Um texto sobre depressão

Tudo começou em um dia que minha mãe resolveu me levar num psiquiatra, eu não era louca, não precisava contar minha vida pra uma pessoa que nunca vi — e ainda ter que pagar por isso. Cheguei cheia do preconceito mas era apenas uma avaliação, vamos ver no que dá.

Meio receosa contei dos meus medos, sempre achei que ninguém tinha nada a ver com isso. Voltei mais vezes, toda sexta-feira a tarde. Comecei a criar uma intimidade estranha com o médico, era como se ele fosse meu melhor amigo, eu podia contar tudo. Coisas boas e coisas ruins.

Com o medo de sair de casa acabei perdendo a bolsa do pronatec para técnico em química ao qual eu amava muito, fiquei muito mal com isso, daí sim eu não queria sair para mais nada. Comecei a tomar alguns remédios controlados, esses que todo mundo toma quando da na telha.

Melhorei? até que sim, voltei ao pré vestibular e segui o ano, faltava pouco para o vestibular da federal. Continuei consultando semanalmente e tomando as medicações, as vezes havia um descontrole, mas era com menos frequência.

Passei altos e baixos, enem, vestibular, sisu, muitas decepções, algumas poucas alegrias, mas sempre na defensiva, eu tinha um pé atrás com tudo na minha vida, medo coisas novas, medo de continuar nas coisas velhas, minha vida basicamente consistia em ficar o dia inteiro na cama chorando no escuro e sem ver ninguém. Ninguém aguentava mais.

Fui no centro espirita tomar passe, fui na igreja assistir culto, ascendi umas velas na catedral, fui num curandeiro no meio do mato, todos sempre me disseram que algo estava errado, isso eu já tinha percebido né, mas nunca acabei os tais tratamentos, até porque nunca vi surgir efeito. Minha mãe dizia que era a minha falta de crença em determinado lugar, não tenho culpa de ter um pensamento meio racional, não sei acreditar muito bem no que não consigo ver, mas nunca me fechei a tais possibilidades.

Troca de remédios a cada 30 dias já me fez tomar quase todos antidepressivos que existem pra vender, nada fazia efeito, nada me fazia dormir. Passava 15 ou 20 noites em claro, meu cérebro não parava um segundo sequer, já tinha lido todos os livros que tinha na estante, eu tinha a capacidade de levantar da cama no meio da madrugada para resolver exercícios de química, eu tava completamente louca. Fiz exames que me fizeram descobrir um medo danado de lugares fechados, nunca apareceu nada, eu tinha uma saúde perfeita.

Foi quando eu comecei a aceitar que poderia ter algo mesmo, aceitação é tudo. Ter clareza que tu precisa explicar para as pessoas que tu tem um jeitinho diferente, que eu posso combinar para sair, mas quando chegar a hora de sair eu não vou querer mais. Que tu pode me falar algo e eu abrir um berreiro chorando e nem ser culpa tua. Apenas me abrace, uma hora tudo vai passar.

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