a pena ser contada. Depois da Reforma, muitos grupos de fiéis com entendimentos muito próximos entre si começaram a surgir na Europa independentemente da liderança dos grandes reformadores e com características que variavam de acordo com a região ou proximidade com as novas confissões. Calvino chamou esses emergentes de nicodemitas, não de forma elogiosa, mas de forma muito precisa. Muitos de nós acredita que a herança nicodemita foi marcante no primeiro século de existência histórica dos batistas. A exemplo da história de Nicodemos, que a tradição chama de covarde por procurar a Jesus de noite, uma incompreensão do contexto social e cultural do tempo de Jesus, Calvino chamou de nicodemitas aqueles que saíam às claras manifestando publicamente suas práticas religiosas domésticas graças ao guarda-chuva da Reforma Protestante e ao custo do martírio dos seus pioneiros.

Com grande influência dos valdenses, swinglianos, anabatistas, menonitas, posteriormente dos presbiterianos e finalmente dos pentecostais, batistas têm peculiaridades no mundo todo e no Brasil também têm características muito particulares. Nos nossos mitos nos consideramos aparentados, do ponto de vista das ideias, com os cátaros e até mesmo relacionados aos discípulos de João Batista em pessoa, mas isso é assunto pra outro texto. No Brasil, os batistas tiveram um início não muito nobre, refugiados sulistas da Guerra da Secessão no interior de São Paulo organizaram a primeira igreja batista do Brasil em Santa Bárbara. O Brasil era o destino lógico para alguns sulistas por ser um país de liberdade religiosa durante o período imperial e onde a escravidão ainda era aceita. Há quem os relacione a uma investida republicana com infiltrados dos EUA no Brasil Imperial, mas não vou me meter nisso. Há, no entanto, uma anedota interessante e verdadeira sobre esse tema em que uma senhora rica do sul dos EUA enviou uma carta a D. Pedro II sugerindo que o Império do Brasil anexasse o estado do Texas, ao que o magnânimo e abolicionista imperador respondeu com três palavras, No, no, no.

No fim do séc. XIX o movimento evangélico batista se organizou com missionários vindos dos EUA com interesse de expansão dessa mensagem e com autorização expressa da coroa brasileira. Os missionários dessa geração eram adeptos da corrente mais radical existente no sul dos EUA à época e imprimiram muitas das marcas que reconhecemos até hoje nos batistas do Brasil, uma delas é a ostensiva abstenção de álcool e tabaco, coisa que tem diminuído muito nos últimos anos, e a separação total entre igrejas e Estado, ideal que está em crise no presente. No livro As religiões do Rio do jornalista carioca João do Rio, uma das mais lisonjeiras páginas, no meu entendimento, é dedicada ao pastor F. F. Soren na ainda pequena missão batista que viria a se tornar em 1884 a Primeira Igreja Batista do Rio, ou, como chamamos, a PIB do Rio. João do Rio era um jornalista que fez esses ensaios críticos sobre suas experiências nos terreiros, templos e reuniões de todas as religiões quantas pode visitar no Rio de Janeiro imperial do fim do séc. XIX. Sua obra é considerada o primeiro registro etnográfico das religiões de terreiro no Brasil e pode ser baixada do site Domínio Público.

O interesse no Brasil no início do séc. XX não era estratégico, os missionários que vinham para o Brasil o faziam por vontade própria, o foco estratégico das agências missionárias dos EUA era a China. Alguns deles fundaram escolas como o Colégio Americano Batista do Rio, o Colégio Batista de São Paulo, Colégio Batista Mineiro e outros importantes colégios que se tornaram relevantes durante o séc. XX por serem centros de excelência onde havia liberdade religiosa e racial. Nossa história começou de forma diferente da história dos Batistas do Sul dos EUA, enquanto a segregação se manteve como característica marcante e uma mácula por lá, no Brasil essa mancha parece ter sido evitada ou pelo menos amenizada pelos primeiros missionários. João do Rio deu especial destaque à convivência fraternal entre membros da sociedade, militares e negros libertos e escravizados nos cultos da PIB do Rio, ressaltando a incomum expressão de alegria nos rostos dos negros presentes.

O antropólogo presbiteriano Antônio Gouvêa Mendonça, professor da USP, destaca em seu livro O celeste porvir — a inserção do protestantismo no Brasil, o caráter isolacionista dos Batistas, inclusive no Brasil. Isso parte da nossa mitologia sobre a origem subterrânea da nossa fé vinda dos nicodemitas e que nos destacaria dos demais protestantes, criando entre nós, inclusive, uma certa ojeriza do termo. Também temos a tradição já um pouco desgastada de não usarmos cruzes como adorno, uma incorporação da orientação da Constituição Imperial de 1822 que permitia a diversidade religiosa, mas não a construção de templos com características confessionais visíveis. Os batistas brasileiros incorporaram essa proibição legal à sua mensagem de internalização da espiritualidade e nosso símbolo máximo passou a ser a Bíblia, incluindo a exclusão da cruz da bandeira que não se chama Bandeira Batista, mas Bandeira Cristã, e a incorporação do título Bíblia Sagrada.

