Tormentum

Quando eu me lembro da época em que tudo estava bem, parece ter sido há mil atrás. Hoje já não resta mais nada, nem a mais pálida sombra do que já fui um dia. Eu só vejo o fracasso, e me sinto um também.
Me sinto culpado por ter saído do emprego que estava afetando a minha saúde, o que provavelmente desencadeou muitos dos tormentos que vivo hoje, e me sinto um fracasso por não ter conseguido outro.
Me sinto culpado por meu relacionamento ter terminado. No final era um relacionamento muito abusivo, mas nem sempre foi assim. Eu sei que a culpa não foi minha mas, de certa forma e em pequena escala, me sinto culpado. Depois disso nunca mais me envolvi com ninguém, o que faz eu me sentir um fracasso também no campo afetivo.
A sensação constante que tenho é de que estou preso em um enorme labirinto e, por mais que eu corra, tente novos caminhos e seja racional, eu não consigo sair dele. É uma infinidade de “quase”. Quase consegui, quase deu certo, quase foi a minha vez.
Nunca na vida tive aprovação do meu pai em nada, mas isso parece pesar mais agora. E eu queria tanto poder ajudar mais a minha mãe. Me sinto um fracasso como filho, por não ser tudo o que ela merecia ter como filho. Me sinto um fracasso com o meu irmão, porque sei que eu poderia ser um irmão melhor. Me sinto também um fracasso como amigo, porque eu queria ser bem melhor para os meus (poucos) amigos.
Eu achei que já tinha conhecido lugares escuros ao longo da vida até chegar aqui. Não há perspectiva, não esperança, não há felicidade. Ultimamente parei de chorar, não porque eu não tenha motivos ou porque aprendi a lidar com tudo o que vem acontecendo, mas porque não me restam muitos sentimentos. É bom sentir tristeza, chorar, botar tudo pra fora, mesmo que seja em forma de lágrimas. Mas eu acabei ficando só com essa ausência fria e oca de sentimento.
Dizem que do fundo do poço só há saída por cima. Talvez eu não esteja no fundo do poço ainda, só numa constante e horrenda queda vertiginosa que nunca termina. E, quando parece que vai terminar, eu sempre descubro que posso descer mais. Cada dia é pior que o anterior.
Já estive em situação de risco de vida e deveria olhar tudo de forma diferente, mas não consigo. O pensamento de que todos estariam melhor agora se eu não tivesse resistido àquilo passou a me acompanhar ultimamente. Mesmo tendo algumas pessoas que demonstram se importar, é como se eu estivesse no meio de uma sala cheia, gritando com toda a minha força, e ninguém pudesse me ouvir.
Eu pensava ser forte, até chegar onde me encontro agora. O mundo nunca pareceu tão pesado sobre os meus ombros quanto agora. Eu estou sucumbindo e não sei por quanto tempo mais irei suportar.
