Se ama, larga… Larga o caralho!

Acordo e desejo que não te vás embora. Fico um tempo a olhar para ti a dormir e sinto-me em paz. Uma paz que oscila com um medo de estar viver uma ilusão. Beijo-te para perceber se é real. Sinto-te retribuir com o movimento dos teus lábios, e há uma sensação de familiaridade, que não sei explicar. Sei que não é essa a palavra, mas não encontro outra. É uma sensação de fusão entre passado, presente e futuro.

Vou acordando depois de acordar e percebo que já está. Já fui. A montanha russa já iniciou o seu movimento. O que significa que o espaço de controlo foi seriamente comprometido! Esse medo activa em mim toda uma estrutura lógico-formal. O Wittgenstein que mora em mim começa a expandir as pastas dos nomes, pronomes, artigos e complementos directos e indirectos — sou levado para um circuito mecânico de roldanas, cordas e barulhos metálicos coerentes e consistentes, que só o seu ritmo impede a explosão da loucura, onde eu, uma bola disforme de esponja plástica simplesmente vai batendo em toda aquela maquinaria de forma caótica, como um jogo de pinball — tentando apenas manter a sua integridade. Ameaça. Alerta. Cuidado. Alguém entrou no espaço interno do interior secreto do teu coração… a partir de agora qualquer movimento mais brusco pode fazer sangrar.

Toda esta lógica vai trazendo para cima da mesa os argumentos e os contra argumentos da tese da impossibilidade do nosso amor. Sou envolvido num escrutínio exaustivo de todas as minhas razões, intenções, emoções e motivações. Apesar da violência do processo apercebo-me de que não tenho escolha senão deixar-me levar por ele. O caminho é tortuoso, e volta e meia encontro um tronco forte onde me posso agarrar e descansar. Nesse descanso observo um sorriso interno de contentamento por verificar que todo o julgamento que tem lugar no tribunal Kantiano da minha cabeça não está a ganhar. Há algo mais forte que está para ficar, e que me diz, tudo se resolve. Também isso tem solução. O que estás a sentir é apenas medo. Confia. Confia. Confia em ti.

Agarro-te.

Passo o dia a oscilar entre a vontade de te agarrar, e “inteligência” de te largar. Se não te largar nunca vou saber verdadeiramente se queres voltar. Se eu te largar poderás não querer voltar. Mas isso não pode ser verdade! E o que eu sinto? E o que eu sinto que tu sentes? E o que tu sentes que eu sinto? E o que teu sentes que eu sinto que tu sentes? é muito sentimento…

Largo-te.

Se não voltares é porque não queres voltar? E se tiveres apenas medo? Como eu? Confia.

Tu não voltas.

Se voltares é porque queres mesmo voltar? E se não for? E se for por outra razão qualquer? E se eu estiver enganado? Cuidado.

Tu voltas.

E se eu não quiser voltar? Mas eu quero. Eu quero. Eu quero. Eu quero se tu quiseres. E se tu não quiseres? Será que eu continuarei a querer? Eu quero.

O que é que é voltar?

Porque é que para mim tudo é tão intenso? Que necessidade é esta que eu tenho de levar tudo ao limite? De ver os dois lados de tudo? Porque é que eu não posso ficar só com um lado. Que obsessão é esta pela sombra e pela luz? Pela morte e pela vida! Para quê? Simplifica.

Voltar é não voltar ao contrário.

Voltar é o assassino do não voltar.

Duplo homicídio na forma tentada.

Consumada. Condenada. Purgada.

Depois de tanto te agarrar e de te largar, largo-te finalmente. Talvez não completamente, ou de forma não totalmente livre, mas fazendo o que é possível. Decido mergulhar em bocados de ti, que não sei saber assim. Bocados que vais largando e me intrigam sobre o quão consciente é o teu gesto, ou quão vazio ou cheio está de significado. Surpreendo-me. Nada é por acaso ou é tudo um acaso? Encontro-me. Choro. Encontro-te. Dou graças. E percebo, mais uma vez, para daqui a pouco me voltar a esquecer, que tu consegues ser sempre um plot twist na minha vida. É um dom. Surpreendes-me com uma inteligência que não é maior, não é melhor, é diferente.

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