O caráter afetivo do vestir

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, 2001.

Não sei quando comecei a gostar do universo das roupas, mas tenho memórias de infância sobre tecidos, cortes, estampas. É importante dizer que tanto minha avó materna quanto paterna são costureiras. Por parte de pai, dona Esmeralda aprendeu a costurar de olho, só depois veio a mexer com molde. Maria de Lurdes, por parte de mãe, já era assinante de revistas de moda, como Manequim e Moda Moldes, fora as de ponto-cruz e bordados que guardava (ou ainda guarda) em seu baú. Costurava até vestido de noivas, e ainda hoje trabalha com sua melhor amiga e patroa com acabamento de enxoval, numa das lojas mais caras da cidade. Minha mãe foi por um tempo vendedora de roupas em uma loja de marca, sempre estava de jeans cós alto, camisetas com estampas e gola careca, batom vermelho numa boca tímida, cabelos pretos e curtos, com franja. Ela sempre foi meu referencial de vestir. Achava descolada, jovem, portando relógios grandes, um arzinho de mulher independente, urbana, entendedora de um mundo que eu só conseguia enxergar de sua coxa magra para cima. Todos os dias para me deixar na escola, passávamos pela Barão do Rio Branco, no calçadão preto e branco que sinuava as ondas de um mar que nunca vi — alvoroço de centro num cheiro de café com salgado de esquina, que se confundia com o escapado da fumaça dos carros que baforavam numa embriaguez matinal coletiva. Um pouco antes de chegar, havia uma loja chamada “Sabor de Morango”, com uma vitrine de roupas de meninas de família importante, vestidos dóceis, de flores, fitas; eu sonhava em ganhar uma roupa daquelas que fosse em meu aniversário.

Minha mãe aos 18 anos com o look de instagirl cool vivendo sua época. dezembro de 1985.

Minha avó Esmeralda costurou roupas para mim até os 16 anos, quando encerrou seu ofício num vestido vermelho, abaixo dos joelhos, cheio de babados laterais, especialmente para minha formatura de ensino médio. É verdade que depois também costurou um vestido longo, preto, de seda, tomara-que-caia, baseado no modelo de um que minha melhor amiga da faculdade havia visto com a Angelina Jolie, em algum Oscar. Por um momento eu pensei que minha avó não conseguiria entregar no prazo, a ocasião era o casamento de outra amiga nossa de sala. O vestido ficou perfeito. O corpo de minha amiga era magro, ossudo, esguio, de carne firme. Aquele corpo de mulher era um dos mais bonitos que já vi: músculos rígidos, ossos compridos, sangue em tempo de violência. Nunca mais a vi.

Quando criança, aprendi os pontos fáceis de costura com as avós: alinhavar, pregar botão, zigue-zague, ponto cego. Me separavam retalhos de tecidos e eu fazia roupas para minhas bonecas. Eu chorava para que elas deixassem usar a máquina de costura. Cheguei a fazer barras. Já adolescente, comecei a desenhar modelos, corpos de mulher, vestidas com roupas que supostamente serviriam para meu desfile de moda: eu me considerava estilista de cabeça. Aprendi o desenho de olho com uma amiga que fiz no ensino médio: nas horas de intervalo ela sentava ao sol num canto do pátio e ficava ali, parada, rabiscando. Eu de curiosa comecei a sondar e por fim, estava ali me ensinando as técnicas de se desenhar o corpo humano, fazer linhas sinuosas de vestidos, passar o lápis de cor sem parecer um desenho infantil. Aqueles 15 min de intervalo com ela valia mais que qualquer disciplina ou evento escolar: rabiscava ali, refazia em casa, mostrava no outro dia.

Quis fazer curso de moda na graduação, mas minha mãe me repreendeu dizendo que não queria uma filha igual às avós, trabalhando muito, ganhando pouco (ela achou que eu seria costureira, o que não seria difícil acontecer também). Virei professora, rs. Ainda menina, meu presente de ano novo era ganhar roupas, se passasse de ano. Eu não duvidava de ficar sem, caso não passasse, então, ganhar roupa para mim era uma recompensa antes de tudo, necessária. Enquanto crescia, minha tia, bem magra que era, me passava suas peças: eram blusinhas básicas, brancas, beges, cinzas (as únicas cores que gostava) mas de bom tecido, de estampas miúdas; as saias, sempre acima dos joelhos, rodadinhas, evasês. Vestidos estampados e rodados de “hiponga”, eu nem sabia o que significava isso, hoje tenho vários assim. Ela passava essa identidade de mulher livre consigo. Eu adorava chegar num cômodo da casa que ela havia feito de closet, era ali que eu passava parte do tempo experimentando peças em frente ao espelho enquanto as mulheres da família se dedicavam ao frango de domingo com pitadas de mexerico da vida alheia, açafrão e pimenta do reino. Casou-se com um vestido cinza, degradê, sapato baixo, bem depois de passar a idade em que as mulheres torram de amor, naquele delírio silencioso de esquecer lugares, coisas, horas.

