ESTVAN INTERIVS

Ainda estamos naquela nave sem rumo, nesta “nau de loucos”, cada vez mais numa civilização escrava de seus próprios sentidos, no “império dos sentidos”, por negá-los ou por servi-los. Não compreendemos o “sentido da Terra” e como fazemos parte deste sistema que nos produziu. “Disse Deus: produza a Terra…” Citações, títulos de livros e filmes não faltam pra falar dessa nossa tendência autodestrutiva. São Paulo já sofria pelo ímpeto destrutivo que percebia na sua própria natureza. Pastores anti-gay, líderes de comunidades de gente simples ávida por orientação, se convertem ao ateísmo e libertam suas sexualidades reprimidas mundo a fora, inclusive no Brasil. Cantores de bandas gospel se descobrem ateus depois de tentativas mal sucedidas de obter o favor divino com suas canções pop.

O mundo uma vez mais se polariza, gostamos de nos polarizar. Ah! que falta faz a União Soviética! O nazismo, então!? Pura nostalgia. Direitistas, racistas, homofóbicos e fanáticos religiosos no Brasil, se aglutinam uniformizados com a camisa da nobre CBF pra demonstrar como o Ensino Particular fracassou em ensinar a história, a geografia e a sociologia. O ensino de Arte se safa desta culpa, já que nunca prestou de verdade mesmo, pelo menos em escala suficiente pra provocar alguma mudança na sociedade. Tudo bem, é uma injustiça, mas sabe-se muito bem que desde sempre a Arte é mantida a rédeas curtas no Brasil, porque é muito bem sabido seu poder incontrolável de iluminar as mentes com mais eficiência e profundidade que as disciplinas da escrita.

Uma parte do Islã bem que tem tentado reavivar a libido sanguinária do ocidente, mas não parece estar dando muito certo. Ninguém mais parece querer marchar para a morte certa sob a insignia da cruz, o ocidente está ficando deprimido, como previa o Nietzsche. Os endinheirados países do norte conseguem manter-se no negócio dos massacres graças aos autômatos voadores e o gosto juvenil por jogos eletrônicos. Poucas instituições têm coragem de desafiar antagonistas tão convictos quanto os maometanos, será que anteveem o colapso natural da fé dos mouros pela fadiga e pela corrupção? Aqui os mais tradicionalistas preferem torturar pessoas de cores inaceitáveis para funções como jornalistas e políticos, pessoas desarmadas e desacompanhadas que podem ser ou apenas parecerem ser homossexuais, atacar sedes de instituições religiosas que sejam inaceitáveis por serem diferentes como as afrobrasileiras e outras do tipo. Violência gratuita e desprovida de ideologia, só munida de pretextos instantâneos, igual a moça que vomitou o xingamento racista no campo de futebol e depois nem sabia mais dizer porque o fez. Queimamos por dentro! Queremos sentir a emoção, mas sem pagar o preço, claro.

Polarizamos por qualquer motivo e a cada notícia bombástica no feed do facebook, é um vício ou uma parte da nossa personalidade como povo que ficou oculta pelo analfabetismo e pelas ditaduras desde a famigerada guerra das penas que sucedeu a independência do Brasil, quando brasileiros e portugueses trocavam insultos em panfletos distribuídos no centro do Rio com xingamentos e argumentos inflamados a respeito da questão? Já percebemos que polarizar é o primeiro passo para lugar nenhum, mas gostamos mesmo assim. Nos sentimos úteis nos provocando uns aos outros vociferando nossas ideias em poucas ou muitas, bem ou mal escritas linhas no facebook. É catártico, é bom mesmo, nos ofendemos e provocamo-nos uns aos outros sem máscara ou com máscara, lavamos a alma e eventualmente sentimos que exageramos na dose e nos retiramos para dar um tempo ao esquecimento. Mas aí alguém posta que os médicos cubanos estão curando ilegitimamente pessoas que deveriam morrer já que não se cura a menos que em um ambiente muito bem montado com o estado da arte da indústria médica e principalmente, em horário comercial. Impossível suportar o novo escândalo de roubo milionário de políticos petistas sem chamar de ameba, pra ser polido, o irmão ou vizinho que votou na legenda.

