No futebol brasileiro, nem os técnicos pensam na ‘continuidade do trabalho’
Em qualquer mesa de bar que você parar no Brasil, certamente alguém vai falar que se o treinador “tal” não vencer até a próxima rodada, poderá ser demitido. Isso pode servir desde de o time de várzea aos grandes clubes do país. É algo cultural, que está enraizado no futebol brasileiro. Sendo assim, muitos especialistas e pseudo-especialistas levantam a bandeira que os dirigentes não levam os projetos a sério. No entanto, o que pouco se fala é do outro lado da moeda: os treinadores que abandonam os trabalhos pela metade.
Neste mesmo espaço, defendi e mostrei a importância do trabalho de Ricardo Gomes para o Botafogo. A missão do treinador de manter o clube na elite do futebol nacional, o trabalho em cima disso e a capacidade de ter o elenco em suas mãos. Além do mais, quando recusou o Cruzeiro para se manter no clube Alvinegro, foi uma demonstração de ser humano, sendo grato a quem lhe deu uma nova oportunidade no futebol e valorizando o que estava sendo construído a médio e longo prazo no clube carioca. Não retiro uma palavra do que eu escrevi anteriormente, contudo, a nova escolha também é digna de uma análise.
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É lógico que todos trabalham com a ambição de serem bem remunerados, participarem de projetos grandes e ir para ambientes que os fazem felizes. Mas, quando Ricardo Gomes aceitou trocar o Botafogo pelo São Paulo, o mesmo não deve ter levado uma série de fatores em conta. A situação financeira do Alvinegro é delicada, entretanto, o clube vem fazendo uma política de austeridade e arrumando a casa. Gastando o que pode e pensando não hoje, mas sim no futuro. E o Ricardo fazia parte de todo esse processo.
A situação no Campeonato Brasileiro é de risco, mas o treinador tinha o grupo em mãos e permanecer na Série A era absolutamente possível. Enquanto isso, o São Paulo não é o mesmo clube “arrumadinho” que o técnico trabalhou em 2009. Pelo contrário, um inferno astral que paira constantemente sobre o Morumbi e é um time que vive a depressão pós-Libertadores, onde se criou a ilusão de que o elenco era melhor do que a realidade. Além da saída dois dos principais nomes do time: Calleri e Ganso.
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Ou seja, sair de um time que está sofrendo, porém no caminho certo para fugir da degola e começar em 2017 com aspirações melhores, para entrar no meio de um furacão não é a melhor opção. Ainda mais que a temporada está em sua reta final e não funcionará projeto algum. Se quer vai ter tempo para treinar. Então, em que lugar fica a então repetida “continuidade no trabalho”? Em lugar nenhum.
Ricardo Gomes foi usado como personagem, por ser o caso que está em maior evidência, mas grande parte dos técnicos brasileiros pensam assim. Abandonam “projetos” por um troco a mais, dão com os burros n’água e depois voltam. Não escolhem trabalhos, aceitam qualquer furada e se queimam. Viram “bombeiros” para apagar incêndios e depois recebem um “tchau” e “obrigado”. Dorival Jr sofreu com isso, mas parece que se acertou. É assim, muito se precisa mudar. Do ponta direita ou presidente da CBF. A mentalidade do futebol está deteriorada.