INCENTIVO AO ESPORTE É CHAVE PARA O DESENVOLVIMENTO

Exemplos de Joanna Maranhão e Ana Cláudia Silva mostram a importância dos patrocínios aos atletas e paratletas

Joanna Maranhão, medalhista no Pan de Toronto, é uma das mais bem-sucedidas atletas pernambucanas (Foto: Zero Hora)

por Fabio Nóbrega e Pedro Oliveira

Se fosse necessário resumir a história de vida dos milhares de atletas e paratletas brasileiros em uma única palavra, ela com certeza seria esforço. Foi nas águas cristalinas da piscina do Clube Português do Recife que Joanna de Albuquerque Maranhão Bezerra de Melo começou aos três anos de idade sua carreira como nadadora profissional. Os obstáculos encontrados em sua trajetória davam-lhe mais forças para que ela se destacasse entre seus companheiros e alcançasse novos olhares.

A paixão também é clichê no ramo do esporte, assim como é na educação e em tantas outras atividades existentes. O amor moveu as águas para que Joanna Maranhão conseguisse se manter em várias competições ao longo dos anos como as Olimpíadas de Atenas, em 2004, de Pequim, em 2008 e de Londres, em 2012. Entretanto, esses dois fatores não conseguem, por si só, mover a complexa engrenagem da carreira esportiva. Hoje, aos 30 anos, Joanna sente-se realizada e confessa que quebrar alguns recordes dentro de uma das maiores competições mundiais, como os Jogos Olímpicos, com apenas 17 anos, não foi tarefa fácil, ainda mais quando não se encontra apoio financeiro suficiente.

O cenário para os paratletas é ainda mais difícil. Ana Cláudia Maria da Silva sofreu um acidente quando tinha 6 anos de idade e fraturou o fêmur na perna direita, além de ter uma má formação no membro. Porém, o que poderia ser um grande empecilho se transformou em desafio. Lalá, como gosta de ser chamada, é atleta paralímpica da classe T42 do paratletismo, para esportistas com amputação simples acima do joelho ou algum comprometimento físico similar.

Natural de Nazaré da Mata, a pernambucana tem uma carreira de apenas três anos, mas apresenta um currículo repleto de bons resultados. Entre suas principais conquistas, o quarto lugar nos 100 metros rasos e o quinto na prova do salto em distância da Paralimpíada Rio-2016, além de medalhas no Mundial, a primeira colocação no ranking brasileiro e quarta no global.

“Minha rotina é bastante cansativa. São treinos diários de segunda a sábado e feriado, de manhã e à tarde. Durante a manhã, em Gravatá, eu faço fisioterapia, musculação e treinamento funcional e à tarde me desloco para o Recife para treinamentos de salto em distância e 100 metros na pista”, destaca Ana Cláudia. “O esporte mudou totalmente minha vida. Consegui várias coisas que nunca pensei que iria ter e que me beneficiam bastante”, completa.
A paratleta Ana Cláudia Silva é uma das promessas do esporte pernambucano (Foto: Divulgação/CPB)

Ana Cláudia cita as dificuldades encontradas para conseguir incentivo: “Muitas empresas acham que patrocinar atletas é algo que necessite de muito dinheiro, mas eles não têm noção de quanto o pouco com que eles podem ajudar já é muito para nós”, pondera a paratleta, que é beneficiada pelo programa Bolsa Atleta do Governo do Estado. “No meu caso, preciso pagar fisioterapia, musculação e academia, além de gastar bastante com materiais e acompanhamento profissional. A ajuda que recebemos do Governo é bastante bem-vinda pois dá para suprir um pouco das necessidades que tenho”, analisa.

LEI DE INCENTIVO AO ESPORTE

O incentivo é uma das principais bandeiras levantadas por atletas, paratletas e treinadores como uma das molas propulsoras para o desenvolvimento do esporte. Pensando em ajudar na formação de atletas e paratletas brasileiros, o Ministério do Esporte implantou, em 2007, a Lei de Incentivo ao Esporte (LIE), permitindo assim que pessoas físicas e jurídicas invistam respectivamente 1% e 6% do que pagariam de Imposto de Renda em projetos esportivos aprovados pelo próprio Ministério.