Depois da Segunda Grande Guerra, por relatos de missionários norte americanos aposentados com quem convivi pessoalmente, em especial o Dr. Joseph Arnold Harrington, que veio para o Brasil em 1928 com recursos próprios e ficou até sua morte, houve uma mudança de comportamento dos EUA em relação ao Brasil. Começou um processo que foi visto por poucos como nocivo, orientações recebidas pelos missionários enviados para o Brasil da parte do seu governo para que embutissem o máximo que pudessem na pregação evangélica a promoção do American Way of Life, algo meio desnecessário graças ao patriotismo apriorístico dos norte americanos e à política de submissão brasileira, mas mesmo assim, alguns pastores Brasileiros reagiram a esse processo graças a um intelecto sem dúvidas superior e a uma grande convicção bíblica, um deles foi o veterano José A. da Silva Bittencourt que, como registrado no livro do Dr. Ader Alves de Assis, Pioneirismo e neopioneirismo, foi uma das primeiras lideranças brasileiras a dar alta à liderança norte americana e a imprimir um modelo de eficiência administrativa, como executivo da Convenção Batista Mineira, que não dava motivos ao paternalismo norte americano, ele também combateu ferrenhamente a influência pentecostal que tem até hoje como marca um certo fanatismo pró-EUA. Ainda assim, a influência inegável dos EUA sobre a cultura Brasileira como um todo, a pouca formação crítica dos batistas brasileiros, divisões internas e uma simpatia natural dos grupos reformados pela direita política, levaram não só ao enfraquecimento de posturas mais independentes, como também a uma influência crescente de grupos pentecostais fanaticamente pró-EUA, que passaram inclusive a contar com aporte financeiro externo a partir dos anos 80; algo que se nota até mesmo em agências estrangeiras de evangelização de índios já notadamente envolvidas em escândalos, alguns até mesmo denunciados pelo CIMI, Comitê Indigenista Missionário da Igreja Católica Romana e respeitáveis ONGs indigenistas brasileiras, mas sem qualquer relação com os batistas brasileiros.

No séc. XXI, a tendencia norte americana dos anos 90 de surgimento de mega-igrejas, chegou ao Brasil. Hoje, a maior igreja batista do Brasil é a PIB de Curitiba e como um batista velho, ainda que de pouca idade, pressenti o perigo. Eu pessoalmente sou ligado a uma tradição familiar muito mais nicodemita do que institucional, mas a simpatia pela direita tem alinhado verdadeiras legiões de batistas brasileiros ao antipetismo, que eu diria cego ainda que justificado pelos escândalos apresentados pela mídia. Em 2010, o pastor Paschoal Piragine, pastor da PIB de Curitiba, também um homem de extensa tradição familiar no meio Batista, publicou um vídeo que viralizou nas redes com um de seus sermões em que ele fazia acusações pesadas contra o governo petista a partir do mote da expressão bíblica iniquidade. https://youtu.be/RM5xDZU266A Naquele momento reagi negativamente porque vi que ali delineava-se o pontapé inicial de um processo de julgamento seletivo e unilateral da maldade na política brasileira. Não posso dizer de onde veio a diretriz, mas aparentemente houve uma diretriz, uma vez que esta foi a deixa para que uma onda de antipetismo avançasse pelo chamado Brasil Batista, a saber, a maior e mais antiga convenção batista do Brasil que é a Convenção Batista Brasileira ou CBB. O que percebi, ainda que sem dados precisos é que toda a liderança batista parecia muito empenhada em se manifestar contra o PT em 2010, contudo, de forma muito diferente dos crentes batistas que parecem não ter dado ouvidos a seus pastores à época.

Batistas em posições de destaque se alinharam ainda que sem se conhecer. A advogada Janaina Paschoal disse que foi Deus, eu diria que também foi Deus, mas principalmente a expressão de um desejo de justiça fomentado por uma mentalidade de moral seletiva criada por mais de 50 anos de doutrinação direitista e incentivos de instituições de fomento ideológico radical pelo menos desde os anos 80. A jornalista Raquel Sherazade, o procurador Deltan Dellagnol, o próprio pastor Paschoal e a advogada Janaína Pascoal se tornaram figuras de destaque inquestionável nesse processo de luta contra a corrupção. São os heróis perfeitos exatamente porque têm as mãos limpas, diferentemente dos líderes pentecostais que já se sujaram demais na sua sede de poder político devido a suas agendas de crescimento empresarial de igrejas e franquias.

