Até a última gota

Eu sempre tive um problema sério com a média. Com o meio-termo. Com o passável. Com o “ok”.

Desde pequena, tirar qualquer nota abaixo de 8 era uma frustração sem tamanho. Se não é pra ser excepcional, então nem quero brincar.

Lógico que o meio tem lá seu ponto positivo. A balança perfeitamente alinhada. Nem pra cima, nem pra baixo. Na medida. Justo. Certinho. Como aquele vestido que cai feito uma luva. Questão de equilíbrio até, eu diria.

Mas deixo o equilíbrio pros librianos. E se eu não funcionar assim?

E se eu quiser me jogar de cabeça? E se água na cintura for incrivelmente sem graça? E se eu quiser me afogar?

E se eu preferir meu café queimando — o céu da boca, a língua, o corpo todo?

E se eu amar o calor, o verão, o sol, o suor e se eu dispensar o outono, o ameno, o “agradável”?

E se eu precisar explodir de emoção, sentir o coração pulsando forte, quase saindo pela boca? E se o bater de asas de borboletas no estômago não fizer nem cócegas?

E se bom não for bom o suficiente? Porque bom não é ótimo, não é excelente, não é excepcional. É só… Bom.

Eu quero me inundar de sentimentos, explodir de alegria, pirar de paixão, enlouquecer em pensamentos, gritar enfurecida, gargalhar até sentir dor.

Vivo em oito ou oitenta. Me desculpem os equilibrados, mas sou intensa assim. Não sei ser de outro jeito não. 
Se bobear, é culpa da vênus em escorpião. 
Ou, talvez, dessa vontade louca de viver tudo até a última gota.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Heloísa Tavares’s story.