Truco: a menina despedindo do pai

Despedir-se de pai descasca o peito com navalha afiadíssima, debulha o estômago com unhas mastigadas, esfrangalha a memória com mãos lambuzadas de saudade.

Hoje, um vizinho, aqui da rua, num giro natural da existência, encaminhou-se para outro plano. Deixou para trás a filhinha de onze anos. A netinha de meses. O baralho do truco devidamente organizado. A bicicleta. O silêncio na casa.

A menina, contaram aos sussurros — e ali o ouvido percorria pacientemente — , entre um copinho de café e a mão massageando o peito à altura do peito, era apegada ao pai como nervo à carne. Era ele quem a levava à escola. Ele que a vigiava nas madrugadas insones e frias de julho. Ele a encobria amorosamente.

“Papai, tô com frio, papai. Papai, tô com tanto frio, papai.”

O pai a guiava numa relação eternizada pelo dia que ele a segurou na maternidade. Pai babando aos quarenta e quatro anos. A caçulinha ali, depois do primogênito criadinho. A meninazinha em seu colo. Troféu. Truco.

E agora, aos cinquenta e cinco, era amor que lhe saia da boca e acobertava a menina. Um pai que dedicava-se ao amor à menina que chega à mocidade. Onze anos inseparáveis. Era ela e ele na bicicleta, no abraço dum homem franzino, amor, pai. Despedida.

Uma coisa na cabeça. Estouro. O derrame. Uma coisa fria lhe escorrendo pelo corpo: o amor da menina de longe. Pouco antes da visita na U.T.I ontem, a menina ia lhe dar um beijo. Mas ele morreu minutos antes de a menina entrar no leito. Sentir o corpo quente do pai. Lhe sobrou um pai gélido.

“Essa é a pior hora”, repetem vizinhos que nem davam bom dia ao homem franzino que gritava truco na minha infância. Meu pai jogava com ele. Entendi a importância deste homem quando contei ao meu pai sobre sua morte hoje. Meu pai, que não se compromete com despedidas, não fosse a notícia tardia, teria vindo. Certamente percorreu na memória do meu pai o truco, a cerveja no copo americano. Os gritos. TRUCO.

“É hora, moça, vamos fechar”. Fecham o pai ali, dormindo pra sempre. A menina, trêmula, amparada pela mãe, fingindo força “estou aqui, minha filha”. A viúva abraça a pequena menina moça. Bebê para o pai. O choro abafa a palavra tumultuada por dentro, remoendo, “meu papai, papai. Acorda, papai, vem, quero te abraçar”. Sabe aquele choro que rasga a gente… escutei.

Onze anos. Uma dor inconsolável — mesma idade que tinha quando, também num julho, me despedi de meu avô: mas não é papai. Um pai duas vezes. Entendo.

Ficaria registrado na memória da menina a cor amarronzada de urna. A sepultura. O silêncio. O pai. Ela descaminha, estremecida pelo medo. As aulas começam daqui a poucos dias. O material na mochila. Ele arrumando o cabelo dela. Ele aconselhando. Ela às vezes ignorando-o. Coisa de menina de onze anos. Ela desmoronada. As aulas. Ela sem ele.

O pai foi lhe arrancado aos pouquinhos — oito dias em que ficou internado. Isso não se explica. Isso é pouco importante aos transeuntes, aos que se estacionaram nas calçadas, aos que foram espiar o velório, aos que ‘penalizam-se’, num silêncio, com a dor da menina.

O amigo de truco do meu pai viajaria para outra cidade para descer ao sepulcro. O cortejo foi a última coisa que me restou de sua história.

O pai se despedindo em remanso…

A menina sem pai.