Traga-nos uma entrevista, Geneton

Ia à Lan house do meu bairro atrás de um texto-estímulo diariamente. Era 2010. Digitava na barra de pesquisas o endereço do blog do Geneton Moraes Neto. Às vezes ele publicava. Muitas publicações, no entanto, demoravam até duas semanas para serem postadas. Ficava chateado. Não entendia que talvez Geneton estivesse apurando para a Globo. Ou escrevendo algum de seus livros. Escrevendo o roteiro ou editando algum de seus documentários. Não tinha um dia sequer: eu acessava, esfomeado, na periferia de Goiânia, sem computador em casa, naquela Lan house desbotada, o endereço de Geneton. Geneton era meu professor.
Quando não encontrava algum texto novo, relia outros. Assistia a entrevistas disponíveis no Youtube. E assim foi a minha relação com Geneton, até que convenci lá em casa a assinarmos a Globo News. Pronto. Café na xícara e Geneton ressurgiria na tela plana da minha avó em horário acertado e inegociável.
Um encontro certeiro. Semanalmente teria a oportunidade de assistir ao Dossiê de Geneton. O repórter debruçado sobre pastas de arquivos, cartas, documentos amarelados e mastigados por cupim, roteiros muito bem cumpridos, com entrevistas explosivas. Jornalismo vibrante. Um senhor-jornalista com pique de foca, novato. Pique de novinho, mas expertise de jornalista decano.
Poderia assistir a qualquer entrevista sempre que quisesse. Geneton dentro da minha casa. Eu anotava expressões. Aos 16 anos, queria ser jornalista. E queria fazer aquilo que Geneton fazia. Desmembrar a história mal contada. Reconduzir a narrativa de um Brasil torpe. Montar o quebra-cabeças de muitas histórias debaixo do tapete da negligência jornalística. Dar voz a personagens calados por repórters. Quando um repórter não procura, silencia os fatos que tentam driblar editores assassinos de pautas, da história. Deve ser medo do despreparo.
Geneton, antes de enfrentar uma entrevista, desvirava o mundo e encontrava elementos que desmentissem versões. Capítulos da história foram remexidos a partir de Geneton.
Queria apreender aquele estilo genetoniano de reportar. De ser.
Geneton deveria ser verbo. E verbo que invariavelmente indique ação de repórter, claro. Genetoriando, destemido, encharcado de curiosidade, espantado com a passividade de sua classe, aponta a um personagem da história vivo com um gravador e genetoriava. E perguntava. E anotava, se necessário. E gesticulava. E olhava nos olhos. E interpelava. E perguntava. Amenizava, e outra vez reacendia o assunto-segredo.
O repórter Geneton Moraes Neto, em sua biografia de narrador, diante de entrevistados coagidos ou impressionados com sua agudeza, citava, referia-se, relacionava, aludia. Perguntava. Discordava discordando com argumentos que faziam o entrevistado desdizer. Geneton, às vezes, se calava.
Porra, Geneton, mas não precisava ser assim, abrupto, silencioso, pra sempre.
Pra você que não conheceu Geneton Moraes Neto, aqui um blog com aspecto de mofo, desatualizado no layout, mas nenhum outro terá um conteúdo-alma tão exemplar. http://www.geneton.com.br/