A 1.301,2 km dele
Os algoritmos do Facebook limitaram as vezes em que aquele sorriso aparecesse na minha timeline. Quando uma postagem qualquer dele surgia, imediatamente clicava no nome. Carregava na tela do iPhone o rosto. Aquele sorriso de dentes largos, tomando conta de tudo, até do coração.
Três, quatro vezes corri com dedos desorientados para o inbox. Offline. Desistia de dizer um oi. Olhava as fotos — das quais conhecia de outras inspeções. Eu, naquele perfil, era um turista. Visitava com olhos curiosos.
Os cabelos lisos castanhos-escuro, desorganizados, despencando no rosto — livres. Os olhos pequenos lançavam olhares assanhados, rodeado da família no cinema, dos amigos.
Olhos de quem olha pra dentro. Olhos que não gostam de visualizar o óbvio, mas o excepcional, o bruto e o cru. É juízo de valor?
Em uma das fotografias, na contra-mão do pôr-do-sol, ele segura um celular. Parece desinteressado, impedido. Quer ficar de frente com o sol — sol se escondendo detrás de camadas de nuvens cinzas e azuis que se misturam ao mar e rochedos. É o único — dos cinco que aparecem na fotografia que registra a beleza da prainha, ou Pontal do Atalaia — que talvez estivesse sentido a áurea daquele lugar.
A fotografia não mostra, mas ali a água fica azul ou verde — depende dos cosmos. Talvez. É milagre. Milagre mesmo eram meus olhos fixarem nos cabelos dele, no sorriso forçado dele, do celular amparado pelo joelho esquerdo dele. Tudo dele me aprisionava. Eu fugia, corria do perfil dele, deslogava. Aposto que os olhos corriam atrás da nuca, querendo enxergar o todo do sol indo — como ele mesmo gosta de ir.
(Ir é verbo. Um intransitivo e pronominal. O significado. Ah, a cara dele: Aurélio, conta pra mim, por favor?
- deslocar-se de um lugar a outro.
- “ir a cavalo ou de caminhão”
E tem mais, Aurélio? Tem…
- deixar algum lugar; sair de algum lugar; partir.
- “foram de uma cidade para outra.”
Em outra fotografia, Jesus reduzido em um quadro repara uma turma de adolescentes. As carteiras em desordem. Ele no canto, agachado, um menino. O quadro negro, a turma de colegas, uns sorriem, outros fazem sinais com as mãos. E Jesus no quadro. Ele com aquele rostinho.
Nos comentários de algumas postagens, descubro que ele é tarado. Tarado em séries. De Dr. House a Greys Anatomy.
Ah, alguém o chamou de Teco. Talvez em uma dessas felicitações de feliz-aniversário. Fiquei com aquilo na cabeça, até criei um personagem. O batizei na saliva sob o codinome de Teco. Quando comecei a escrever, por pouco não mandei oi no inbox do menino.
Desisti.
O tempo ia se desfazendo. Teco-teco-teco-te-co. Eu ia me esquecendo do Teco. Mas os algoritmos do Facebook vezenquando (como escreve Caio F. Abreu) me lembrava aquele sorriso. Meu Deus!
Um dia anotei em meu passaporte outra incursão pelo seu perfil e reli uma frase que me descolocava sempre que relia: “You met me at a very strange time in my life”. Queria comentar em caixa alta: “REALLY”.
Outra vez desisti. Desisti do Pokemon.
Dias atrás os algorítimos do Facebook me fincaram o adeus dele. Aprovado em Medicina, foi viver a 15 h 16 min (1.301,2 km), comemorava. E eu embasbacado. Em silêncio.
Assustei. Regozijei. Senti orgulho. Corri ao inbox. Mas desisti do oi. De novo. Logo depois veio o adeus efetivo: o check in. A ida.
Afinal, 1.301,2 km de mim é apalpar as nuvens, beijar o sol, abraçá-lo, encostar meu nariz no dele e sentir a respiração. Segurar os cabelos, me misturando completamente em um abraço forte, puro, que desequilibra o coração.
1, 301,2 km, meu Deus…
“Oh, it’s a long and winding road
But you don’t have to walk alone
As no matter where we are
I’ll keep you in my heart
I’ll think of you as I go”