Meu maior medo: esquecer de ser repórter
“Como assim, Yago? Se internar? Tá doido?”, perguntavam. Se apurar for doidice, desculpe, sou doido então... Fico assustado com essa tendência: de o repórter-pedra se esquecer que seu estigma é o gerúndio apurando. Apurar, in loco, em busca de humanização, em vez de regra, parece se tornar exceção. Se espantam quando o repórter quer ir pra rua, ir pra onde a notícia fervilha, onde interlocutores querem contar. Prefiro não acreditar nessa máxima.

Segundo ano do ensino médio. Ia pra casa depois da aula, à noite. Dez, quinze pessoas do ônibus esticam o pescoço, parecem lamentar. Abandono a leitura de Crime e Castigo, de Dostoievski. Tá, confesso, não terminei de lê-lo, ainda. Bisbilhotei e vi um corpo esticado sobre a faixa de pedestre. Algumas pessoas cercavam, outras ligavam, uma mulher chorava.
Súbito, pela primeira vez aquilo me assaltou, gritei: “Abre a porta, motorista”.
Desci. Atravessei a rua e lá estava uma velhinha morta, atropelada, abraçada com a Bíblia. Ela vinha da igreja Assembleia de Deus ali perto, no setor Negrão de Lima, em Goiânia.
Saquei o caderno da mochila, anotando os detalhes. Perguntei quem a atropelou.
“Fugiu, meu filho, fugiu”, uma mulher disse.
“Fugiu, nada, ali ele, ó, ele ali, desgraçado”, apontou uma outra mulher que ligava para um telefone escrito na contracapa da Bíblia.
“Foi o senhor?”, perguntei, trêmulo, com medo. Olhei pra dentro do carro, intacto, sobre a calçada; continha algumas latinhas de cerveja.
“Hein, moço, foi você?”, indaguei meio irritado, revoltoso.
Logo um homem o colocou no carro e fugiram. Àquela altura, a população estava eriçada. Com a chegada de policiais, consegui o nome daquela velhinha, idade — 77 anos — , o nome do condutor. Anotei o nome da placa, marca e cor do automóvel de luxo.
Já estagiava no jornal Diário da Manhã como jovem aprendiz. Meu horário era no vespertino, mas no dia seguinte fui de manhã e passei as informações a um repórter que conseguiu descobrir o local do velório. Ele me levou. Me lembro apenas do primeiro nome daquela velhinha: Eva. Evinha, como era conhecida, cuidava da assistência social da igreja. Na noite da tragédia que a deixou zonza antes de morrer na faixa para pedestres, havia ficado até mais tarde na igreja. É que a igreja ofereceu sopão para uma ocupação ali perto. E não parava de chegar gente. Ela gostava de organizar a fila, de passar a mão no rosto das crianças e das mulheres — das viúvas, e das que apanhavam dos maridos. Ela não era gente, era doce.
A primeira experiência me capturou. Me desbotou a preguiça. Me viciou. Fiquei mais curioso, chato, perguntador — minha mãe conta que desde pequeno pergunto demais. Uma vizinha, dona Jozina, hoje com 80 anos, conta que, quando eu tinha dois anos, eu perguntei a ela o que era aquilo no cotovelo. “Veieira, Yago”, ela se lembra.
Minha mulher não sabe onde enfiar a cara quando saímos. Quero saber de tudo, em todos os detalhes. Algumas pessoas já puxaram minha orelha. “É exagero, Yago”. Mas é que eu preciso ir apurando, aperfeiçoando o olhar, as perguntas diretas, perspicazes. A chatice. Repórter que é repórter é chato mesmo, insistente.
Da primeira até a última reportagem — Cansados e Oprimidos pelo Crack, publicado no dia 10 de outubro de 2016 — uma coisa em comum enfurece muita gente: a insistência em saber os mínimos detalhes. Cheguei a perguntar a um dos entrevistados se se lembrava a cor da cueca em uma dada situação que ele lembrou na entrevista. E se essa informação faltar no texto? Invento? Claro que não. Melhor perguntar do que inventar. O pecado do jornalista é voltar pra casa — o conceito de redação tem se perdido, dado o tanto de gente que não precisa mais dessa estrutura para fazer jornalismo — sem conhecer o próprio personagem. Conhecer seu personagem é o segredo para um baita texto.
Não tenho mais medo de levar respostas malcriadas. Tudo isso faz parte. Quero mesmo são as respostas impactantes. Resposta impactante enriquece a escrita. Amadurece a narrativa, dá credibilidade ao repórter. Faz o leitor se envolver melhor.
Agora, queria explicar uma coisa. Quando recebi a pauta para tratar do crack em Goiás, fiquei ressabiado. Falta tanta informação. A primeira coisa que fiz foi procurar os órgãos oficiais. E me indicaram dados antigos. Aquilo pra mim não geraria interesse no leitor. Corri atrás de alguma chance de me internar em um Casa de Recuperação para poder contar melhor a história de quem foi levado pela droga ao lamaçal, à prisão, à morte social. Depois de várias ligações, encontros, negociações, consegui.
“Como assim, Yago?Se internar? Tá doido?”, perguntavam. Se apurar for doidice, desculpe, sou doido então. Fico assustado. Apurar, in loco, em busca de humanização, em vez de regra, parece se tornar exceção. Se espantam quando o repórter quer ir pra rua, ir pra onde a notícia fervilha, onde interlocutores querem contar. Prefiro não acreditar nessa máxima.
Ainda não sei escrever nada se não ir lá, pegar, olhar, escutar, escutar, escutar, ver, ver, sentar no chão, beber o chá, o café, abraçar, sentir, e, por último, perguntar.
No jornal, até o Sebastião, o dono, não acreditou quando eu disse que me internaria. Mesmo com áudios e rascunhos ele não acreditava. Jornalistas do meu convívio, com o mesmo tom cético, esgarçavam pessimismo.
Ah, tenho algumas fotos também de minha pouco experiência. Lembrando que termino a faculdade daqui a dois meses. Já!











