Pequenos reparos

Começou com a luz da área de serviço. Esses dias foi a da sala. Eu não consigo repetir a tarefa que você me ensinou, de pagar a escada, afrouxar os parafusos, pegar a base da luminária, passar o paninho. Tirar os bichos que morreram atraídos pela luz. Até a gente, que pensa que pensa, esquece que Ícaro foi lá e não voltou. Não pretendo deixar a casa acesa à luz de velas, mas encontrei uma caixa cheia que tenho acendido todas as noites antes de dormir. Te dedico como um pedido de proteção e uma saudade daquilo que nunca terei.
Depois que você se foi, tenho acreditado em sinais. No dia que te vi de terno pela última vez, as árvores que estavam naquele jardim se despediram de você acordando com os cachos em flor: eram copas amarelas, rosadas e roxas, parecendo senhorinhas que há muito esperavam por um baile em que poderiam, sabe deus se fosse a última vez, passar o batom mais bonito, seu pó de arroz e uma roupa com um acinturadinho que fosse, vestindo aquela pele feita em linhas e contornos em que se acentua o caminho do tempo. Elas me saudaram naquela manhã.
Fui dirigir seu carro semana passada e ele parecia um velho que tossia de uma gripe mal curada. Andava devagar, ameaça parar. O seu encosto de bolinhas no banco do motorista que te aliviava as costas insistia em puxar minha blusa como se dissesse, fica por aqui. Mas era eu pai, era eu que queria te dizer essas coisas. Esses dias você me visitou em sonhos e eu acordei numa dor terrível de ter aberto meus olhos. Como nós estávamos bem. Você lá também partia, mas estávamos juntos até o momento do sopro que te fazia dormir e eu despertar.
Não consigo pegar estrada sem lembrar de você, não consigo andar no bairro quando volto pra casa sem ouvir o barulho do seu chinelo batendo no pé, quando nós dois, nesse horário que o sol se ia, fazíamos caminhada porque você dizia que queria perder a “pança” e eu brigava contigo porque o certo era caminhar de tênis. Eu nem lembro pai se tênis você tinha, mas chinelo sim, no entanto, calçava o meu para tomar banho e o deixava frouxo, e eu queria te bater por isso. Hoje sou eu que faço as caminhadas ali, agora tenho uma “pança” adquirida por gostar de padarias assim como você. Sou uma receita que transbordou na forma: um semblante de poucos amigos, canhota e das pernas curtas. Também guardo algumas dores e sei que amar dói bastante. Calar é que é o problema, viu, pai. Coração da gente tem limite de cabimento. Umas palavras que a gente bota pra sair, senão vira erva daninha.
Pai, você me fez acreditar que o céu existe. Mas só o teu, um céu só pra você. A casa dos justos, aquele lugar que tanto desejou para esquecer o quanto a vida foi dura contigo. Nós dois sabíamos que você iria, eu, extensão da sua teimosia e também de sua fé, só não quis acreditar.