Depois de adulta, me preocupei com marcas, roupas de vitrine vendendo peças que deixavam a gente parecendo carne embalada a vácuo. Fora os saltos altíssimos que chegando em casa era ter o pé de molho e curativo. Uma incoerência. Eu era refém de tendências e uma padronização que me desautorizava ser alguém que sustentasse o meu gosto individual, o que eu vestia e independente de estar na moda, fosse o bom para mim. Às vezes tenho a impressão de ter sido uma mulher caricata, uma tentativa de beleza que negasse sobretudo minha classe social: eu era um borrão.

Vestido solto, calça confortável e tênis: livre por aí (Frances Ha, 2012)

De um tempo pra cá, a discussão sobre consumo de moda consciente fez com que eu colocasse os olhos em brechós, dos mais arrumados da cidade aos mais decadentes — e lendo mais sobre, vendo editoriais, movimento de mulheres engajadas no mercado de roupas usadas com troca e venda, pude perceber um comportamento que foi tomando espaço em meu guarda roupa: eu comprava menos do que precisava, fazia trocas com as peças que tinha, colocava em prática uma nova maneira de vestir: por identificação, por vontade de descobrir quem eu era. As roupas são extensões do que somos. Lembro de certa vez passeando com uma amiga que me disse, numa conversa sobre roupas: olha você, sempre de vestido, saião, muito do que você veste tem a ver com sua história. Eu nunca tinha parado para reparar: por uma boa parte da minha infância e toda adolescência frequentei igreja evangélica com restrição ao uso de calças. Hoje que não frequento, continuo mantendo um lugar maior para saias e vestidos. Essa é a minha história.

blusinha que minha avó costurou. usou. e depois me deu.

No livro O casaco de Marx (2008), Peter Stallybrass em três ensaios nos convida a pensar sobre nossa relação com as roupas. No primeiro momento fala delas no campo da memória, do cheiro, das marcas de uso, de todo o simbólico que permanece nas peças quando as pessoas se vão:

Eu lia sobre roupas e falava aos amigos sobre roupas. Comecei a acreditar que a mágica da roupa está no fato de que ela nos recebe: recebe nosso cheiro, nosso suor; recebe até mesmo nossa forma. E quando nossos pais, os nossos amigos e os nossos amantes morrem, as roupas ainda ficam lá, penduradas em seus armários, sustentando seus gestos ao mesmo tempo confortadores e aterradores, tocando os vivos com os mortos.(2008, p.10).

No segundo ensaio, o autor faz referência ao casaco de Marx e a relação da vestimenta com o consumo, o mercado, o valor. O mesmo casaco que o mantinha aquecido no frio, em sua função primeira de abrigo, era o mesmo que o permitia adentrar o museu britânico para fazer suas pesquisas para escrever O capital, já pensando aqui, a roupa como marca social. Stallybrass cita o fato de Marx penhorar seu casaco impossibilitando sua saída no inverno londrino, sua condição paupérrima e, além da vestimenta, outros objetos domésticos que o intelectual teve que penhorar para garantir a sobrevivência de sua família. A roupa nesse sentido assumindo sua função de mercadoria:

Os sentimentos contraditórios de Marx em O Capital constituem uma tentativa de apreender o caráter contraditório do próprio capitalismo: a sociedade mais abstrata que jamais existiu; uma sociedade que consome, cada vez mais, corpos humanos concretos. A abstração dessa sociedade é representada pela própria forma mercadoria. Pois a mercadoria torna-se uma mercadoria não como uma coisa, mas como um valor de troca. Ela atinge a sua mais pura forma, na verdade, quando ela é mais esvaziada de particularidades e de seu caráter de coisa. (STALLYBRASS, 2008, p. 39–40).

