Do alto do meu castelo de privilégios

Ambulatório de Cabeça e Pescoço, Hospital de Ensino Padre Anchieta. Segunda-feira, 14h30.

“Dona Ana, a senhora vai fazer esses exames e retorna dia sete, viu?”
“Mas Doutor… Quantos dias vou ter que ficar parada depois da cirurgia?”
“Uma semana, dez dias… Bem tranquilo.”
“Então não vou poder fazer dia sete não. Nem sei quando vai dar.”
“Como assim? É importante a senhora operar logo…”
“É que eu trabalho na beira da represa, não dá pra parar agora.”

Não dá pra parar agora.

Dona Ana tinha nódulos grandes dos dois lados do pescoço. Baseado no exame clínico, provavelmente benignos, mas a biópsia veio com suspeita de malignidade. Logicamente, o mais indicado e o necessário, seria realizar a cirurgia o quanto antes. Mas ela não pode. Porque ela tem que trabalhar. Porque não tem como parar tudo para cuidar da própria saúde. Pra cuidar de si.

Um grande choque de realidade.

Saúde é um dos maiores privilégios que alguém pode ter. Logo saúde, que até esqueço de constar entre os meus inúmeros privilégios…

Reconhecer-se privilegiado é um exercício diário. Envolve perceber o lugar que ocupamos no mundo e notar o quanto a vida é uma experiência brutalmente desigual. Inclusive para pessoas mais próximas de nós do que imaginamos.

Sim, sou privilegiada. 
Sou branca, nunca tive que lidar com piadas racistas ou discriminação.
Sou heterossexual, ninguém questiona minha sexualidade ou minha forma de amar.
Tive acesso a uma educação maravilhosa, aprendi a ler e escrever, completei o ensino médio e estou cursando o ensino superior com todo o suporte necessário.
Tenho comida à vontade na mesa, não faço a menor ideia do real significado da palavra “fome”.
Nasci numa família estruturada que sempre me ofereceu todo o apoio possível e me sustentou durante toda a minha trajetória, não tive que me questionar de onde vim, porque vim, se sou amada ou não. Essas são certezas intrínsecas da minha vida.

Contudo, jamais pensei em adicionar à essa lista (que, por acaso, está bem incompleta, consigo citar mais uns 10 privilégios, mas vocês entenderam a ideia) o item SAÚDE.

Pois conste aí:
Tenho saúde. 
Tenho acesso à hospitais de ponta, com toda tecnologia necessária. Tenho a possibilidade de comprar medicamentos que a rede pública não disponibiliza pra sociedade como um todo. Poderia me consultar com profissionais pra lá de qualificados, sem ter que aguardar meses numa fila de espera. E, principalmente, se fosse necessário parar a vida por uma semana, um mês, um ano que fosse por um problema de SAÚDE, porque eu preciso passar por uma cirurgia ou por um tratamento demorado, essa não só seria uma opção como uma certeza. A resposta “Não dá pra parar agora” não está entre minhas possibilidades de desfecho.

Sim, saúde não é um direito básico. É um baita de um privilégio. E é com lágrimas nos olhos que reconheço a disparidade da vivência humana. 
Porque a Dona Ana não sabe quando vai ter uma semana pra priorizar a própria vida. 
E isso nunca me ocorreu. Nem uma vez sequer. Em vinte e dois anos, nem um lampejo de ideia. Nada.

Então, fica a questão: você já parou para pensar no quão privilegiado é? 
Você já agradeceu a todos esses privilégios? 
Você já pensou que, talvez, a vida não seja tão fácil para a pessoa logo ai, do seu lado?

O exercício não é só de reconhecimento de privilégios. É também de gratidão e de empatia. Porque a luta dos outros é, por vezes, muito maior do que nós imaginamos. A caminhada alheia é árdua, dolorosa e única. E a gente só entende de verdade quando para pra analisar.

A vida é simples, do alto do meu castelo de privilégios, simples até demais.
Mas vez ou outra, eu — pasmem — esqueço disso. Fica tudo tão complicado, tão pesado, tão impossível.

Esse texto é um lembrete para mim mesma. E, quem sabe, para você também.
Já parou para pensar hoje? Para entender? 
E para agradecer?

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