Cinco ou seis coisinhas que aprendi sobre amor-próprio

Todo mundo, mesmo que não tenha lido a Bíblia, gosta muito de citar aquela passagem em que Jesus diz: “Ame ao próximo como a ti mesmo”. Quer dizer, o Silas Malafaia se amarra mesmo nas passagens que falam sobre gays, mas no geral, todo mundo gosta muito desse mandamento de amor. Mas — e nesse ponto eu falo por mim — numa sociedade cada vez mais individualista, esse negócio de amar o outro como a gente ama a si mesmo parece meio utópico demais. E não é porque estamos pouco importando com o outro, acho até que, dado o estado geral das coisas, temos ainda alguns laços fortes de cuidado e afeto nas nossas relações, pelo menos nas mais próximas. O que pega mesmo é que a parte do amar a si mesmo é uma coisa muito difícil de se conseguir.

Porque, pra começo de conversa, ninguém sabe direito o que significa exatamente o tal do amor próprio. E como sempre diz a divina RuPaul: “If you can’t love yourself, how in the hell you gonna love anybody else?”

Tem quem confunda amor próprio com vaidade, com narcisismo ou com egoísmo. Por isso, desde pequenos, não nos habituamos a cultivar dentro de nós esse amor. Somos formados para agradar, para atender ao outro, para preencher os anseios dos pais, da escola, da sociedade. E aí crescemos achando que o caminho para sermos amados é sempre agradar. Sempre atender aos anseios dos outros. E nesse esforço, nas palavras da sábia autora americana Louise Hay, nós “perdemos o milagre que cada um de nós é”.

Que fique claro: atitudes de vaidade, narcisismo ou egoísmo não são sinais de amor próprio. Pelo contrário, revelam medo, necessidade de afirmação. Todos nós temos a necessidade de disfarçar e ocultar nossas carências. Uma pessoa arrogante é uma pessoa insegura, lembre-se disso quando alguém assim tentar te intimidar. Outra coisa: empoderamento — a palavra da moda — é uma expressão individual ou coletiva de consciência política de uma pessoa ou grupo excluído do padrão. Muitas vezes uma coisa se confunde com outra, mas é bom que se diga, nem sempre uma selfie ‘lacradora’ revela amor-próprio, embora seja sim, um exercício muito válido para resgatar o amor-próprio.

O amor-próprio não tem nada a ver com soberba, como também diz um texto bíblico que você conhece através o Renato Russo, “o amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece”. Quem ama em si, entra em sintonia com o que tem de melhor no mundo e as coisas fluem. Amar é deixar fluir coisas boas.

Entendam, amar é cuidar. Você tem filho? Filha?Filhos? Se não tem, imagine se você tivesse um e fosse responsável por forjar seu caráter. O que a gente faz nessa hora? A gente cuida desse ser pra que ele seja uma pessoa melhor, dentro de suas características. Afaga, consola, desculpa, entende, procura conhecer esse ser como ele é, e não como gostaríamos que ele fosse. A gente acolhe as necessidades e estimula as capacidades, valoriza. E ajuda a superar as barreiras e coloca limites para que ele aprenda o que é seu e o que é do outro numa sociedade.

E porque não fazemos isso por nós mesmos? Somos adultos, vamos cuidar de nós como o faríamos com um filho. Eu aprendi, a duras penas, o que significa amar a mim mesmo. Mas isso não significa que eu esteja pleno nesse processo. Porque é um processo, nunca acaba. E já que sou um escritor barato, dos que roubam o que leu, vou deixar aqui algumas das lições de alguns livros, cuja leitura recomendo muito: O Poder do Agora, de Eckhart Tolle; Como Evitar Preocupações e Começar a Viver, de Dale Carnegie e Aprendendo a Gostar de Si Mesmo, da já citada Louise Hay.

O que fazer quando a gente descobre que não se ama, ou não se ama da maneira que merecemos e que precisa começar o quanto antes a romper com esse ciclo? Eu, cheguei á metade da minha vida com uma crise que me fez enfrentar fantasmas e dificuldades que sempre me rodearam, mas eu nunca quis enxergar. Eu poderia me revoltar e culpar todo mundo, e viver o resto da vida como uma vítima das circunstâncias. Ou poderia me entregar à tristeza e me destruir aos poucos ou de uma vez. E havia ainda o caminho mais difícil de todos: ir até o fim, aconteça o que acontecer, e aceitar como dádiva o que quer que me ocorresse, fosse bom ou ruim. Foi a jornada mais punk que já me aconteceu na vida. E está acontecendo. E vai durar ainda um pouco mais.

Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até ser enfrentado (James Baldwin)

E nesse processo eu conheci uma das pessoas mais incríveis que já passaram o meu caminho: eu mesmo. Uma pessoa com qualidades e defeitos, que pode ser que não desperte o amor de algumas pessoas, mas que é um ser único, tem seu valor. Mas, deixemos de coisa e cuidemos da vida, que eu estou aqui para falar de algumas coisas que aprendi a exercitar para descobrir meu amor-próprio. O primeiro passo é perdoar. Difícil pra caramba, não? Mas não tem jeito. Perdoar não é dar razão, não é justificar, não é zerar. É antes de tudo, assumir que levar consigo um sentimento ruim só atrapalha e envenena a alma. Perdoar é dizer basta, chega, isso não vai me afetar mais. Parece simples, mas é muito complicado. É necessário. E sobretudo, é necessário perdoar a si mesmo. Eita, que tá ficando complicado.

