Afinal, o que é xamanismo? — Parte 1: O Xamã

Quando entrei em contato pela primeira vez com o termo xamanismo, não sabia o que ele representava, mas automaticamente associei-o à algo relacionado à um Xamã, um sacerdote, um curandeiro, etc. E é justamente isso, veja só! Considera-se que a palavra Xamã provenha da palavra tungue šamán, um termo da cultura Evenque, povo do Leste da Sibéria, e diz respeito à um praticante espiritual, alguém que viaja até o mundo dos espíritos em prol de sua comunidade. [1]

Se analisarmos a estrutura política e social de diversos povos ao longo dos milênios, encontraremos na grande maioria delas a figura central de um indivíduo que possui o conhecimento ancestral desse povo, seus mitos, suas crenças, a sabedoria do uso das ervas medicinais, da conexão com o plano espiritual e com seus antepassados, dentre outros aspectos. Esses indivíduos podem ser considerados Xamãs de seus povos, respeitados alguns fatores que falarei mais à frente.

“O Homem Pássaro” — Caverna de Lascaux

Um fato interessante é que a palavra Xamã é comumente empregada para designar os sacerdotes indígenas, mas é importante ressaltar que os sacerdotes índigenas não foram os únicos Xamãs que já passaram pela Terra, embora os mesmos tenham sido fundamentais para a difusão desse conceito. Existem pinturas rupestres que indicam a existência de tais indivíduos em povos primitivos, como podemos ver na pintura datada do período paleolítico conhecida como “O Homem Pássaro”, encontrada na caverna de Lascaux, no Sul da França, e que acredita-se representar um homem (ou Xamã hehe) se comunicando com um Bisão.

Como eu disse, os sacerdotes indígenas não foram os únicos Xamãs, mas foram extremamente importantes para a propagação desse conceito bem como das práticas envolvidas. Sendo assim, para facilitar a compreensão, vamos analisar alguns exemplos de Xamãs dentro de determinadas culturas. Obs: prestem atenção em um ponto chave que aparece em todos os exemplos:

Pensamentos de um Tohunga, de Charles Frederick Goldie.

Na cultura Maori, referente aos povos indígenas da Nova Zelândia, a estrutura social era dividida em três grandes classes: os Rangatiras (chefes), os tūtūā (plebeus) e os Taurekareka (escravos). Dentre os Rangatiras, contudo, existia uma sub classe chamada de Tohunga, onde seus membros eram considerados experts em alguma habilidade ou arte, incluindo mas não se limitando às artes espirituais, o contato com o mundo dos espíritos e das forças da natureza. [2]

Um “Medicine Man”, um Xamã Australiano

Na estrutura social das tribos aborígenes australianas, a figura do Xamã é papel central na comunidade. Os xamãs aborígenes são conhecidos pelos australianos como “Medicine Mans” e são considerados o elo de ligação entre a tribo e o mundo primitivo (Dreamtime) e seu Criador. O Medicine Man, através de suas viagens ao Dreamtime (O Mundo dos Sonhos), mantém viva a conexão com os antepassados, a força primordial e ancestral da tribo. Sem ele, a vida na tribo é impossível, visto que na cultura aborígene não há vida sem essa conexão. [3]

O Pajé — Um Xamã Tupi Guarani

No Brasil, um exemplo de Xamã é o pai’é (pajé) das tribos Tupi e Guarani. É ele quem detém o poder de se comunicar com os espíritos da floresta, dos animais e dos antepassados. Através do auxílio de tais espíritos, o Pajé pode curar doenças, afastar maus espíritos e ser o elo de conexão com os deuses.

Podemos utilizar exemplos de outras inúmeras culturas, mas acredito que conseguimos sintetizar o que um Xamã representa. Agora, lhes faço uma pergunta: vocês conseguiram notar o ponto chave que citei? Exatamente! Todos os exemplos continham um mesmo fator em comum: a comunicação com os espíritos.

Legal, e o que tudo isso tem a ver com o Xamanismo?

Pegue tudo isso que dissemos sobre os xamãs e você entenderá o que é xamanismo! Para não ficarmos no vácuo de uma definição, podemos entender o xamanismo como um conjunto de práticas realizadas por povos de diferentes épocas e localidades com o objetivo principal de se conectarem com o Mundo do Espíritos (ou Plano Espiritual). Aí você me pergunta: “Tá, entendi. Mas segundo essa definição, então uma missa católica é xamanismo? Um culto evangélico é xamanismo?”. E aí eu te diria: “Bom ponto, caro Curumim!”. Na verdade, nessa definição ficou faltando um ponto crucial que difere o xamanismo de outras práticas espiritualistas. É a forma como essa conexão é realizada. E essa forma é chamada de transe ou Estado Alterado de Consciência.

E o que é isso?

Bem, isso ficará para a parte 2!

Um grande abraço e até o próximo post.

Axé na Luz!

Fontes:

[1] O Espírito do Xamã — Mike Williams

[2] Teara — The Encyclopedia of New Zealand

[3] Aboriginal Men of High Degree — A.P. Elkin

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