Já na terceira e última parte do livro, o autor fala sobre o caminhar. Cita Édipo e o enigma da esfinge para fazer pensar: o único que consegue desvendar o mistério só o faz pela falta de familiaridade ao caminhar: Édipo é mutilado quando nascido. Em outro momento da vida, já cego, sua irmã Antígona torna-se seu terceiro pé, o apoio que necessita ao caminhar. Stallybrass passeia pela dramaturgia clássica para discorrer sobre essa capacidade tão óbvia que passa desapercebida por nós, mas revela nossa dependência do outro no início e fim da vida, e não somente isto:

O mistério do caminhar é o mistério de um “animal bifurcado” que consegue ficar em pé (quando consegue) apenas pelo sentido incorporado de equilíbrio que a mão de um outro lhe deu. A dependência da mão de um outro, que aceitamos como sendo algo natural em crianças, é revivida por Édipo, por Lear e por Gloucester como adultos. Édipo, conduzido por Antígona, Lear, por Cordélia, Gloucester, por Edgar, materializam, na ficção do teatro, a precariedade do equilíbrio, a vulnerabilidade do corpo à desaprendizagem da mais simples e mais misteriosa das capacidades humanas: o caminhar. (STALLYBRASS, 2008, p.101–102).

Não previ colocar aqui um acontecimento que me deixou paralisada e totalmente dependente. Mas lendo sobre o caminhar que o autor aborda, recordei de um acidente que sofri em um dos pés e que me impossibilitou, por meses, de mexê-lo. Eu que era tão independente fiquei a mercê de meu colega de apartamento para me locomover junto à muletas e cadeira de rodas, fiquei a mercê de meu tio para me transportar às consultas, fisioterapias e faculdade. Tive ajuda de amigos para me empurrar. Outros para me apoiar quando já quase em pé. Eles foram meus pés. Eles foram o meu recomeço, o reconhecimento de não estar só no mundo, foram minha reaproximação com o outro, com a minha família, numa fase tão difícil em que em outra hora o acidente teria sido um detalhe. Cito minha amiga Glória, muito sensível que foi comigo, que no casamento de nossa amiga Mayara me emprestou seus pés, me empurrando pra lá e pra cá na pista de dança. Eu às vezes desconfio que dancei mais do que os outros convidados.

eu e minha parceira de dança, Glória ❤

Ainda sobre o caminhar, lembro de um texto que dizia o quanto os sapatos de salto alto, apesar de belíssimos (e que gosto mesmo sendo agora de raro uso) nos limitava a capacidade desse exercício. Citei alguma coisa parecida acima, dizendo que me sentia mal com salto pelo fato de me restringir a espaços limitados e, ao final, com dor e machucado nos pés. Um preço de beleza que sinceramente não faço mais questão alguma de pagar.

Nós mulheres devemos usar nossos pés para caminhar segundo a nossa força, nossa natureza instintiva. Correr se for preciso, jamais estar com eles amarrados. Não sei se é impressão, mas a moda se aproveitou disso: há algum tempo tenho acompanhado o tênis como tendência, não só no âmbito esportivo mas como uso em situações mais formais: eventos, trabalho, etc. Talvez mais mulheres tenham percebido todo esse desfavorecimento que só um salto proporciona ~ e se autorizado a uma liberdade que se estende para todo o corpo que, acabou refletida no consumo: mulheres aderindo ao salto baixo, o que o mercado acabou se apropriando muito bem. Só olhar as campanhas de calçados por aí, é nítida a mudança. E totalmente excelente.

Para além da “sociedade da roupa”, essa que nos insere no mundo como sujeito de classe, que aponta o quanto se pode pagar numa peça ou num sapato, que faz de nosso corpo um receptáculo de consumo esvaziado da experiência do gosto e do afeto, pois ora, se me visto daquilo que todos estão pagando para se ver/vestir, então, sou uma moldura sem quadro, um texto sem autoria — existe uma maneira outra de sê-lo. Não sou contra a moda, mas a favor da liberdade que se possa ter como gosto individual, em harmonia com a sua bios. Acredito na possibilidade de unir uma tendência com o perfil do indivíduo, mas nunca pensar uma roupa que fora adquirida porque “todo mundo está usando”. Isso seria despossuir a pessoa de sua subjetividade.

Comprei uma jaqueta nova, mas quando faz frio só consigo recorrer ao velho casaco de lã de meu pai. Meu irmão mais novo quando pequeno carregava a blusa amarrada no bico com o cheiro de sua mãe que foi embora. Me dispo entre um facho de luz que atravessa a janela do quarto sob a noite e me visto com a camiseta do homem que amo. Uso os anéis envelhecidos de minha avó. Desapeguei do vestido mais bonito e entreguei à minha amiga que hoje possui o corpo que no passado fora o meu. A roupa como nossa segunda pele, a roupa que nos apresenta ao mundo outrora descoberto por Adão e Eva em sua nudez. O conhecimento e a vulnerabilidade dissociado do divino. O homem do sentir, do ver, humano em toda sua forma, costura e ajuste do tempo.

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