De acordo com dados divulgados pelo Ministério do Esporte em sua página oficial na internet, de 2007 — ano em que a Lei entrou em funcionamento — até 2016 foram captados cerca de R$ 1,8 bilhão em projetos voltados ao esporte como lazer, como instrumento de educação e de alto rendimento, as três vertentes dispostas na LIE. No ano olímpico de 2016, 726 projetos capitalizaram aproximadamente R$ 266 milhões, o maior valor anual desde 2007, mas ainda longe dos R$ 400 milhões projetados como teto. Entre os principais exemplos de projetos de incentivos estão reformas e/ou construção de quadras e campos, organização de seminários e palestras para atletas, professores, técnicos e praticantes e custeio de passagens para competições.

Números do Ministério do Esporte mostram valores captados pela Lei de Incentivo em nove anos

Em complemento à outorga nacional e com o objetivo de estimular a criação de projetos esportivos, o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, aprovou, no final de 2015, a execução da Lei Estadual de Incentivo ao Esporte. Esta medida permite que 5% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) pago pelas empresas instaladas no Estado seja destinado a iniciativas esportivas. “Com esses recursos, criamos mais ações para ajudar os atletas a terem condições de treinamento. Desta forma, oferecemos melhores condições para representarem tanto o nosso Estado como também o nosso país”, defendeu o governador Paulo Câmara em entrevista ao Portal do Governo de Pernambuco.

Segundo dados da Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer de Pernambuco, no primeiro ano de vigência da lei, foram captados aproximadamente R$ 5 milhões. “É maravilhoso perceber que Pernambuco deu esse passo de apoio para que futuras Joannas não tenham que sair para São Paulo, que Yane possa dar continuidade ao treino dela aqui, que Keila volte, que Etienne volte, é superimportante”, afirmou Joanna Maranhão, fazendo menção a outras profissionais pernambucanas que se mobilizaram para conseguirem patrocínio em outros Estados.

Os esportistas pernambucanos podem contar com o Time PE e o Bolsa Atleta PE. Segundo a Seturel-PE, esses dois projetos beneficiam mensalmente mais de 300 atletas e paratletas de base, aqueles na fase de formação, e profissionais, que trabalham com o esporte com vínculos empregatícios, na vigência atual, a de 2016/2017. Para ambos os programas, o auxílio mensal varia entre R$ 500 e R$ 2,5 mil, incluindo passagens aéreas, avaliações físicas, psicológicas e nutricionais.

Diego Pérez, secretário-executivo de Esportes e Lazer, aponta que, mesmo em anos de dificuldade, Pernambuco cresceu em todos os seus programas de incentivo. “Aumentamos o número de esportistas e modalidades beneficiadas e só o Bolsa Atleta contempla hoje 318 atletas. Concedemos em 2016, através do programa Passaporte Esportivo, 133 passagens para competições. Lançamos recentemente o Amigos do Esporte e ainda temos o Ganhe o Mundo Esportivo para alunos da rede pública estadual de ensino”, destaca. “Se formos analisar os números pós-Olimpíada, os investimentos estão sendo drasticamente reduzidos. As empresas não conseguem mais assumir o custo total do apoio e têm retirado vários patrocínios, assim como as confederações. Pernambuco segue no sentido inverso: aumentamos os incentivos”, afirma Pérez.

O secretário executivo destaca ainda a importância dos programas para o desenvolvimento do esporte pernambucano e que é fundamental a boa vontade e o trabalho em conjunto para o fortalecimento dos atletas e modalidades.

