A jaca quase me matou

Jacas (Imagem da internet)

Acabei de chorar. A lama escorreu de mim e caiu sobre a capa do livro Notícias do Planalto, de cima para baixo, do nome Mario Sergio Conti até o nome da editora, Companhia das Letras. Escorreu azedinha.

Me lembro do lápis que mastiguei a ponta até os dentes pretejarem. Eu me escrevia todo dia um recado. Avisava a mim, cortês, letra falha, mal escrita, que amanhã, ainda de manhã, a música tocaria. E eu dançaria, sós, braços lerdos, fortuitos. Dançaria como se houvesse vento adentrando, me lavando, me reconduzindo.

Quando eu olhar ao espelho, amanhã, sol penetrando pela brecha da janela, me tocando, me esquentando, me direi: não vejo dor.

Sinto que a poesia de Drummond me importuna. Drummond tem uma coisa afiada demais. Ele é afiado.

Quando descobri que sou pedaço cru de carne morna, quase despencando de mim, despertei. Eu só escrevo isso aqui pra tentar arrancar de mim fiapos que perturbam minha alma.

Olha, eu pedi a Deus, não sei se me escutou, que eu fosse alimentado pela palavra mais apropriada em noites de dor.

Moça, eu só pensei numa coisa quando me assustei com meu corpo ossudo, exposto, duro. Pensei que era tarde demais pra revisitar a mim.

Essa crônica tem a mim como destinatário.

Eu, que escrevendo não sou eu. Eu, que detesto ter rido de mim. Eu ri de mim quando eu ri do que era pra ser. Zombei da verdade. Priorizei o eu de fora. O eu de dentro ganhou direito de resposta a partir do dia que optei pela escrita como maneira de explicar a mim o que aconteceu naquele dia decisório. Minha pena aplicada por mim é a reclusão. Eu sou cru, isso eu já sabia desde quando a jaca caiu sobre a minha cabeça.

A jaca veio depois de um pedido. Pedi. E ela caiu sobre a minha cabeça de menino sabido. Queria morrer. Ei, eu quero morrer. Minutos depois, a jaca me desnorteou. A jaca. Eu enfiei a vida na jaca e me transformei em semente, plantado num matagal distante, longe de tudo. Eu estou plantado longe de tudo, meu Deus.

Me tornei muda. E emudeci. Me plantei noutro campo, longe, muito longe. longe de mim. Longe do adubo. Longe, longe, longe.

Longe.

Lon-ge.

longedemim.

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