“Tudo que é sólido se desmancha no ar” escreveu o barbudo Marx que era tido como sócio do próprio Satanás quando eu era criança. A ventania do movimento LGBT tem feito muito bem ao mundo religioso, mas ainda tem muito a fazer, tem muita fábula construída sem fundamento que ainda precisa desmoronar. O cristianismo tá demorando muito a perceber que há muito tempo representa o papel de bufão dos antagonistas clássicos do próprio Jesus Cristo, os fariseus. As instituições precisam se acostumar à ideia de não serem mais as únicas a proferirem opinião válida para o conjunto da sociedade. Mas é preciso salvar a instituição! Eu, como fiel, sou o primeiro a acreditar que instituições de origem divina são as que menos devem se preocupar com seu fim quando são fieis, afinal, não é qualquer organização terrena que é mantida e gerida pelo Criador deste e de qualquer outro universo.

Desacostumamo-nos à liberdade, e ela parece feia, é feia por que é verdadeira. É polifônica, polissêmica, multiforme e é bela porque é feia, porque é verdadeira, quer dizer, pelo menos para quem ama a verdade. Isto porque é a ferida aberta e limpa, pronta para se tratar e não a coisa velada que esconde sua doença. A beleza confortável da mentira é um torpor, é o vestido da princesa da Disney, que nunca foi vestido de princesa de verdade e que nem é bonito mesmo ou confortável pelo menos, mas que pra dizer a verdade pode ser que foi costurado por uma criança escrava na China.

Se não fossemos tão preocupados em sermos uma democracia latinoamericana, nome dado pelos franceses, se não estivéssemos tão impregnados de tantas ideologias que nos obrigam a sermos esta versão imaginada por alguns de uma nação tropical, uma pátria sem terno e gravata, uma terra onde não se chamam as pessoas pelo sobrenome, onde seriamos todos cordiais e calorosos… nem vou concluir, não somos nada disso, não somos uma versão sulista da república dos EUA, não somos uma versão tropical e católica dos sucessos do norte, no passado fomos um império com uma significativa presença de negros, pardos e índios intelectuais na corte, começamos, como povo, a esquizofrenia da ordem e da uniformidade com Deodoro e o céu estrelado de uma república atrasada e insuficiente, com apenas dois terços do já capenga ideal positivista, já que nem o lema completo foram capazes de expressar. Amor, ordem e progresso, mas sem o primeiro nenhum dos demais é possível, e não foram.

Eu diria que precisamos fazer as pazes com nosso passado, depois ou ao mesmo tempo, fazer as pazes com o presente também. Precisamos de conciliação, precisamos incluir o amor na bandeira ou tirar tudo de uma vez. Sou pelo retorno da coroa, uma coroa que seja moderna, uma coroa que concilie não só os partidos, mas nossas tradições, será que ninguém percebe o buraco em todas as nossas tradições religiosas e artísticas? Tem um buraco do tamanho da coroa imperial que tem segregado o Brasil, que faz Machado e Assis e Chiquinha Gonzaga aparecerem brancos nas novelas da TV onde o império só é representado como a República Velha, onde negros são apenas serviçais. Uma elite financeira burra não consegue enxergar que não é elegante no mundo em que vivemos a ostentação de bens como automóveis e peitos de silicone sem uma boa contrapartida social. Que ser comedido e econômico é chic, é ecológico, é honesto. As elites precisam de pastoreio no Brasil, precisam se comportar melhor e também não dá pra nos iludirmos que esta casta se vá, temos de conviver com ela ou outra pior a sucederá, é preciso que sejam domados e só a coroa pode domá-los inspirando um modo de vida mais discreto e responsável. É preciso que os projetos sociais continuem, é preciso que a centro esquerda continue militando pelos pobres, mesmo que por outro partido que não seja o PT, é preciso distribuir cada vez melhor a renda e a cultura sem que os partidos sejam reféns das mega empreiteiras, nesta mediação também tem um buraco do tamanho da coroa.

Não é arcaísmo, nem conservadorismo, não podemos negar que geneticamente ainda somos um império, que sejamos então um império, que sejamos honestos com nós mesmos, aceitemos que não exite lugar algum na Criação onde haja linhas retas e uniformidade. Sejamos muiticoloridos e multifacetados, assumamos a convivência do passado e do presente a exemplo da natureza que existe e evolui pela colaboração de opostos ou pelo menos de aparentes opostos. Amor e tradição não excluem diversidade, liberdade e desenvolvimento. Viva o Brasil, viva o futuro, viva o imperador!