Quando o a sós, é a dois


Para ouvir enquanto lê: The National — About Today

Quando clareou, não se moveu. Não sabia se abria os olhos e via o teto descascado a sua frente, ou se deixava-os fechados para sentia as lembranças desabando em seus pés. Preferiu ficar de olhos bem fechados.

Aos poucos, ele foi voltando a cidade onde morava. Lembrou dos livros pueris na prateleira, das risadas que preenchiam a sala enquanto ele cozinhava e de tantos porquês que teve que responder. Agora era ele quem perguntava “o porquê”. O motivo que fez ele e a esposa deixarem a cidade foi também, durante 5 anos, motivo dele viver.

Luma.

Ela estava em todos os lugares. Nos passeios, nas bicicletas, na padaria da esquina. Era mais fácil correr os olhos por um texto de Saramago do que andar entre as lembranças. Nenhuma risada era igual a dela, nenhum cheiro era igual, nada mais era tão divertido. Ele estava a sós, mesmo estando a dois.

Ela, que foi tão desejada, disse próximo ao fim:

- Pai, não chora não. Lá de cima eu mando um irmãozinho.