Façamos assim: primeiro, abra sua mente e seu espírito para a ideia de que o perdão é possível. Não precisa fazer nada por enquanto, só pensa na possibilidade. E vamos passar para os outros pontos. Depois de todo o ciclo, volta aqui, vê se mudou alguma coisa e se decida. Combinado? Então, próximo passo: pare de se criticar. Sério, perceba a mensagem que você deixa no mundo sobre você. Não é uma questão de achar que está sempre certo em tudo, todo mundo erra e tem defeitos. Mas em vez de dar ênfase ao que não deu certo, que tal aprender e não repetir na próxima oportunidade? Se você tem consciência de um defeito seu, é melhor administrar para que ele não machuque a ninguém, em vez de reforçar esse traço, como se ele fosse tudo que é possível enxergar em você.

Não é fácil parar de se criticar, porque é uma tendência natural, fazemos isso há muitos anos. Mas tudo na vida é um processo. Comece o quanto antes. Preste atenção nos seus atos. Quando você se pegar se depreciando ou se acusando, pare e pense imediatamente em algo positivo ao seu respeito. As críticas não são construtivas, porque geram culpa e ansiedade, e não uma ajuda amorosa que promove mudanças. Vamos partir do ‘aceite-se como você é’, para então fazer as mudanças que deseja. Se você realmente quer se amar, parar de se criticar é uma escolha. Você é capaz de fazer isso, você pode fazer isso.

O próximo passo é: não se assuste. Se um amigo te procura com uma suspeita de uma doença grave, sei lá, um caroço no braço, o que você faz? Eu imagino que você procura acalmar essa pessoa, tranquilizar, mostrar que é preciso sim ir ao médico, mas que é melhor não se desesperar. Agora, se o caroço é no seu braço, o que você faz? Você pensa que é câncer, já começa a fazer seu testamento, se entrega ao desespero. Percebe que nós não fazemos pela gente mesmo o que faríamos pelo outro? É claro que devemos ser realistas, se for câncer é possível tratar, tem que examinar todas as possibilidades. Mas o desespero cega a gente. Eu mesmo vivo passando por isso, criando cenários e me desesperando com qualquer possibilidade de algo ruim acontecer. Mas por que achar logo que se trata do pior?

Colocar-se em desespero, não dormir remoendo problemas, esses pensamentos assustadores são construções da nossa mente. Nessa hora, não tem jeito, é preciso se distrair. Ver um filme, uma série, conversar com um amigo sobre outras coisas, procure gatinhos fofos no Pinterest. Não há como evitar ter problemas e dificuldades na vida, mas se entregar ás preocupações é uma escolha. É preciso se amar o suficiente para deixar de se assustar. E se for o caso de uma ansiedade fora de controle, procure ajuda profissional. Terapia ajuda muito, eu recomendo.

Outra dica: Seja gentil, amável e muito, muito paciente. E não é com outras pessoas, é com você mesmo. Imagine que você quer um jardim, mas tudo que tem um pedaço delimitado de terra. O que você faz? Joga sementes, rega, cuida e deixa os raios do sol fazerem sua parte. Parece que no começo nada mudou ali, mas se você persistir, um jardim vai nascer ali. Isso é paciência. Imagine agora que você é o jardim. Que tipo de jardim você quer ser? E o que você precisa plantar para que as coisas aconteçam?Pense nisso. Os pensamentos e ações que você escolhe vão ser responsáveis pelo que você vai se tornar.

Muitas vezes nós nos escolhemos nos acomodar a uma situação conhecida mesmo que isso nos faça infelizes. Mudar é difícil, mas é necessário. Cuidar de um jardim implica em arrancar ervas daninhas. Pensamentos negativos devem ser arrancados o mais rápido possível. Trate-se com a mesma gentileza e carinho com que você trata um amigo querido. “Ame o próximo como a ti mesmo”, lembra? Tenha paciência em seus processos, seja gentil consigo e comemore todo e qualquer avanço.

“Se comprometa a se amar um pouco mais a cada dia, até perceber em poucos meses que está se amando mais do que pensava.” (Louise Hay)

Pequenos esforços constantes são capazes de grandes mudanças. E mais, elogie-se. Reconheça seus valores tanto quanto reconhece seus defeitos. E se alguém te elogiar, nada de acanhamento, saiba ouvir elogios. Pode ser que você não tenha sido elogiado na infância, quando tudo que você precisava era saber o quanto você era bom, querido, belo, inteligente. Essas coisas marcam. Mas agora você cresceu. Se reconheça como uma pessoa única, especial. Assim como você não precisa mais de alguém para te alimentar, não dependa de ninguém para te dizer se você merece ou não o que a vida tem de bom. Liberte-se, cure-se, ame-se.

Existem outras coisas muito importantes que podem ajudar a curar a si mesmo e a descoberta do amor-próprio. Meditação, leitura, cuidar do próprio corpo, cuidar da saúde, descobrir algo que se ame fazer. A lista deixaria este texto ainda mais imenso que ele já está ficando. Você pode pensar que eu escrevi isso aqui para mostrar ao mundo como sou um ser bem acabado e feliz, porque aprendi a me amar. Mas como eu já disse, é um processo diário, não tem fim. E pelo contrário, esse texto foi escrito como um exercício de colocar em prática as coisas que eu descobri. Esse texto é meu, eu o escrevi para mim. Toda vez que eu digo ‘você’, é a mim que eu me dirijo. Se você (nesse caso é você mesmo, quem está lendo) de alguma forma for tocado por este texto, obrigado por me permitir. E prazer em conhecer.