Cinco ou seis coisinhas que aprendi sobre amizade

Júnior Bueno
Jul 20, 2017 · 5 min read

Milan Kundera, o homem que dissecou as relações modernas em romance, isso lá pelos idos da década de 80, quando nem tinha esse negócio de relações modernas, disse uma coisa linda sobre amizade:

“A amizade é indispensável ao homem para o bom funcionamento da memória. Lembrar-se do passado, trazê-lo sempre consigo, é talvez a condição necessária para conservar, como se costuma dizer, a integridade do eu. Para que o eu não encolha, para que mantenha o seu volume, é preciso regar as recordações como as flores de uma vaso, e essa regra exige um contacto regular com testemunhas do passado, isto é, com amigos. Eles são o nosso espelho, a nossa memória; não se exige nada deles, apenas que, de vez em quando, puxem o lustro a esse espelho para que possamos nos mirar nele.”

Como vocês sabem eu sou o tipo de chato que gosta de começar texto com citação. Desculpa, gente, é mais forte que eu. Não desistam de mim. Hoje é dia 20 de Julho, Dia do Amigo e eu estou longe dos meus. Aqui na Argentina a data é comemorada como o Dia das Mães, Dia dos Pais, Valentine’s Day. As lojas estão enfeitadas, os restaurantes fazem promoção para quem for jantar com os migos, tem happy hour especial. Eu nunca pensei em uma efeméride para celebrar a amizade, mas é uma coisa muito justa, porque para mim amizade é uma relação tão importante quanto um romance.

A gente se encanta com amigo novo, em conhecer um mundo diferente, tem amigo que é paixão imediata. Tem amigo que você conhece aos poucos, cumprimenta nos corredores, mas aí vem uma situação que os coloca do mesmo lado e, de repente, é como se fossem as gêmeas de O Iluminado, tamanha identificação. Fala se não é como um namoro? E o tanto que a gente sofre quando uma amizade boa acaba? Sim, porque amizade boa também acaba. A única diferença entre amizade e romance é que amizade pode ser sentida na ausência total, num hiato. Você pode ficar anos sem encontrar uma pessoa e em segundos reconhecer tudo que ficou suspenso. Uma tarde inteira de café e risadas têm o dom de passar a limpo os últimos anos em que amigos ficaram separados.

Eu tenho 34 anos e tenho muitos amigos. E olha que aprendi tarde a reconhecer o valor que tem uma amizade. Não sou da turma que conta os amigos nos dedos de uma mão. Tenho muitos amigos porque amizade, felizmente, prescinde de códigos monogâmicos. Isso de “melhor amigo” é uma ilusão pueril. Somos muitos dentro de uma pessoa só e nos relacionamos em diferentes níveis com pessoas diferentes. É possível ter bons amigos em ambientes diferentes e se relacionar bem com eles, sem que ao menos um conheça o outro pessoalmente. E é possível ter uma turma sólida de amigos, como uma família.

É claro que, como é um relacionamento, amizade também pode ser tóxica e abusiva. A gente pode se decepcionar com alguém que a gente julgava ser diferente e se revelou um grandessíssimo embuste. Mas o problema é desta relação em sí, não da amizade como um todo. Nem todo mundo, e eu arrisco a dizer que quase ninguém é assim. Então não vou falar sobre ex-amigos, nem sobre amigos da onça. Se você não eliminou gente assim da sua vida, tá em tempo. Prosseguindo, esse texto é uma carta aberta de amor e gratidão àqueles que sabem o tamanho que ocupam na minha vida.

Nos últimos meses eu pude constatar que sem meus grandes amigos eu não teria atravessado um período bem difícil da minha vida. Então, eu vou dizer um pouco sobre o que eu acredito que é amizade para mim hoje. Quando alguém fala em amigos, a primeira imagem que vem à minha mente não é de uma galera linda numa balada sorrindo e exalando juventude num post super curtido no Instagram. Felizão e borracho na pista, você jura amizade até ao barman.

Amizade mesmo é alguém te obrigar a comer quando você não consegue. É alguém te deixar chorar por meia hora até você esvaziar, e só então dizer alguma coisa. É alguém que te avisa que algo pode dar ruim e, depois que você foi lá e fez merda, pode até dizer “eu avisei”, mas não sem antes de abraçar e te compreender. É quem se oferece para te ouvir, mas também fica ali em silêncio, se você não quer ou não consegue falar nada. Quem segura a sua mão quando você pensa que não dá mais. Quem tá do outro lado do país, mas te conhece tanto que por foto sabe se você tá bem ou não. É quem te encontra de vez em nunca, mas sempre te deixa melhor quando vocês se vêem.

Quem te fala as verdades que você sabe que precisa ouvir, não pra te ferir, mas para te acordar para a realidade. Quem sabe que pode te machucar, e então se afasta por um tempo. Quem comemora cada notícia boa sua. É quem diz “oh, migo, sei nem o que te dizer”, quando a coisa fica ruim, mas essa frase já é uma forma bonita de mostrar que se importa. É quem pede desculpas e sabe exatamente porque tá pedindo. É quem te desculpa quando você vê que pisou na bola. É quem te bota pra cima quando nem você tá acreditando muito no seu taco. É quem continua seu amigo quando a pessoa que os uniu vai embora da sua vida.

Porque amigo é casa, é conforto. Amigo é coca cola com gelo e limão em dia de ressaca. É paraquedas, salva-vidas, quebra-galhos. É chão e é teto. É moletom quentinho quando o resto do mundo tá frio. Amizade não precisa de provas. O dia-a-dia se encarrega de construir essa teia de que você vai se lembrar lá adiante, com ajuda de seus cúmplices, como o texto do Kundera bem diz.

Claro que amizades são regadas a sorrisos, porres juntos, dancinhas ridículas, karaokê, viagens de carros com Bon Jovi tocando no toca-fitas, excursão de carnaval, pizzas, falar bobagem, ir ao cinema, fazer piada de peido, fazer foto no espelho, maratonar seriado, fazer amigo oculto, marcar em gif de gatinho, ajeitar um paquera, ouvir sobre o crush, alucinar com um disco juntos, providenciar um brigadeiro em caso de fora, fazer um textão no aniversário, com direito a foto constrangedora, rachar um uber, emprestar jaqueta e livro.

Mas isso é só a geleinha da torrada, o catchup do x-salada, a ponta do iceberg. Meu pai diz que é preciso comer juntos um quilo de sal para se provar o valor de uma amizade. O filho dele é mais frouxo em seus requisitos. Confio mais no “aproveite o momento” do que “o tempo mostra quem é quem”. Só digo que amizade não é só oba oba. Friends não teria durado 10 temporadas se fosse uma série de gente feliz, bem empregada e analisada. Uma série sobre amigos que só “be there for you” quando tá tudo bem, sua vida tá ótima, seu cartão tá no dia bom, suas contas tão em dia e seu cabelo tá maravilhoso não duraria três episódios inteiros.


Era pra ser um texto, mas eu tenho pó royal na escrita e tudo vira textão. Mas ele é dedicado pra você, que vai ou não ler isso aqui, mas que merece que o mundo saiba o quanto eu te amo e sou grato pelo bem que você me faz. Feliz dia, amigx, amo você!

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Júnior Bueno

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Jornalista em Buenos Aires, autor de “Cinco ou Seis Coisinhas que Aprendi Sendo Trouxa” disponível na Amazon

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