Um dia limbo: "Narciso."

"Então engole, foda-se."

Largou o dinheiro amassado no colo do taxista sem troco e bateu a porta pra causar estrago. A quantia faria falta, mas o tempo lhe sairia ainda mais caro. A carne gritava. Cada músculo clamava por um fim menos humilhante do que ser parte daquele corpo.

Atravessou a rua como se o esgoto em erupção não estivesse lá. Com os mesmos pés, agora íntimos do ralo, fez do jardim pano de chão. Era o caminho mais curto.

Se escorou febril contra a parede de metal e esmurrou os botões na esperança de acertar seu andar. O mundo parecia mais lento que uma valsa, mas era capaz de ver seu coração bater debaixo da malha.

Pensava rápido, delirante, vazio. Respirar fundo lhe deu ânsia.

Girou a maçaneta já em contagem regressiva. O corredor nunca havia parecido tão extenso e, mesmo assim, nunca precisou de tão pouco tempo para atravessá-lo.

De joelhos, em frente ao sanitário, se viu um condenado esperando o fio da guilhotina.

Aos poucos, o cheiro do cloro foi substituído por ácido gástrico, álcool, sal, suor, sangue. Não sabia a quanto tempo vomitava, mas suas entranhas seguiam convulsionando. Agarrado à louça, sentiu o peso de sua cabeça sumir devagar. Os pés, antes firmes, formigavam rumo à dormência. Um apito soava cada vez mais perto.

Acordou pendurado pelos ombros no assento da privada.

Com seu rosto a poucos centímetros do próprio vômito, se olhou nos olhos pela primeira vez.

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