Dos Quase Amores

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Um corre-corre danado. Passa desajeitada pela catraca e quase derruba a bolsa no chão.
Corre mais um pouco e se joga pra dentro do vagão — no último instante possível. Olha pra cima e dá de cara com alguém.

Sorri envergonhada. Nota os olhos verdes escuros olhando brincalhões pra ela. Ele sorri de volta.

Vai rapidinho sentar num assento vago.
Que maravilha! A linha azul tão vazia em plena sexta-feira.
Suspira aliviada, afinal, ela merecia aquele descanso.

Espia pro lado. Nota que o rapaz dos olhos verdes escuros está olhando pra ela. 
Envergonhado, ele desvia o olhar.

*Estação Liberdade, saída pelo lado direito do trem*

Entra um aglomerado de pessoas, correndo para alcançar os últimos lugares disponíveis e se encostar nos cantos mais estratégicos.

Se estica toda, dá uma sondada, ele continua lá!

Uma sensação de alívio inexplicável toma conta dela. Mas não percebeu isso naquele momento.

Ele usava uma camiseta preta, calça verde escura e sapatos… Como eram os sapatos?

Olhou pra baixo, pesquisou entre os muitos pés a sua frente… Aparentemente o rapaz usava tênis preto, também. E tinha uma tatuagem bem bacana no antebraço direito.

Outro encontro de olhares! Desviam (dessa vez um pouco menos rápido).

*Estação São Joaquim, saída pelo lado…*

Entraram umas três pessoas e deu por isso. Os novos tripulantes do vagão bloquearam um pouco a visão privilegiada que tinha do rapaz, mas ainda dava para enxergar as pernas e o cabelo.

Ela se perdeu por uns segundos nos cachos escuros e espessos. 
“Deve cuidar do cabelo melhor que eu…”

Pensou alto. As mulheres sentadas ao seu lado a encararam, questionando. Chacoalhou a cabeça para dispensar os olhares invasivos. Só tinha um par de olhos que a interessava naquele lugar.

*Estação Vergueiro, saída pelo lado…*

Confusão. Um entra e sai intenso. Perde o moço de vista e o coração para por alguns instantes. Percebe aliviada que ele continuava lá, apenas havia cedido seu lugar para uma senhora com o filho.

Ainda por cima é bondoso! E tem aquela tatuagem bacana… E um cabelo bem cuidado! E aqueles olhos… O sorriso também não é de se jogar fora.

Quando foi ver, já tinha montado toda uma identidade para ele.

Rafael, 27 anos, publicitário. Trabalha como fotógrafo de tempos em tempos. Dono orgulhoso de um gato siamês e um buldogue francês. Adora strogonoff e não dispensa um bar. O primeiro encontro deles, inclusive, com certeza seria naquele barzinho descolado, perto do trabalho dela, que tocava música ao vivo e tinha chopp barato.

*Estação Paraíso, saída pelo lado…*

Desperta do seu imaginário. Olha pra cima, só pra notar que Rafael saia lentamente do vagão, usando fones de ouvido.
Ameaçou chamá-lo.

Rá….

Uma multidão entrou e as portas do vagão se fecharam escandalosas.

Podia ter sido tantas coisas. Mas Rafael foi apenas outro quase amor de 4 estações.

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