Onde foi que nos (des)conhecemos?

Yago Deluque
Nov 5 · 3 min read

Era carnaval.

Foi quando nos conhecemos.

Os batuques das marchinhas se confundiam com as batidas do meu coração.

Usávamos fantasias mas, na verdade, quem acabou fantasiando fui eu.

Fantasiei que teríamos algo duradouro, quiçá, eterno.

Fantasiei que, juntos, construiríamos uma história.

Fantasiei que as promessas, uma vez feitas, cumpririam-se.

Até que, de tanto fantasiar, acabei me perdendo. Ou, quem sabe, me encontrando?

Mas nem só de fantasias negativas foi feita a nossa história.

No pouco tempo que tivemos, fizemos um desfile até que bonito, não acha? Talvez até digno de nota dez, eu diria.

No quesito harmonia, por exemplo, não havia quem pudesse competir com a gente. Éramos imbatíveis, de dar inveja.

Fomos mestre sala e porta bandeira bastante dedicados, dançando ao som do samba enredo que escrevemos juntos, cujo o principal tema era o amor. A diferença era que não carregávamos o estandarte de alguma escola de samba. Segurávamos, ao invés disso, os corações um do outro. Com afinco, cuidado e dedicação. Como se nossas vidas dependessem daquilo.

Mas então o Carnaval passou. E, com ele, a magia e a alegria também se foram. Aos poucos, de maneira gradativa, o que antes era uma cena colorida e festejante acabou por se tornar apenas uma memória monocromática e angustiante. Restando assim, apenas alguns retalhos das fantasias que outrora foram usadas por nós com tanto orgulho e paixão.

E então, era ano novo.

Foi quando nos desconhecemos.

O estourar dos fogos de artifício se confundia com o barulho provocado pelo soluçar do meu choro abafado.

Aqui, não usávamos fantasias. Já havíamos nos despido das mesmas. Usávamos, ao invés disso, roupas brancas.

Eu sei que elas deveriam simbolizar paz. Mas, ironicamente, eu estava sentindo o extremo oposto disso. Conflito interno, dúvidas, confusão, angústia, decepção.

O amor que sentíamos um pelo outro, a chama que nos mantinha acesos, deu lugar à uma devastadora frieza e indiferença.

Os beijos, antes apaixonados e voloptuosos, agora não passavam de meros encontros mornos entre duas bocas quase que desconhecidas.

Os abraços, uma vez tidos como refúgio, acalento e proteção, eram agora algo semelhante à dois corpos estranhos que não conseguem se encaixar, como um ímã que repele seu pólo igual.

Naquela noite, olhando os fogos, mesmo com a visão embaçada devido às lágrimas que rolavam pelo meu rosto, consegui fazer uma associação. Nossa história era exatamente como aqueles fogos de artifício que invadiam o céu da noite de revéillon.

No início, coloridos, vibrantes, esbanjando todas as suas cores e sua grandeza. Alegres, fazendo, em conjunto, um tipo de dança sincronizada, deixando todos boquiabertos e estupefatos.

Porém, quase que num piscar de olhos, vão se esvaindo, se apagando gradativamente, sem deixar nenhum rastro, até que tudo que reste seja a escuridão provocada pelo céu noturno.

Assim foi com a gente. De amantes no carnaval, fantasiados, coloridos e extravagantes para desconhecidos no ano novo, onde tudo que restou foram as pólvoras de sonhos e desejos que, repentinamente, explodiram e se foram.

Yago Deluque

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