Uma vida mais Severina

Terça-feira, 09h10, Ambulatório de Ortopedia do Hospital Estadual Mário Covas.

“Ô Seu Severino, o que você fez aí?”
“Doutor, fiz uma gambiarra. Tudo pra facilitar a vida”
“Você tem que patentear isso, vai ficar rico”

Seu Severino sofreu um acidente há um ano e teve que amputar a perna e o antebraço do lado direito. Fez uma gambiarra para apoiar o coto na muleta e não fazer tanto esforço. Fez compartimentos na muleta para guardar os documentos. No mínimo, um homem engenhoso.

Esqueci de descrever Seu Severino mais adequadamente, perdão. Entrou no consultório um homem de camisa pink, boina, sorriso fácil e bom humor notável — eu já disse que ele tinha o braço e a perna amputados?

Consulta vai, consulta vem…

“É, Seu Severino, acho que o senhor não vai recuperar mais sensibilidade do que isso, mas continua o tratamento, tá?”

Instruções, instruções, instruções. Seu Severino concorda com tudo. Olha para nós e fala baixinho:

“Sabe, meninas, tem que agradecer a Deus. Porque dá pra tirar algo bom de tudo. Sempre!” 
Sorriu, se despediu e foi embora.

E eu que estava preocupada e aborrecida com o trabalho, com a prova, com a discussão, com o desentendimento, com a rotina…
Por quê? Pra quê?

Nessa terça-feira aprendi bem mais do que ortopedia, termos técnicos, manobras de avaliação, tipos de fratura.
Hoje tive uma verdadeira lição de vida, uma que a gente teima em esquecer: Gratidão.

Porque a felicidade está no jeito que enxergamos as coisas e não na ausência de problemas. Problemas todos nós temos, mas cada um decide sozinho como lidar com eles.

Hoje escolhi o jeito que o Seu Severino demonstrou tão elegantemente: escolhi agradecer. Escolhi aprender. Escolhi enxergar o lado bom.

Um “Muito obrigada” aos Severinos que constantemente cruzam minha vida.

Afinal, o universo tem um jeitinho todo especial de abrir nossos olhos.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.