Como o Tinder fez você se relacionar mais, porém, cada vez de forma menos significativa

Uma opinião a respeito do porque a tecnologia que permitiu a comunicação e interação em massa, acabou por destruir as relações mais profundas.

Imagine a seguinte situação: você começar ler este texto agora, lê um ou dois parágrafos e para; volta aqui daqui uns dois meses e recomeça a leitura de onde parou, lê mais dois ou três parágrafos e decide parar novamente. O motivo? Muito provavelmente porque você achou um outro texto parecido, com uma ou duas virgulas mais bem colocadas. Por fim, talvez você nunca saiba o final deste texto e nem do outro, pois ao começa-lo, todo o loop começa novamente.

Isso parece absurdo, não? Afinal, porque simplesmente não terminar o texto? Pois bem, essa situação que eu descrevi é exatamente o que acontece na maioria das relações de hoje em dia.

Mas antes da gente começar de fato o texto, reflita sobre as duas perguntas que eu vou propor agora, depois de responde-las mentalmente, de continuidade a leitura!

Primeira pergunta: Qual foi sua ultima conversa realmente significativa? Segunda, e mais importante: Você ainda fala com essa pessoa?

Se você respondeu sim para a segunda pergunta, talvez você não se identifique com este texto, ao menos ainda não!

Uma coisa é obvia, a tecnologia não deu à luz as redes sociais, elas sempre existiram, bastar unir um grupo de pessoas em prol de um interesse em comum, que temos a definição perfeita de uma rede social. O que a internet fez com seus bilhões de nós (nos dois sentidos da palavra) foi quebrar as barreiras físicas e geográficas para que essas redes existissem e se multiplicassem.

Ou seja, hoje você não precisa estar de fato presente, para pertencer a uma rede. E isso mudou completamente a forma como nos relacionamos e, na minha opinião, nem tudo foi positivo nessa revolução, pois no meio do caminho, nos esquecemos de algo muito importante: por de trás de todas as nossas interações digitais, por de trás de todos os bits que compões cada um dos nosso comentário no Facebook ou matchs no Tinder, existem pessoas de verdade, como eu e você.

Outra pergunta: você já parou para pensar em como seus pais se conheceram? Meus pais se conheceram em um bar, não foi amor a primeira vista, na verdade, acho que de cara nem foi amor, algum tempo depois, os dois estavam namorando, ai veio meu irmão mais velho e, no meio tempo entre tudo isso, um casamento. E acho sinceramente, que só alguns anos depois disso, que de fato, veio o tão falado amor. E hoje, trinta anos depois, nem é mais amor como imaginamos, é um sentimento de irmandade, que transcende a interação entre homem e mulher que conhecemos.

Essa ideia de conhecer alguém em um bar e pouco tempo depois se casar é totalmente surreal hoje em dia (não que não aconteça ainda), mas, mesmo assim, é bem raro. Hoje o mais comum é sair com a pessoa e ficar meses em um status que não é nem namorando nem solteiro, o famoso “ficando”. Ficar é uma forma sutil de dizer “Vamos sair, mas se aparecer alguém mais legal, talvez a gente pare por aqui, talvez eu nem te responda mais e só suma mesmo, mas tudo bem, você entende, não é?”.

Mas calma, não quero dizer de forma alguma que a tecnologia estragou os relacionamentos. Porém, essas novas ferramentas de relacionamento tornaram a comunicação algo tão simples que fomos tomados por uma ansiedade, incontrolável, de nos comunicarmos o tempo todo, com todo mundo, e cada dias mais. No entanto, essas nossas “conversas” e “relações” estão mais vazias. Não porque somos vazios ou nos tornamos isso, e sim porque é impossível gerencias toda a informação pela qual somos impactados.

Vamos usar como exemplo o Tinder, você vê uma pessoa bonita, deu like nela, a pessoa então correspondeu e o like virou match; você então manda um “oi”, a pessoa responde com outro “oi”, ambos estão interessados, tem tudo pra dar certo! Agora é só deixar a conversar fluir.

Mas, ao mesmo tempo que essa pessoa te respondeu o “oi”, outro match já te chamou, dando um discreto “oi” também, e você foi lá reponder, dessa vez com um “Oi, tudo bem?” (é bom diversificar); nesse meio tempo, aquela primeira pessoa perguntou “E aí, tudo bem?” (sempre vem isso depois do oi), e você ainda não foi lá reponder, pois, aquela segunda pessoa que você está conversado acabou de reponder que tava bem, e emendou o assunto com outra pergunta.

Parece que a conversa vai fluir com a segunda pessoa, você fica nessa janela conversando… duas horas depois, você volta na lá primeira conversa e responde “tudo bem sim e você?”. Porém, infelizmente, a conversa morreu ali.

Confuso não? Deve ter sido difícil ler esse parágrafo anterior, foi difícil escrever, mas é assim que as conversas estão hoje, dinâmica, confusas, e repetitivas. Sempre o mesmo “Oi”, sempre o mesmo assunto. E quando muda, quando realmente dá certo e saímos do mundo virtual para o real, nos deparamos com algo ainda pior.

Depois que o Tinder colocou na mão dos usuários, um “cardápio” quase interminável de opções, quem quer se prender a uma pessoa e correr o risco de não ter escolhido a “melhor opção”? O cabelo da garota não te agradou? Ou o cara não é tão alto ou forte como você pensou? Tudo bem! Rola um pouco pra direita, um pouco pra esquerda e tá ai, um novo match, talvez o tão esperado match perfeito, mas não, o nariz desse é grade demais! Vamos recomeçamos tudo de novo…

Os defeitos eram até aceitáveis na época do bar com meu pai e minha mãe, porém, nos dias de hoje, com todas as opções que temos, não aceitamos nada além da perfeição! Hoje é muito mais pratico e dinâmico trocar o "crush", do que aprender a conviver e aceitar um defeito de alguém, por mais que todo o resto seja maravilhoso.

E depois de todos essas etapas, ou seja, sobreviver ao “Oi, tudo bem?”, e a analise critica e detalhada do primeiro encontro, temos a terceira parte, a mais mortal de todas: o recomeço.

Basicamente, tudo volta ao inicio: as conversas, os vácuos, até que, um ou o outro, pare de responder de vez.

Claro, isso não é genérico, existem exceções e nem digo que é errado, pois cada um tem direito de buscar o que traz o riso. Porém, será que não estamos dinâmicos demais? Será que não vale a pena aceitar um defeito em prol de várias e verias qualidades de alguém? (Ainda estou ponderando essa resposta, sinceramente não sei).

Outra pergunta antes da gente continuar, quantas vezes você parou esses texto pra reponder uma mensagem ou ver uma notificação no Facebook?

Se a resposta foi várias, então estamos junto, pois enquanto escrevo, parei pra responder no WhatsApp, parei pra mandar partes do texto para um amigo dar uma olhada, parei para ler outra coisa, parei para ver um meme que me marcaram, simplesmente parei.

E acredite, vários textos meus não sobreviveram a essas pequenas interrupções, pois vira e mexe, eu esqueço o que tava fazendo e perco o pique. Ai fecho sem terminar de escrever e segue a vida.

Acho que de fato eu estou um pouco frustado com toda a tecnologia que facilitou a comunicação, porque no final das contas, pelo menos para mim, tenho falado e me comunicado muito, mas nenhum dessas experiências tem sido de fato memoráveis. E no final, o que me sobra são dezenas de conversas inacabadas.

Por fim, talvez eu não termine esse texto também… mas por hora, prefiro ficar só “escrevendo”, pois pode ser que apreçam ideias melhores…