Pulsa comigo

Tudo vai rápido, e a cada batida do meu coração, vou distinguindo uma que é diferente da minha. Parece que se alinham, que se escondem uma atrás da outra. Sinto uma catarata de luz dourada a descer por todo o meu corpo e consigo perceber um contorno, não é nítido, mas parece-me ser o teu coração, o teu corpo e a tua alma. De mãos dadas com tanta luz, há uma sensação de medo e de ser bom demais. A voz empírica leva-me a desconfiar, a tentar perceber o que não estou a ver, e a questionar-me sobre onde me estou a iludir. Mas a minha necessidade de te encontrar é maior, como uma compulsão que me faz andar em frente, mesmo com medo.

A realidade operacional e concreta das coisas acontece, com uma aparente naturalidade e normalidade que me chega a parecer gelada e racional. o espartilho da mente obriga a energia a seguir pelos caminhos gastos pelos leitos dos rios ancestrais, parece mais seguro por ali. É esquizofrénico. A “milenagem” de águas que já passaram naquele caminho é muito antiga e o pulsar que sinto, meu e teu, são algo completamente novo — e isso não me faz sentido. Batimentos igualmente sincronizados mas em antítese ao pulsar dos corações há uma voz. Cuidado! Tu és demais. Segura a tua onda. Tu vais-te foder. Se te mostrares ele vai fugir. Que orquestra estranha esta que consegue harmonizar num ritmo perfeito ideias e sensações tão antagónicas. No mesmo caminho há também outras pedras, que acumulam também outro tipo de experiências. A sua voz é mais ténue, mas também consigo escutar alguma da sua música. Elas dizem-me que na verdade não tenho outra escolha melhor. Se eu não me mostrar não serei eu, e não poderei viver a minha vida, e as minhas experiências, aí sim será tudo falso, contido e insuficiente. Há uma linha ténue, uma fronteira, entra loucura da eternidade e o sabor do tempo.

Neste caminho ouço as pedras cair, vidros a estalar, muros, paredes, casas, prédios, como se estivéssemos num terramoto. O cenário é de destruição, desconstrução, mas a força que destrói é brilhante e pacificadora.

Estamos a dançar, ainda não sinto o contacto físico, mas o contacto já foi estabelecido — talvez facilitado pelos copos de vinho. Nessa dança eu vejo-te. Quando estás distraído, deixas escapar momentos onde consigo entrar nos teus olhos, e mostras-me um mundo que é lindo. É rico. Deve ser precioso. Questiono-me por um momento se a segurança que transmites de ti reconhece verdadeiramente a riqueza que possuis, ou se, como a minha, te desafia constantemente. Serei apenas romântico, ou existe aqui alguma dose de realidade? O que é que é real?

De repente apercebo-me que não sou eu que estou a controlar a dança. Percebo que também não és tu. E percebo que está ali mais alguém, estão ali outras pessoas. E com a suavidade de uma pena, vão-nos amaciando para fluirmos na dança. Em menos de 5 minutos, apercebo-me de vários milagres, que se sucedem como provavelmente acontece quando chegamos a fim do arco-íris. Coincidências dirão os mais cépticos (e por momentos imagino uma manifestação de pessoas a passar com cartazes onde se pode ler “A vida não é só amor” “Acorda para a vida” “Ser feliz é para quem pode, não é para quem quer”). A tua e a sua presença, fazem-me reparar que o medo não está cá. Só o pulsar. Por entre linhas vais deixando escapar bocadinhos de essência que me atingem como balas de amor, e literalmente lançam sobre mim um feitiço, uma magia de amor, e surge em mim uma vontade de te abraçar eternamente. Há algo da minha casa dentro dos teus olhos. Talvez seja a Humanidade. Sorrio brevemente, deliciado com o cocktail de emoções e percebo com alguma pena que não te posso mostrar tudo isto que está a fluir em mim. Acharias que sou louco, descompensado, ou mesmo uma ameaça. Se por um breve instante isso me deixa triste, rapidamente percebo que temos tempo. Um lado absolutamente racional surge com um monte de questões, será que os nossos lábios se encaixam, será que os nossos corpos se encaixam? Será que tudo isto não pode dar apenas curto-circuito? Relaxa, temos tempo. Tu não sabes. Tu não sabes. Está difícil de sustentar a minha pulsação. Distraio-me por um breve instante como se adormecesse, e acordo com os meus lábios em contacto com os teus, abraças-me e apetece-me fazer pause no mundo.

Perguntas-me se sinto o bater do teu coração, e tenho que me concentrar por uns instantes para distinguir a sensação física, pois na verdade já o estava a sentir antes de me abraçares, ao mesmo tempo que se confunde com o meu. Bate rápido, como o meu. Tenho consciência de que o que sinto naquele momento não é apenas um tesão. Não sinto vontade de te comer, devorar ou possuir ali e agora. Pelo contrário sinto vontade de ficar, de permanecer colado a ti, e só sentir as ondas de magia que percorrem o meu corpo de cima para baixo e de baixo para cima. Aposto que a inspiração para o fogo de artifício vem daquela sensação, é como se sentisse o sangue a sair do meu coração para as veias em esgares, e todo o corpo a pulsar, em sintonia com o teu.

Quando te volto a olhar, sinto a impotência do tempo. Também isto passará. E isso baralha-me. Não quero acreditar nisso. Dormes nos meus braços, e eu sinto-me vivo como nunca. É impossível adormecer com tanta electricidade a percorrer o meu corpo. Fico a olhar para ti e isso é delicioso. Até que paro de conter a minha electricidade e permito-me voltar a dançar contigo. Há em mim um medo que ressurge, o medo de estragar. Esse conflito aparece nas cambalhotas que damos, como se estivéssemos à procura de alguma coisa, que já está ali. É uma dança de conflitos que impede a simplicidade e a naturalidade do movimento, típica de um primeiro encontro. Finalmente sou eu que adormeço com a cabeça no teu peito a ouvir e a sentir a música do teu coração.

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