“Um momento delicado para a economia como o que estamos passando ensina o gestor a buscar alternativas. É preciso focar na solução e não apenas no problema. Então você cria alternativas, junta a iniciativa privada, ONGs do exterior como a Love Fútbol e busca se aproximar a parceiros que possam beneficiar atletas e equipamentos esportivos. Cada vez mais é preciso ampliar essa rede do bem entre a iniciativa privada, atletas, técnicos e Governo do Estado”, finalizou.

Entretanto, para o presidente da Associação Atlética Acadêmica Desportiva da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Carlos Cesar Santana, esses benefícios estão longe de ser justos. Segundo ele, o Bolsa Atleta, assim como os demais auxílios, deveria ser mais fiscalizado e ter uma melhor distribuição entre as regiões de todo o País. “Tenho conhecimento de que nem todas as modalidades olímpicas são contempladas, enquanto outras que nem olímpicas são vêm sendo contempladas”, pontua.

Carlos Cesar, que também é professor de Educação Física, ainda comenta que parte dos investimentos deveriam ser aplicados na base, pois para que as formações de atletas se consolidem é preciso primeiro despertar o desejo das pessoas. “Muitas vezes temos que improvisar espaço e material para a aula. Acredito que falta um trabalho conjunto com a Secretaria de Educação, porque se não incentivamos a iniciação esportivas nas escolas, a formação desses atletas fica comprometida”, explica o professor.

A má distribuição dos recursos é um ponto defendido também pelo deputado federal João Derly (Rede-RS). Apesar de ser um dos ferrenhos defensores da legislação, o parlamentar cita a disparidade de investimentos entre as regiões do País. “O Norte é assistido com apenas 1% da Lei de Incentivo. Enquanto o Sudeste fica com 81%”, alerta. “Tal discrepância pode ser explicada na maior presença de empresas em Estados como São Paulo, o que facilita a busca de parceiros”, conclui. O deputado apresentou projeto para aumentar as alíquotas de isenção de 1% para 3% para empresas e de 6% para 9% para pessoas físicas, com intenção de solucionar a principal dificuldade da Lei: captar o teto previsto de R$ 400 milhões anuais em recursos.


O EXEMPLO QUE VEM DA CHINA

O que aprender com o país que se tornou um dos maiores campeões olímpicos mundiais

Na comunista China, as crianças são preparadas para se tornarem campeãs olímpicas (Foto: Reprodução/Internet)

A China ganhou destaque no cenário esportivo mundial nos Jogos Olímpicos de Los Angeles de 1984, quando conquistou 32 medalhas — sendo 15 de ouro — após um hiato de 32 anos sem participações em Olimpíadas. Porém, o ponto fundamental do desenvolvimento do esporte chinês foi a escolha do Comitê Olímpico Internacional (COI) de levar a maior competição esportiva mundial para o país de 1,4 bilhão de habitantes.

50 medalhas em Atlanta-1996, 59 em Sydney-2000, 63 em Atenas-2004, 100 medalhas em Pequim-2008 e o primeiro lugar geral no ranking da Olimpíada sediada em casa. O rápido crescimento da China despertou a surpresa e a curiosidade do mundo inteiro. Como o país mais populoso do planeta dobrou os seus resultados em quatro ciclos olímpicos e superou os Estados Unidos, maior potência esportiva mundial?

São resultados do Projeto 119, programa implantado em 2002 com o objetivo de transformar a China na maior potência olímpica do planeta. Inspirado no modelo soviético, faz alusão às 119 provas consideradas como possíveis de treinar campeões pelos chineses e à quantidade de medalhas almejadas. O foco do projeto, que recebe verbas estatais, foi dado a modalidades como ginástica artística, levantamento de peso, tae kwon do, tênis de mesa, badminton e vôlei de praia. Segundo estimativas oficiais do governo chinês, há mais de 185 mil atletas treinando em 1.800 centros esportivos espalhados pelo país. Dos quais 20 mil saem com potencial para se tornarem campeões olímpicos.