De fato, como paladinos da justiça, não há dúvidas de que agiram crentes de estarem praticando o bem e realmente fizeram algum, nem que esse bem seja a exposição de nossas próprias debilidades como povo. Hoje vejo melhor que nunca os danos que a corrupção, inclusive a que esteve presente no governo petista, causou e tem causado ao Brasil. Esse também tem sido um momento marcante para a história do povo batista que começou tão timidamente no Brasil há quase dois séculos e realmente ainda não dá pra saber como ficaremos na história do Brasil. Mesmo assim, me preocupam algumas das motivações aparentemente presentes por trás dos acontecimentos recentes e alguns dos interesses presentes nesse show. A minha principal preocupação é quanto as agendas que permitiram e permitem que esses atores se manifestem, a seletividade do ataque, as alianças ocultas entre uma direita internacional e agendas ideológicas e o aprisionamento das liberdades individuais que sempre foram tão caras ao espírito Batista; isso levando-se em conta que temos como nosso representante máximo na história dos movimentos sociais ninguém menos que Dr. Martin Luther King Jr, mesmo que visto com muitas suspeitas e ressalvas pelas lideranças batistas do séc. XX. Friso aqui que desconheço as forças que podem estar dando a liberdade de ação aparentemente unilateral dos principais atores desse espetáculo, mas suspeito que além de serem muito humanas, não sejam muito comprometidas com o bem.

Nessa curta divagação considero apenas que a diversidade e a história mítica dos batistas e sua relação com o evangelho não combinam com o que temos visto através das grandes manifestações desses indivíduos coordenados por uma movimentação antipetista no meio batista. Ninguém fala pelos batistas, somos um povo criado a partir de uma ideia de liberdade que não se encaixa em nenhum modelo de pregação cristã existente, mas que acreditamos ser emanada da própria Bíblia. Entendemos que os erros de indivíduos que se deixam guiar por interesses pessoais não têm poder de anular o evangelho em si e seu poder transformador divino. Acreditamos que modas como a das mega-igrejas tendem a desmoronar sobre si mesmas como já tem acontecido nos EUA, levando consigo seu desejo de influência secular.

Quando Paschoal Piragine se arvorou, com a força da grande congregação que pastoreia, bancar o profeta e apontar os pecados do “rei”, foi seletivo, essa seletividade no juízo divino já começou a cobrar um preço caro dos batistas brasileiros e ainda não se manifestou completamente. Ainda dá tempo pra lermos mais dos sermões do Dr. King e entendermos onde erramos como batistas de um país periférico, mas pessoas com dignidade e relevância centrais e inerentes a nossa condição humana. Em todo o Brasil, escândalos de corrupção ligados a eminentes membros de igrejas batistas têm se manifestado. Corrupção moral que faria corar o mais secular dos políticos brasileiros. “Perdi” recentemente alguns “amigos” de facebook quando inadvertidamente fiz um comentário que soou uma acusação de corrupção contra um pastor de uma grande igreja de BH e a sua família. Não era de forma alguma a intenção, mas foi muito educativo para mim. Fiz um comentário que deu a dúbia interpretação de que ao invés de falar de um processo histórico, estivesse falando da gestão do pastor. A reação foi impressionante, recebi inclusive postagens difamatórias com links para homônimos meus que são alvo de processos judiciais na minha linha do tempo.

Naquele momento percebi que há muito mais coisas podres no reino dos batistas brasileiros do que eu podia imaginar. Nunca ouvi de nenhum caso de desvio de dinheiro relacionado ao tal pastor, mas pude ver como o teto de vidro dos batistas brasileiros tem sido vítima da imprudência da noção de justiça seletiva de seus líderes. Algo que para nós deveria ser claro, uma vez que a expressão Temor a Deus se refere justamente ao medo da justiça de Deus com relação aos erros de todos, inclusive dos acusadores. Há pessoas de maldade indescritível entre os batistas brasileiros, mas ao mesmo tempo, há inúmeros santos e verdadeiros mártires anônimos, mudando o mundo uma escolha certa de cada vez.

A famosa frase do escritor e teólogo C. S. Lewis, De todos os homens maus, os homens maus e religiosos são os piores, nunca foi um aviso tão pertinente aos batistas brasileiros. O Salmo 145.20 nos consola e adverte: O Senhor guarda a todos os que o amam; mas todos os ímpios serão destruídos.