Assentamento Chico Mendes: exemplo de agroecologia e preservação em Pombos-PE

Xainã
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Nov 5 · 4 min read
João é morador da comunidade de Ronda a mais de 30 anos. / Imagem: Xainã França

No Agreste do estado de Pernambuco, a cidade de Pombos ocupa um total de 207.7 km². Nessa área, a 14 km ao sul do centro da cidade, é localizada Mata de Ronda. Remanescente de vegetação nativa e espaço de proteção agroecológica, é lá que se encontra o Assentamento Chico Mendes, fruto da Reforma Agrária, conhecida por sua produção de hortaliças orgânicas. No geral, , Mata de Ronda é a segunda maior reserva de Mata Atlântica do estado de Pernambuco, com tem 2256 hectares de terra, sendo 512 totalmente cobertos pela vegetação, que é preservada pelos agricultores que lá residem.

Mas nada disso seria possível sem a coragem e persistência de João Francisco de Silva Filho, de 55 anos, também conhecido como João de Ronda. João atua no Sttraf, Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Pombos, como Diretor de Políticas Agrícolas e Agrárias do Meio Ambiente, há 15 anos, atuando em várias frentes e projetos para a cidade. Mas é em Mata de Ronda que fica sua paixão: a preservação do meio ambiente. João é o atual presidente do assentamento Chico Mendes, que tem como lema o cultivo orgânico e o cuidado com a natureza .

Morador de Mata de Ronda há 30 anos, João fala que sempre trabalhou na terra. Antes de ser um assentamento, o terreno era de propriedade do engenho Ronda, mas o dono declarou falência, o que coincidiu com o “boom” da Reforma Agrária no país, em 1998.

“Eu era um dos 18 funcionários e faziam mais de 6 meses que nós não recebíamos o salário. Depois do desapropriamento do engenho, nós lutamos pela terra, e depois reuniões foram feitas para decidir quem iria liderar o assentamento. Eu aceitei o desafio de coordenar o assentamento, mas deixei clara minha condição: ‘só vou se for preservar a mata’. Agora já somos 90 famílias no assentamento.” contou João de Ronda, que também confessou a importância do apoio dos movimentos sociais para a preservação ambiental.

A produção orgânica

Dos produtos lá produzidos, a sua grande maioria são de alimentos orgânicos, principalmente hortaliças. Para João de Ronda, poder trabalhar na terra pensando a preservação ambiental, sem precisar usar “veneno”, é uma das vitórias da Reforma Agrária. “Muitas vezes eu defendo mais o consumidor do que o próprio produtor, por uma questão ética. Quando notamos que alguém do assentamento está enganando o consumidor, é denunciado na Adagro (Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco), e a autorização de comerciar orgânicos é retirada”.

Atualmente, são 12 pontos de venda de alimentos orgânicos que saem de Pombos e são comercializados em Recife. “ Temos nossos produtos orgânicos no bairro da Iputinga, perto do Detran; perto do Anexo do Detran também; próximo da associação dos funcionários federais da Sudene, em Engenho do Meio; na Av. Beira Rio; No Sindicato dos Servidores Federais, na Rua João Fernandes Vieira; no Espinheiro, por trás do Incra; em Parnamirim, no Colégio Apoio; na Encruzilhada; no Sítio da Trindade; em UR5, Ibura; na Macaxeira, perto da Escola de Circo; e em Setúbal”.

O agricultor afirma que a produção agrícola orgânica, por muitas vezes, é vista como uma dificuldade, mas ele rebate esse pensamento. “Primeiro, que se um inseto precisa de comida igual aos seres humanos, por que que a gente vai exterminar ele? As técnicas usadas por nós geralmente incluem o uso de óleo mineral, calda de pimenta, lâmpada de LED afastada das plantações, barreiras de Cravo de Defunto, que é uma flor com cheiro forte. Todas esses métodos servem para afastar os insetos e fungos das plantações.”

João Francisco fala que conseguir tirar 100% de proveito da lavoura orgânica, sem ter perdas é impossível, no entanto, é a forma de cultivo que mais vale a pena, tanto para o produtor, quanto para o consumidor. “Teve um caso de um trabalhador nosso que se contaminou com os agrotóxicos, e agora está trabalhando com orgânico. Isso por que acabou prejudicando o fígado, tendo que tomar remédio para o resto da vida.”

“Se você pegar um molho de coentro, do que nós produzimos aqui no assentamento, e deixar na geladeira, ele vai durar muito mais do que o que foi cultivado convencionalmente. Não vale a pena”, exprimiu o líder do assentamento.

Dificuldades

O assentamento possui uma boa produtividade. Parte disso, é graças a uma das nascente do Rio Pirapama que em seu curso atende também a população de Recife. Além desse recurso natural ser usado para o cultivo dos orgânicos, a nascente têm sua preservação feita pelos moradores do Assentamento Chico Mendes. “Não ganhamos nada pela preservação da Mata de Ronda, nem pela preservação na nascente. Inclusive tem a JB, uma empresa de açúcar da região, que consome essa água e não nos dá retorno em nada.”.

Mesmo com 21 anos de assentamento, e com a constante preocupação de manter preservada essa reserva ambiental em Pombos, o poder público parece não valorizar verdadeiramente a importância dessa ação. “Queremos que o poder público realmente ajude, sem nos usar para angariar votos”, denunciou João, que também se diz indignado com o estado do trecho da PE-15, que liga a Mata ao centro da cidade.

O agricultor afirma que em uma das últimas reuniões do Comitê de Bacias Hidrográficas de Pernambuco, foi comentada a possibilidade de se cobrar pelo uso da água em todo o país. “Além de gastar com os equipamentos de irrigação, eu teria que pagar uma taxa anual. Isso é um incentivo para que nós saiamos da terra, e a entregue ao latifundiário, favorecendo também os grandes produtores da agricultura convencional”. Mas João acredita que com a divulgação do trabalho ecológico que é feito em Mata de Ronda, a população e o poder público se juntem à luta pela preservação. “Gostaríamos que Ronda fosse um lugar de referência em ecoturismo e pesquisas científicas”.

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