//Uma geração sem medo e sem coragem.

Foto: Dmitry Ratushny

Era noite de quinta-feira, e pra variar a luz tinha acabado — ou tinham cortado — afinal, morar na Zona Norte do Rio de Janeiro já não é fácil, ainda mais se estamos falando de morar em favela.

Não é atoa que o Cristo Redentor fica de costas pra gente. Mas isso é um papo pra outra hora, e talvez pra outro texto. Talvez. Mas o importante é que eu estava sem luz logo sem internet, logo sem o bem mais importante nesse atual momento : ventilador.

Resolvi escrever já que ainda tinha bateria no notebook. Sento em minha cadeira de ferro que prejudica minha coluna, se bem que to bem acima do peso, mas coloco a culpa na cadeira. coisa millennial. Coitada. Enfim. Pego meus óculos faço pose de escritor e começo com um texto que já deveria ter escrito faz tempo, já tinha o titulo na cabeça : “A vida é um sopro” o texto falava sobre a experiência de um irmão de criação tão cedo vitima de afogamento em Ipanema em Dezembro de 2015. Doidera, morreu em Ipanema, lotada em um dia de sábado. Doidera.

Inútil tentativa, não conseguia escrever nada decente — talvez esse texto também não seja — mas continuava ali na tentativa de escrever algo, qualquer coisa mesmo. Tipo esse texto aqui. digito. Apago. Digito. Apago, então até que enfim desisti. Lucas era um cara muito bom com as palavras e com certeza merecia um texto bom sobre esse episódio, se fosse eu no lugar dele, aposto que ele escreveria algo decente e muito melhor do que isso aqui, então eu estava certo em desistir, pelo menos agora. Cansado, com sono e novamente com luz elétrica, que misteriosamente cai todo dia mais ou menos no mesmo horário, liguei o ventilador no máximo e fui dormir. Quem sabe no dia seguinte continuava a escrever sobre a vida ser um sopro, mas no momento só queria dormir.

Acordo e olho no celular. Fui ver o horário? Não, as notificações mesmo. Relógio ta dando três horas da manhã, três e pouca pra ser mais exato, acordo suado e logo penso : “ essa porcaria caiu de novo” abro os olhos mas percebo que ainda tinha energia elétrica e a maravilha da tecnologia chamada ventilador ainda trabalhava sem parar, igual a galera que mora aqui no morro e daqui a pouco já estaria acordando pra ir trabalhar, pois chega cedo e se atrasar o senhor do engenho, ops…o patrão desconta. Mas isso deixa pra outro texto. Pra outro dia talvez. Talvez.

Voltando pro meu quarto, se é que posso chamar de quarto pois parecia que eu estava dentro de um forno tamanha a “quentura”. mesmo com o ventilador trabalhando sem parar. igual o pessoal daqui. Então levanto rapidamente e vou tomar um banho pra ver se conseguia dormir já que eu também acordava daqui a pouco, não tão cedo, mas também não tão tarde. Então, enquanto eu tomava banho, aconteceu. Ela veio, não sei de onde mas veio e veio com tudo, me senti como Homero agraciado pela Musa Inspiradora, Enfim, inspirado! Ok, como Homero nem tanto, coloquei ele aqui pra parecer mais “cult” mas me senti mesmo como Zeca Pagodinho, talvez Mano Brown quem sabe até Sérgio Vaz. Não que eu tivesse a genialidade desses, mas eram mais meus heróis e muito mais íntimos do que aquele Homero de Ilíada.

Então veio aquele lindo titulo “ Uma geração sem medo e sem coragem” já sei, vou escrever sobre minha geração, toda sem medo pra ganhar o mundo e toda sem coragem pra tomar atitudes e responsabilidades. Na real, lembrei de um amigo meu, o titulo poderia ser o nome dele, mas como publicitário esse titulo é bem melhor! Parece um daqueles textos do Nizan Guanaes, pelo menos o titulo. Saio rapidamente do banho. Mas tomei banho direito ok?! E fui começar a escrever, a ideia era escrever e hoje mesmo postar no meu LinkedIn, dar aquela moral né! Escrevi o titulo no Word, entrei no Insta chequei umas fotos, umas notícias na internet, me distraí e quando percebi estava escrevendo isso aqui. Eu sei, não tem nada de Nizan.

Bom, eu prometo que depois termino esse lance de LinkedIn ou até aquele de “A vida é um sopro”. São cinco da manhã e acho que vou dormir e torcer pra musa aparecer com inspiração de novo, pra ver se escrevo algo bom pro lance do LinkedIn, preciso mostrar que tenho algum atributo interessante, mesmo que seja escrever sobre esse lance de minha geração. Jovem adora parecer profeta, e eu não sou diferente. Preciso de um estágio. Preciso seduzir com alguma coisa, alguém precisa gostar de mim no meio de tantos profiles e currículos.

Amanhã disparo mais currículos e links do LinkedIn. Com alguns medos, mas com coragem, Afinal, quem vem daqui não pode se dar o luxo de deixar a coragem na gaveta ou pendurada no varal, não sabemos se voltaremos pra casa e morrer como um covarde é esculacho né?!

Obs. O texto tem muitos pontos né?! Acho que virgulas também, mas é assim. Igual a vida, cheia de interrupções. Até mais.

Nota: Esse texto foi escrito em 19 de Fevereiro de 2016, voltei nele hoje, dia 04 de Maio de 2017, mais de um ano de depois. Engraçado ver que esse Yago tão ácido não é tão mais ácido assim, acho que era falta de amor, ou excesso de ego. Talvez os dois. A vida é boa, isso eu sei.
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.