Agora escritor publicado

A culpa toda é de um psicólogo, repórter, contista. Ivair Lima. Ele me dedurou para mim mesmo: “tem algum talento, só ler e escrever muito”. Não parei mais.

As Dores de Josefa

Nunca pensei que os textos ultrapassariam a barreira do meu computador de mesa até a redação do Diário da Manhã quando eu tinha 15 anos, 7 anos atrás. Publicaria durante anos pelo menos um texto semanalmente. E dicas, críticas, elogios eram como gritos de “vai, vai, não para, vai, vai”. E punha à mente sempre: é preciso melhorar. Pontos, vírgulas, verbos, adjetivos, blábláblá. E ia me misturado à gramática.

A palavra escrita passou de mera atividade escolar para a razão de minha vida quando o desconhecido me assombrava. Parece exagero, mas a escrita me (re)conduziu às dores mais imperceptíveis de mim. Cavoucava — cavouco ainda com a ponta de dedos sem unhas. Lamento ter adquirido, junto da escrita o hábito de roer as unhas.

Ainda procuro alguma resposta quando escrevo. Por que sou cabisbaixo?. às vezes me pergunto. Falta de escrita, constato. Escrever, no entanto, não é nenhuma excepcionalidade. É coragem. Escrever é assoprar por aí o que está escondido em linguagem não verbal. Essa linguagem não precisa ter uma lógica. Se tiver, bem. se não tiver, bem também. (Deu uma preguiça agora. Sem ânimo. Mas preciso continuar. Bora lá?)

Antes de chorar, eu escrevo. Antes de discursar, eu escrevo. Antes de responder a uma prova, eu escrevo. Escrevo por que me esqueço de mim todo dia. Escrevo para, quando eu me desbotar, me afligir com a morte da memória, eu me lembrar da indócil leveza da minha vida passada.

Atualmente escrevo para me redimir. Desculpe, fui equívoco. Desculpa, usei a palavra pra cuspir. Escrevi pra matar. O verbo é vida. Quero ser vida, não morte, ei, por favor, não me deteste.

Sei que este texto pode parecer um pouco impotente diante da complexidade do ato de escrita — que é uma braveza. Escrevo pra não morrer, tá, tá. Já tentei morrer das piores formas, mas preferi matar personagens. Eles morreram, coitados, por mim. Eu morreria por um deles: por mim mesmo. O texto autobiográfico, como tento fazê-lo aqui, é detestável. Ele tira de mim o segredo, me obriga a revelar que me assombro com minha boca sangrando. Sangro pra me livrar da escrita chata — como este texto.

Alguma coisa a mais precisa ser dito. Ah, sim, claro. Quando alguma coisa que escreveu, leu, releu, e por algum motivo passou pelos crivos individuais de cada leitor/editor que há dentro dos autores, alcançou uma editora de livros, e foi transformado em livro — impresso mais precisamente — acontece uma lunática tentativa de entender. O que? Não sei. Ser lido aqui é bacana, as curtidas dão ânimo para continuar escrevendo de graça a esta plataforma. Mas o livro impresso — ah, nunca se sabe como o leitor lida consigo impresso num texto fixo, pronto, dado como definitivo.

Quis escrever isso tudo para dizer que agora tenho exemplares do livro da coletânea Dores de Josefa, da coleção e/ou, da Editora Nega Lilu. Tenho dois textos publicados, mas sem feedback nenhum até agora, motivo de profundo desespero. Será que ficou tão ruim? Ignorado, o silêncio do leitor parece que estou fadado à tortura eterna. Terna.

A única coisa que me vem à mente agora é aquela frase indiscutível de Henry Miller: “Nenhum escritor é bom a não ser que tenha sofrido”.

P.S Não poderia esquecer dela, a culpada número dois pelo confinamento dentro de mim.

“Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta própria e auto-risco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever” Clarice Lispector