Tá duro!
Como a pornografia online está causando o declínio das locadoras
Johannes Gutenberg criou, em 1455, uma das maiores contribuições para o mundo moderno, a máquina de impressão tipográfica. Isso permitiu a reprodução em massa de livros, jornais e publicações em geral. Mas, o invento de Gutenberg foi além. E hoje, sabemos que a imprensa está ligada intimamente com a disseminação de conteúdo pornográfico no Ocidente.
A pornografia é definida como qualquer material que contenha conteúdo explícito de atividades sexuais destinado a excitação erótica. No Brasil, durante a década de 70, influenciada por Hollywood, a pornochanchada levava ao público brasileiro temas como o adultério, o travestismo e a homossexualidade, misturando comédia e erotismo. Driblando, assim, a censura da Ditadura Militar, pela qual o país enfrentava, e o conservadorismo da sociedade na época.
No início da década de 80, o gênero da pornochanchada começou a decair, devido ao fim da obrigatoriedade das cotas de exibição de filmes nacionais e, também, porque o cinema passou a trabalhar com um outro tipo de filme: o erótico.
No fim dos anos 80, mais precisamente, em outubro de 1987, inaugurava, no número 1092 da Avenida Osvaldo Aranha, em Porto Alegre, a Zil Vídeos. Hilton Zilberknop, ou Zil, que tinha desistido de trabalhar como autônomo, e a convite do irmão — fundador da empresa-, assumiu a administração da locadora no ano seguinte. Atento às demandas que surgiam e ao mercado da época, Hilton enxergou uma oportunidade de expandir o seu negócio.
“Naquela época não existia canais de tv pagos, não tinha esse negócio de função de computador, de internet, nada disso e então eu analisei o seguinte: O camarada que queria ver um filme pornô ou ele ia no motel ou ele ia ver um filme pornô no cinema que não é a mesma coisa”, recorda Zil.
Nos anos 2000, outra mudança no cenário fez com que Zil mudasse também. A chegada do Digital Video Disc, o DVD, não agradou o empresário que resistia em disponibilizar o produto em sua loja. “Veio o DVD e eu não entrei, fui o último a entrar no DVD, a contragosto, na verdade, mas se eu não tivesse entrado, eu fechava as portas”, conta Hilton.
Mas não foi a chegada do novo formato que comprometeu o funcionamento da locadora, e sim, a internet. De acordo com o psicanalista e pesquisador Alberto Ribeiro Neto, a internet contribuiu para a popularização deste tipo de conteúdo. “A internet conseguiu dar mais privacidade ao consumidor. Isso fez com que ele sentisse mais liberdade ao procurar a pornografia, então ela criou um grande “boom” na internet”, explica Neto.
Para quem nasceu no meio de tantas mudanças no mercado cinematográfico, procurar por filmes pornô em locadoras não é uma realidade. Como pode ser percebido na enquete realizada abaixo:

O maior site de conteúdo pornográfico, o PornHub, publica anualmente dados e estatísticas que revelam os hábitos de consumo, preferências e interesses do mundo em sua plataforma de vídeos. Só em 2016, foram 100 Gigabytes de dados consumidos por segundo, o que significa, quase 730 vídeos pornôs vistos por segundo. A maior produtora de filmes adultos do Brasil, a Brasileirinhas, é um exemplo de como a internet é o principal meio de acesso dos consumidores. Atualmente, o site da produtora, que lança pelo menos um vídeo por semana, conta com 40 mil assinantes, e a Casa das Brasileirinhas, um reality show exibido em canal de TV fechada, possui aproximadamente 20 mil assinantes.
Fábio Dias, atual Diretor de Marketing da Brasileirinhas, começou no ramo de forma inusitada. Em 2002, o então dono da produtora comprou um carro na concessionária do pai de Fábio. Na época, Fábio, que trabalhava como designer, recebeu a inesperada proposta do cliente do seu pai: Fazer a capa para um dos filmes da Brasileirinhas. “Até então eu não sabia o que era. Aí eu cheguei lá e era negócio de pornô. Ele me deu um CD com 20 fotos e disse para eu fazer capa filme pornô”, lembra o diretor.
Mesmo com a migração do público para a internet, a Zil Vídeos segue firme. Hoje, instalada na Avenida Osvaldo Aranha, 992, a loja de três andares abriga em torno de 30 mil DVD e 40 mil VHS, sendo que os filmes em DVD são todos pornôs, contendo as mais variadas subdivisões.
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A Zil é uma das poucas locadoras que contém uma diversidade de categorias em filmes pornôs. “O andar debaixo eu tenho basicamente filmes héteros, aqui neste andar eu tenho todos os gêneros, eu tenho hétero, tenho gay, lésbica, travestis”, explica Hilton. A Zil Vídeos é uma exceção. Na maioria das locadoras, o gênero que predomina é o héterossexual, o que, de acordo com o psicanalista Alberto, explica a migração do público para a internet. “Os atrativos são a diversificação de nicho, vários tipos. A facilidade da pesquisa, por exemplo. O que a internet proporciona também é que você não precisa ver o vídeo todo na internet, você pula logo para a parte que quer ver”.

Com o público cada vez mais exigente, tanto as locadoras como as produtoras tiveram que se adaptar. A Brasileirinhas, hoje deixou de produzir produtos físicos, disponibilizando apenas, as unidades restantes em bancas de jornais. “Hoje em dia, é 100% digital. Ou é em site, ou tem o canal da Brasileirinhas pra consumir na televisão paga. Mas fisicamente, hoje em dia, ninguém nem fabrica mais, é loucura, não existe mais locadora de DVD, morreu com Netflix e internet, morreu a locadora”, completa Fábio.
A Zil Vídeos continua resistindo mesmo com um número restrito de clientes fiéis que ainda não se adaptaram à internet, ou que apreciam o hábito de ir até a locadora, procurar e escolher entre os títulos disponíveis. Zil e Alberto concordam que o maior público das locadoras são mesmo homens heterossexuais. Segundo Alberto isso acontece “porque é o que é permitido na sociedade, o hétero que usa pornografia tudo bem, mas uma mulher já é mais condenada, isso faz parte da própria cultura machista que a gente vive”.
O mesmo acontece com o consumo de pornografia online, de acordo com o Diretor de Marketing da Brasileirinhas, os consumidores que pagam pelo conteúdo são homens entre 30 e 55 anos. “O padrão mais engraçado é que maior parte da pornografia é consumida no trabalho, porque esses caras são casados. O horário de pico de acesso é o horário do almoço e por volta das 18h quando o cara tá indo embora do trabalho”, relata Fábio.

Sobre o futuro, Fábio acredita que cada vez mais as pessoas vão consumir o conteúdo adulto através de dispositivos móveis, mas sempre irão consumir. Já Zil, não tem tanta certeza quanto ao futuro do seu negócio, mas garante: “as pessoas que nunca tiveram o prazer que escolher o filme em uma locadora, nem se dão conta que estão perdendo e, muita coisa que tem na locadora, muitas vezes na internet elas não conseguem”.