A paratleta pernambucana Ana Cláudia Silva cita a dedicação exclusiva dos atletas chineses aos Jogos Olímpicos. “Os chineses participam apenas de competições-alvo, como as Olimpíadas e Paralimpíadas. Podemos ver os resultados no quadro de medalhas, pois sempre estão no topo. Eles não participam de outras competições e é por isso que vêm com aquela sede de medalhas”, destaca.

A técnica de ginástica artística Mariana Marques, por sua vez, comenta a falta de investimento do Brasil como barreira para o país se inspirar no modelo chinês. “O projeto da China funciona porque os alunos têm aula normal das disciplinas e oito horas de treino diário e alimentação. Os pais pagam uma matrícula no começo do ano e precisam renovar em todas as férias”, explica. Mariana sonha em ver uma iniciativa similar no Brasil para possibilitar um maior desenvolvimento do esporte nacional. “Todo o grande custo de aparelhagem e pagamentos aos professores é feito pelo governo chinês. A gente nunca ouviu falar de um negócio desses no Brasil e se isso tivesse chegado aqui todo o nosso esporte, não só o futebol, estaria em outro nível”, finaliza.

As escolas citadas pela treinadora são os celeiros dos campeões chineses. Ao todo, são cerca de 200 escolas-modelo no esporte como a Shichahai, em Pequim. Fundada em 1959, o centro treina mais de 600 estudantes em oito categorias. A instituição tem metade dos alunos pagantes e a outra metade classificada como “reserva profissional”, que custam aos cofres do governo cerca de 30 mil iuans (cerca de R$ 14,6 mil) por ano com treinamento, formação escolar, comida e moradia.

Toda a movimentação para ser o número 1 do mundo nos esportes nasce da batalha entre o sistema americano de formação de atletas — também extensivamente difundido pelo país e focado no esporte universitário — e o chinês é no fundo uma disputa entre os sistemas econômicos capitalista e socialista. Essa corrida pelo ouro é bem exemplificada na ferrenha disputa travada por americanos e chineses pelo primeiro lugar geral dos Jogos Olímpicos.

BRASIL

Thiago Braz emocionou os brasileiros com conquista de ouro no salto com vara na Rio-2016 (Foto: Veja)

A escolha do Rio de Janeiro como cidade-sede da Olimpíada de 2016 animou os envolvidos com o esporte. As expectativas eram das melhores e os exemplos anteriores como o da própria China e o da Austrália — que também obteve bons resultados após sediar os Jogos em 2000 — enchiam de esperança os atletas e treinadores.

Os números do país faziam jus às perspectivas colocadas. 465 atletas formaram a maior delegação do Brasil em todos os tempos, número muito maior que os 277 de Pequim-2008, recorde até então. A meta de ficar no top 10 não foi atingida, mas o Time Brasil alcançou o seu melhor resultado na história com a conquista de 7 ouros e 19 medalhas no total. Na Paralimpíada, números ainda mais expressivos: 72 medalhas, sendo 14 de ouro, e um excelente oitavo lugar.

“Houve uma mudança quando foi divulgado que o Brasil ia receber as competições. Muita gente não conhecia a grandeza de uma Olimpíada e de uma Paralimpíada. Ganhamos muita divulgação e nosso trabalho, que é desconhecido da maioria da população, foi mostrado. Não temos só futebol e vôlei”, analisa Ana Cláudia.

Passado todo o período de preparação para sediar o maior evento esportivo do planeta e as competições com bons resultados, o Brasil precisa continuar investindo no esporte para tentar alcançar uma maior força esportiva. Todos os envolvidos precisam se manter ativos na busca pelas melhorias para evitar uma repetição do panorama grego: endividada, a Grécia, berço dos Jogos Olímpicos, não soube aproveitar a sede dos jogos de Atenas em 2004 para impulsionar seu esporte. Atletas, paratletas, treinadores, governo, iniciativa privada, ONGs e demais comprometidos com a causa precisam trabalhar em harmonia para contribuir com o esporte brasileiro.

Esta reportagem é uma co-produção de Fabio Nóbrega e Pedro Oliveira, estudantes de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco.